Sistema endocanabinoide no autismo: um eixo emergente ou um sistema mestre?
- Berenice Cunha Wilke
- há 21 horas
- 6 min de leitura
Por Dra. Berenice C. Wilke
Durante muitos anos, o sistema endocanabinoide foi visto apenas como um sistema relacionado aos efeitos da cannabis no organismo.
Mas a ciência mudou essa visão.
Hoje sabemos que o sistema endocanabinoide — frequentemente chamado de SEC — participa de funções fundamentais do corpo humano, incluindo:
desenvolvimento cerebral
comunicação entre neurônios
resposta inflamatória
funcionamento imunológico
controle do estresse
dor
sono
metabolismo energético
microbiota intestinal
equilíbrio emocional
Ou seja:
mais do que um sistema isolado, o SEC parece funcionar como um grande modulador do organismo.
E isso levou pesquisadores a fazer uma pergunta importante:
👉 no autismo, o sistema endocanabinoide seria apenas mais um eixo biológico…
ou poderia atuar como um “sistema mestre”, conectando vários dos outros eixos já conhecidos?

O que é o sistema endocanabinoide?
O sistema endocanabinoide é uma rede de sinalização presente em praticamente todo o organismo.
Ele é formado principalmente por:
1. Endocanabinoides
Moléculas produzidas pelo próprio corpo, como:
anandamida (AEA)
2-AG
Essas substâncias funcionam como mensageiros químicos.
2. Receptores canabinoides
Os principais são:
CB1 → predominante no cérebro e sistema nervoso
CB2 → mais relacionado ao sistema imunológico e inflamação
3. Enzimas
Responsáveis por produzir e degradar os endocanabinoides.
Entre elas:
FAAH
MAGL
O SEC não “liga” o cérebro.
Ele ajuda o cérebro a encontrar equilíbrio.
Uma das funções mais interessantes do sistema endocanabinoide é atuar como um modulador fino da atividade cerebral.
Ele participa do equilíbrio entre:
excitação neuronal
inibição neuronal
Esse equilíbrio é extremamente importante no autismo.
Diversos estudos sugerem que parte dos indivíduos com TEA apresenta alterações nessa regulação, especialmente envolvendo:
glutamato
GABA
neuroinflamação
plasticidade sináptica
E o SEC parece conversar diretamente com todos esses sistemas.
A hipótese da “Deficiência Clínica Endocanabinoide” (Clinical Endocannabinoid Deficiency – CECD)
Nos últimos anos, alguns pesquisadores passaram a investigar uma hipótese chamada:
👉 Clinical Endocannabinoid Deficiency (CECD).
Essa teoria sugere que parte dos indivíduos poderia apresentar uma menor atividade ou uma desregulação do sistema endocanabinoide.
Inicialmente, essa hipótese foi proposta em condições como:
fibromialgia
enxaqueca
síndrome do intestino irritável
Mas, mais recentemente, ela começou a ser estudada também em condições neurodesenvolvimentais e neuroinflamatórias, incluindo o TEA.
No autismo, a hipótese não é que exista uma única “causa endocanabinoide”.
O que os pesquisadores investigam é se um subgrupo de indivíduos poderia apresentar alterações na capacidade de modulação do sistema endocanabinoide, envolvendo:
resposta inflamatória
equilíbrio entre excitação e inibição neuronal
resposta ao estresse
sono
regulação sensorial
comunicação intestino–cérebro
🧠 Alguns estudos encontraram níveis reduzidos de anandamida — um dos principais endocanabinoides do organismo — em crianças com TEA.
A anandamida participa da modulação de múltiplos processos importantes para o funcionamento cerebral, incluindo:
resposta ao estresse
equilíbrio neuronal
comportamento social
regulação emocional
neuroinflamação
Esses achados fortaleceram a hipótese de que, em pelo menos parte dos indivíduos com autismo, pode existir uma alteração da sinalização endocanabinoide.
Ainda não sabemos se essas alterações representam causa, consequência ou um mecanismo compensatório do organismo.
👉 Ou seja: essa teoria ainda está em investigação e não representa uma explicação única para o autismo.
Mas ela reforça uma ideia cada vez mais importante:talvez o sistema endocanabinoide participe justamente da regulação integrada de múltiplos sistemas biológicos envolvidos no TEA.
O sistema endocanabinoide e a inflamação
O SEC também participa da regulação imunológica.
Os receptores CB2 estão presentes em células do sistema imune e parecem influenciar:
produção de citocinas
ativação inflamatória
resposta microglial
mastócitos
permeabilidade intestinal
Isso chama atenção porque:
em parte dos indivíduos com TEA, estudos descrevem sinais de:
inflamação crônica de baixo grau
ativação microglial
alterações intestinais
maior prevalência de alergias
possível ativação mastocitária
Mais uma vez, o SEC aparece justamente em um ponto de conexão entre diferentes eixos biológicos.
Intestino, microbiota e SEC
Nos últimos anos, pesquisadores perceberam que existe uma relação íntima entre:
microbiota intestinal
sistema imunológico
metabolismo
cérebro
sistema endocanabinoide
Algumas bactérias intestinais parecem influenciar diretamente a produção de endocanabinoides.
Além disso, o SEC participa da regulação de:
permeabilidade intestinal
motilidade intestinal
inflamação intestinal
comunicação intestino–cérebro
Isso ajuda a explicar por que o SEC vem sendo estudado dentro do chamado eixo intestino–cérebro no autismo.
O SEC também conversa com a mitocôndria
Outro ponto fascinante:
o sistema endocanabinoide parece influenciar o metabolismo energético celular.
Hoje já existem estudos mostrando interação entre o SEC e:
função mitocondrial
estresse oxidativo
produção de energia
metabolismo celular
E isso é particularmente relevante porque alterações bioenergéticas e mitocondriais têm sido descritas em um subgrupo de indivíduos com TEA.
Então o SEC seria um novo eixo?
Talvez não apenas isso.
O mais interessante é que o sistema endocanabinoide parece atravessar vários eixos ao mesmo tempo:
🧠 eixo sináptico🔥 eixo neuroimune🦠 eixo intestino–cérebro🔋 eixo mitocondrial
Por isso, alguns pesquisadores começam a enxergar o SEC menos como um eixo isolado…e mais como um sistema regulador central.
Um possível “sistema mestre” de modulação biológica.
E onde entram CBD e THC?
Essa é provavelmente a parte mais conhecida do tema.
Os fitocanabinoides da planta Cannabis — especialmente:
CBD (canabidiol)
THC (tetra-hidrocanabinol)
interagem com o sistema endocanabinoide.
Mas é importante entender:
👉 o SEC existe independentemente da cannabis.
O organismo produz seus próprios canabinoides naturalmente.
Os compostos da planta apenas conseguem modular esse sistema.
O que os estudos mostram no autismo?
Os estudos ainda estão em evolução.
Até o momento, pesquisas sugerem possíveis efeitos em sintomas como:
irritabilidade
ansiedade
distúrbios do sono
comportamento repetitivo
hiperatividade
regulação emocional
Mas os resultados ainda são heterogêneos.
Além disso:
nem todos os indivíduos respondem da mesma forma
diferentes perfis biológicos provavelmente existem dentro do TEA
ainda faltam estudos de longo prazo
muitas perguntas seguem sem resposta
Ou seja:
a ciência ainda está tentando entender quem poderia se beneficiar, em quais situações e de que maneira.
Caminhamos para uma visão integrada do autismo
Talvez o maior valor do sistema endocanabinoide não esteja apenas no tratamento.
Mas no que ele revela sobre a biologia do autismo.
O SEC parece funcionar como uma ponte entre cérebro, imunidade, metabolismo e intestino.
E isso reforça uma ideia cada vez mais presente na ciência:
👉 o autismo não é uma condição única.
Existem diferentes mecanismos biológicos possíveis dentro do espectro.
E compreender esses mecanismos pode abrir caminho para abordagens mais individualizadas e mais integradas no futuro.

