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Eixo inflamatório e imune: qual o papel do sistema imune no TEA?

  • Foto do escritor: Berenice Cunha Wilke
    Berenice Cunha Wilke
  • 1 de mai.
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 3 dias

Por Dra. Berenice C. Wilke


Outro eixo importante envolve alterações do sistema imunológico e sua interação com o cérebro — o que chamamos de eixo neuroimune.


Nos últimos anos, a literatura tem mostrado que, em parte das pessoas com TEA, podem existir sinais de ativação imune e inflamatória, tanto periférica quanto no sistema nervoso central.


🧠 O que acontece no cérebro

Do ponto de vista biológico, estudos descrevem:

  • alterações em citocinas inflamatórias

  • ativação da micróglia (células de defesa do cérebro)

  • alterações de permeabilidade de barreiras, incluindo a barreira hematoencefálica e a barreira intestinal

  • presença de autoanticorpos em subgrupos de pacientes


🧬 Autoanticorpos e metabolismo cerebral

Um exemplo relevante dentro desse eixo é a presença de autoanticorpos contra o receptor de folato (FRα).


Esses anticorpos podem dificultar o transporte de folato para o sistema nervoso central — mesmo quando os níveis sanguíneos parecem normais.


👉 O folato participa de processos importantes para o cérebro, incluindo:

  • metabolismo cerebral

  • síntese de neurotransmissores

  • desenvolvimento e funcionamento neuronal


Em alguns casos, isso abre espaço para abordagens específicas, como o uso de ácido folínico (leucovorin), reforçando a conexão entre imunidade, metabolismo e função cerebral.


⚠️ Esses achados não estão presentes em todos os indivíduos com TEA e não representam um tratamento universal para o autismo.


🧬 Autoanticorpos anti-FRα podem dificultar a entrada de folato no cérebro — mesmo com níveis sanguíneos normais. Por isso, o ácido folínico (leucovorin) vem sendo estudado em subgrupos específicos do TEA.
🧬 Autoanticorpos anti-FRα podem dificultar a entrada de folato no cérebro — mesmo com níveis sanguíneos normais. Por isso, o ácido folínico (leucovorin) vem sendo estudado em subgrupos específicos do TEA.

🧩 Manifestações clínicas possíveis

Essas alterações biológicas não ficam restritas ao nível celular — elas podem se refletir na prática clínica.


Clinicamente, esse eixo pode se manifestar por um conjunto de sinais que envolvem tanto o sistema imune quanto o gastrointestinal e o comportamento.


Entre as manifestações mais frequentemente observadas:

  • alergias frequentes

  • dermatites e outras condições inflamatórias da pele

  • sintomas gastrointestinais persistentes

  • história pessoal ou familiar de doenças autoimunes

  • sinais de ativação de mastócitos

  • infecções de repetição

  • possível relação com irritabilidade, alterações de sono e comportamento


❓ Mas de onde vem essa ativação imune?


🌿 O intestino como ponto de partida da inflamação

Um dos principais moduladores desse eixo é o intestino.


O trato gastrointestinal não é apenas responsável pela digestão — ele abriga cerca de 70% das células do sistema imune e mantém uma relação direta com o cérebro.


Microbiota intestinal

A microbiota exerce papel central na regulação da imunidade. Alterações na sua composição (disbiose) podem favorecer:

  • produção de metabólitos inflamatórios

  • redução de substâncias protetoras (como ácidos graxos de cadeia curta)

  • ativação imune crônica de baixo grau


LPS (lipopolissacarídeos)

Um ponto particularmente relevante é o aumento de lipopolissacarídeos (LPS) — componentes da parede de bactérias gram-negativas.


Quando há desequilíbrio da microbiota, o LPS pode:

  • atravessar a barreira intestinal

  • entrar na circulação

  • ativar o sistema imune de forma contínua

👉 Esse processo é conhecido como endotoxemia metabólica de baixo grau.


Permeabilidade intestinal

Outro mecanismo importante é o aumento da permeabilidade intestinal (“intestino permeável”).


Nesse cenário:

  • fragmentos bacterianos, toxinas e antígenos alimentares atravessam a barreira intestinal

  • ocorre maior ativação do sistema imune

  • há produção aumentada de citocinas inflamatórias


Essa ativação periférica pode repercutir no sistema nervoso central, contribuindo para o eixo neuroimune.


Desregulação da microbiota intestinal em pacientes com TEA. Este diagrama ilustra visualmente o conceito central do eixo intestino-cérebro: os sintomas gastrointestinais (por exemplo, problemas digestivos causados ​​pela disbiose da microbiota intestinal) influenciam diretamente a função cerebral por meio da comunicação bidirecional ao longo desse eixo, desencadeando alterações comportamentais (por exemplo, comportamentos estereotipados exacerbados em pacientes com TEA) e problemas emocionais (por exemplo, ansiedade e depressão), enquanto essas manifestações neurocomportamentais, por sua vez, exacerbam os sintomas gastrointestinais, formando um ciclo vicioso. Microbiota intestinal e seu metabolismo no transtorno do espectro autista: da patogênese à terapia.
Desregulação da microbiota intestinal em pacientes com TEA. Este diagrama ilustra visualmente o conceito central do eixo intestino-cérebro: os sintomas gastrointestinais (por exemplo, problemas digestivos causados ​​pela disbiose da microbiota intestinal) influenciam diretamente a função cerebral por meio da comunicação bidirecional ao longo desse eixo, desencadeando alterações comportamentais (por exemplo, comportamentos estereotipados exacerbados em pacientes com TEA) e problemas emocionais (por exemplo, ansiedade e depressão), enquanto essas manifestações neurocomportamentais, por sua vez, exacerbam os sintomas gastrointestinais, formando um ciclo vicioso. Microbiota intestinal e seu metabolismo no transtorno do espectro autista: da patogênese à terapia.

