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Eixo mitocondrial no autismo: como cuidar

  • Foto do escritor: Berenice Cunha Wilke
    Berenice Cunha Wilke
  • 30 de abr.
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 7 dias

Por Dra. Berenice C. Wilke


🔋 Quando a energia entra na equação

Durante muito tempo, o autismo foi compreendido principalmente sob a ótica comportamental e neuropsiquiátrica.


Mas hoje sabemos que, em parte dos indivíduos, há alterações biológicas mais profundas — e uma delas envolve diretamente a forma como as células produzem energia.


👉 É aqui que entra o chamado eixo mitocondrial.


⚙️ O que são as mitocôndrias?

As mitocôndrias são estruturas presentes dentro das células responsáveis por:

  • produzir energia (ATP)

  • regular o metabolismo celular

  • controlar o estresse oxidativo

  • participar da sinalização celular

🧠 No cérebro — um órgão com alta demanda energética — o funcionamento mitocondrial é essencial.


⚠️ O que pode acontecer no autismo?

Estudos mostram que um subgrupo de pessoas com TEA pode apresentar:

  • redução na produção de energia celular

  • aumento do estresse oxidativo

  • alterações na cadeia respiratória mitocondrial

  • maior vulnerabilidade a inflamação


👉 Isso não define todo o espectro, mas ajuda a explicar:

  • fadiga

  • dificuldades cognitivas

  • regressões após estresse ou infecções

  • maior sensibilidade a fatores ambientais


🧩 Um ponto importante: não é tudo ou nada

Nem todo paciente com autismo tem disfunção mitocondrial.


Mas, quando esse eixo está envolvido, ele pode influenciar diretamente:

  • funcionamento cerebral

  • comportamento

  • resposta a tratamentos

👉 Isso reforça a ideia de subgrupos biológicos dentro do TEA.


🧠 O que piora a função mitocondrial?

Alguns fatores podem sobrecarregar ainda mais esse sistema:

  • inflamação crônica

  • infecções

  • alterações intestinais (microbiota)

  • exposição a toxinas ambientais

  • deficiência de micronutrientes

  • estresse metabólico

  • desequilíbrios do sistema endocanabinóide

  • falta de sono

  • desequilíbrios alimentares

👉 Ou seja: muitas vezes não é uma causa única, mas um conjunto de fatores.


🌿 E como cuidar desse eixo?

Aqui está o ponto mais importante.

O cuidado do eixo mitocondrial não envolve apenas suplementação — ele é multifatorial.


🥗 1. Alimentação

Base de tudo.

  • comida de verdade

  • redução de ultraprocessados

  • equilíbrio glicêmico

  • aporte adequado de proteínas e gorduras boas

  • identificação e retirada de alimentos que possam causar alergias ou intolerâncias


👉 A mitocôndria depende diretamente dos nutrientes disponíveis.


🦠 2. Intestino e microbiota

O eixo intestino–cérebro tem impacto direto na função mitocondrial.

  • tratar disbiose

  • melhorar a permeabilidade intestinal

  • reduzir inflamação


👉 Um intestino inflamado impacta energia celular.


🔥 3. Controle da inflamação

Inflamação crônica prejudica o funcionamento mitocondrial.

  • investigar causas

  • tratar gatilhos

  • modular resposta imune


🧘‍♀️ 4. Estilo de vida

Pode parecer simples — mas é fundamental:

  • sono de qualidade

  • exposição à luz natural

  • atividade física (respeitando o limite individual)

👉 Movimento e ritmo biológico influenciam diretamente a bioenergia.


💊 5. Suporte nutricional (quando indicado)

Alguns nutrientes desempenham papel direto na função mitocondrial e no metabolismo energético celular:

Coenzima Q10 (preferencialmente em formas com melhor biodisponibilidade)• Vitaminas do complexo B (essenciais para reações metabólicas e produção de energia)

Magnésio (cofator de múltiplas enzimas mitocondriais), podendo ser utilizado em diferentes formas, conforme o objetivo clínico:   

 – L-treonato: maior penetração no sistema nervoso central   

Bisglicinato: melhor tolerabilidade e efeito calmante    

Malato: mais relacionado ao metabolismo energético

Carnitina (transporte de ácidos graxos para dentro da mitocôndria)

Ácido alfa-lipóico (ação antioxidante e suporte à cadeia respiratória)


👉 A indicação deve ser individualizada, considerando o perfil clínico, metabólico e nutricional de cada paciente.