Eixo inflamatório e imune: qual o papel do sistema imune no TEA
Autismo sináptico: quando o principal problema está na comunicação entre neurônios
Histamina, mastócitos e autismo: : uma via emergente dentro do eixo neuroimune
Tecido conjuntivo e autismo: como cuidar de um corpo mais sensível e vulnerável
Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.
Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.
Para saber mais:
Neuroscience Arnold JC, Zamberletti E. The endocannabinoid system in autism spectrum disorder. In: Handbook of Cannabis and Related Pathologies. 2024.
Neuroimmunology Jana A et al. Exploring Its Therapeutic Potential in Autism Spectrum Disorder. 2024.
Psychiatry Aran A et al. Cannabinoid treatment for the symptoms of autism spectrum disorder: recent evidence and clinical perspectives. 2024.
Neurodevelopment Ibsen EWD et al. Cannabinoids as alleviating treatment for core symptoms of autism spectrum disorder in children and adolescents. 2024.
Clinical Research Jawed B et al. The Evolving Role of Cannabidiol-Rich Cannabis in Autism Spectrum Disorder. Int J Mol Sci. 2024.
Neurobiology Udodi PS et al. Targeting the cholinergic and endocannabinoid systems as therapeutic interventions in autism models: a systematic review. 2024/2025.
Cannabinoid Science Cannabinoid-based interventions for behavioral outcomes in children and adolescents with ASD. 2025.
Neuroscience Russo EB. Clinical Endocannabinoid Deficiency Reconsidered: Current Research Supports the Theory in Migraine, Fibromyalgia, Irritable Bowel, and Other Treatment-Resistant Syndromes. Cannabis Cannabinoid Res. 2016.
Autism Research Aran A et al. Lower circulating endocannabinoid levels in children with autism spectrum disorder. Mol Autism. 2019;10:2.
Neurobiology Karhson DS et al. Plasma anandamide concentrations are lower in children with autism spectrum disorder. Mol Autism. 2018;9:18.




Comentários