🌬️ Sistema imune periférico e gatilhos inflamatórios

Além do que acontece no cérebro, fatores periféricos podem contribuir para a ativação imune.


Entre eles:

  • infecções respiratórias de repetição

  • uso frequente de antibióticos

  • possíveis alterações na competência do sistema imune

  • possíveis deficiências do sistema imune, com maior suscetibilidade a infecções

  • Infecções recorrentes podem manter o sistema imune em estado de alerta contínuo.


Já o uso repetido de antibióticos pode alterar profundamente a microbiota intestinal, favorecendo desequilíbrios que perpetuam a inflamação.


🌿 Histamina, mastócitos e inflamação

Dentro do eixo neuroimune, um tema que vem ganhando atenção é o possível envolvimento da histamina e dos mastócitos.


Os mastócitos são células do sistema imune capazes de liberar mediadores inflamatórios, como histamina, citocinas e outras substâncias bioativas.


Quando ativados de forma excessiva, podem contribuir para:

  • inflamação sistêmica

  • alterações gastrointestinais

  • sintomas alérgicos

  • aumento da permeabilidade intestinal e da barreira hematoencefálica


Além disso, estudos sugerem que mastócitos e micróglia podem interagir diretamente, ampliando sinais inflamatórios no sistema nervoso central.


👉 Embora esse mecanismo não esteja presente em todos os indivíduos com TEA, ele vem sendo estudado como um possível subgrupo dentro do eixo inflamatório e imune.



🧠 Quando infecções podem “imitar” TEA

Infecções que acometem o sistema nervoso central, especialmente em fases precoces da vida, podem levar a quadros com atraso do desenvolvimento e alterações comportamentais que lembram o TEA.


Relatos isolados descrevem crianças com diagnóstico de TEA nas quais foram identificadas infecções do sistema nervoso central, com melhora variável de sintomas após o tratamento.


No entanto, esses casos devem ser interpretados com cautela, pois podem representar:

  • quadros secundários

  • condições que mimetizam o espectro autista

  • ou manifestações relacionadas à inflamação cerebral

👉 Não necessariamente refletem o mesmo mecanismo biológico do TEA.


Essa distinção é importante para evitar simplificações e garantir uma avaliação clínica adequada de cada caso.


🔄 Integração com o eixo mitocondrial

A inflamação crônica de baixo grau não atua isoladamente.


Ela pode:

  • aumentar o estresse oxidativo

  • comprometer a função mitocondrial

  • reduzir a produção de energia celular


Ao mesmo tempo, mitocôndrias disfuncionais podem amplificar a inflamação.


👉 Forma-se, assim, um ciclo: inflamação ↔ disfunção energética


🔌 Relação com o eixo sináptico

A inflamação pode impactar diretamente a comunicação entre neurônios.


Citocinas inflamatórias, estresse oxidativo e ativação da micróglia podem interferir no funcionamento das sinapses — especialmente no equilíbrio entre excitação e inibição neuronal.


Esse desequilíbrio tem sido associado a alterações de:

  • processamento sensorial

  • comportamento

  • sono

  • regulação emocional


👉 Dessa forma, o eixo neuroimune se conecta ao chamado eixo sináptico do autismo.


🌿 Relação com o sistema endocanabinoide

O sistema endocanabinoide parece exercer um papel importante na regulação da inflamação e da comunicação cerebral.


Esse sistema participa da modulação de:

  • resposta imune

  • atividade da micróglia

  • resposta ao estresse

  • comunicação entre neurônios


Alterações nesse sistema têm sido estudadas como uma possível ponte entre inflamação, metabolismo cerebral e funcionamento sináptico no TEA.


👉 Isso reforça a ideia de que os diferentes eixos biológicos do autismo não funcionam de forma isolada, mas profundamente conectada.


🔄 Um sistema integrado

Inflamação, energia celular, microbiota e comunicação entre neurônios se influenciam continuamente.


Em alguns casos de TEA, compreender essas conexões pode ajudar a entender melhor a heterogeneidade do espectro e abrir espaço para abordagens mais individualizadas.


⚖️ Um ponto essencial

Esse conjunto de achados sugere que, em alguns casos, o cérebro pode estar funcionando sob um estado de ativação imune e inflamação crônica de baixo grau, com possíveis impactos no desenvolvimento e na regulação do comportamento.


Mas é fundamental reforçar: essas alterações não estão presentes em todos os indivíduos com TEA. Quando ocorrem, geralmente fazem parte de um quadro mais amplo, heterogêneo e multifatorial.


💡Em alguns casos de autismo, o sistema imune não está apenas reagindo — ele pode estar participando ativamente da forma como o cérebro funciona.

Autismo inflamatório e imune unindo cérebro, sistema imune, intestino e mitocôndria
Autismo inflamatório e imune unindo cérebro, sistema imune, intestino e mitocôndria


Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.


Saiba mais:

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    🔗https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26064157/

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