6.🌿 Modulação de sistemas regulatórios: um olhar mais recente

Nos últimos anos, a ciência tem mostrado que a função mitocondrial não depende apenas de nutrientes ou inflamação direta.


Ela também é modulada por sistemas regulatórios do organismo — que conectam cérebro, sistema imune e metabolismo.


🌱 Sistema endocanabinoide: onde a cannabis entra

O sistema endocanabinoide é um sistema biológico presente em todo o corpo, envolvido na regulação de:

  • resposta ao estresse

  • inflamação

  • neurotransmissão

  • equilíbrio energético celular


Ele atua por meio de receptores como CB1 (mais abundante no cérebro) e CB2 (mais ligado ao sistema imune).


👉 E aqui entra um ponto importante:


Substâncias derivadas da Cannabis sativa, como o Canabidiol (CBD) e o Tetrahidrocanabinol (THC), podem modular esse sistema.


🧠 E no autismo?

Estudos sugerem que, em alguns indivíduos com TEA:

  • pode haver desequilíbrio do sistema endocanabinoide

  • alterações na sinalização sináptica e inflamatória

  • impacto na regulação emocional e comportamental


👉 A modulação desse sistema tem sido estudada como uma possível ferramenta para:

  • redução de irritabilidade

  • melhora do sono

  • modulação da ansiedade

  • regulação da resposta inflamatória


🔋 Relação com a mitocôndria

O ponto mais interessante — e mais recente — é que:

  • receptores canabinoides também estão presentes nas mitocôndrias

  • a ativação desses receptores pode influenciar a produção de energia

  • há impacto sobre o estresse oxidativo e a sinalização celular


👉 Ou seja: o sistema endocanabinoide pode modular a bioenergia celular de forma indireta.


⚡ Resposta ao estresse

O organismo possui sistemas sofisticados para lidar com estresse — principalmente o eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (HPA).


Quando esse sistema está desregulado:

  • há aumento de cortisol

  • maior produção de radicais livres

  • piora da inflamação

  • sobrecarga mitocondrial


🧠 Em alguns indivíduos com TEA, essa resposta pode ser mais intensa ou menos adaptativa.


👉 Isso ajuda a explicar por que:

  • mudanças de rotina podem gerar grande impacto

  • situações de estresse podem piorar sintomas

  • há maior vulnerabilidade a sobrecarga sensorial


🔥 Equilíbrio neuroimune

O cérebro e o sistema imune estão profundamente conectados.

Hoje sabemos que:

  • células imunes (como microglia e mastócitos) influenciam o funcionamento cerebral

  • citocinas inflamatórias afetam neurotransmissores

  • inflamação crônica impacta diretamente a função mitocondrial


👉 Esse eixo neuroimune pode estar alterado em um subgrupo do autismo.


🧬 Conectando os pontos

Esses três sistemas — endocanabinoide, resposta ao estresse e eixo neuroimune — não funcionam isoladamente.


Eles formam uma rede integrada que:

  • regula inflamação

  • modula a atividade cerebral

  • influencia o metabolismo energético


👉 E, no centro dessa rede, estão as mitocôndrias.


📌 Resumo visual

🧬 O eixo mitocondrial mostra que, em parte do autismo, o cuidado vai além do comportamento — envolve energia celular, inflamação, intestino e um olhar integrado sobre o organismo.
🧬 O eixo mitocondrial mostra que, em parte do autismo, o cuidado vai além do comportamento — envolve energia celular, inflamação, intestino e um olhar integrado sobre o organismo.

📌 Em outras palavras

Não estamos falando apenas de “falta de energia celular”.


Estamos falando de um sistema complexo, onde:

  • o cérebro

  • o sistema imune

  • o metabolismo

  • e o ambiente

interagem continuamente.


👉 Cuidar do eixo mitocondrial também é regular esses sistemas.


🧠 O que isso muda na prática?

Muda a forma de olhar o autismo.


Em vez de uma abordagem única, passamos a considerar:

  • diferentes mecanismos biológicos

  • diferentes necessidades

  • diferentes respostas ao tratamento

👉 Caminhamos para uma medicina mais personalizada no TEA.





Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.





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