🔋Eixo mitocondrial no autismo
- Berenice Cunha Wilke
- 25 de abr.
- 8 min de leitura
Por Dra. Berenice C. Wilke
Quando a energia celular se torna parte da explicação
Quando falamos em autismo, é comum pensarmos apenas no cérebro.Mas, em uma parcela importante dos casos, o que está em jogo vai além da comunicação entre neurônios.
👉 Envolve também a forma como o organismo produz e utiliza energia. Esse é o chamado eixo mitocondrial.
🧬 O que são as mitocôndrias — e por que elas importam
As mitocôndrias são estruturas presentes dentro das células responsáveis por produzir energia na forma de ATP — a “moeda energética” do organismo.
Mas limitar seu papel à produção de energia é simplificar demais.
Elas também participam de processos essenciais para o funcionamento do corpo e, especialmente, do cérebro:
regulação do cálcio celular
produção de neurotransmissores
controle do estresse oxidativo
modulação da resposta inflamatória
apoptose (morte celular programada)
funcionamento e plasticidade das sinapses
Para entender a dimensão desse sistema, vale um dado impressionante:
👉 em um adulto de cerca de 70 kg, as mitocôndrias produzem continuamente energia equivalente a aproximadamente 2 pilhas AA a cada 5 minutos.
Isso significa que o corpo está gerando energia o tempo todo 🔋🔋— sem praticamente armazená-la — para sustentar funções vitais como pensamento, movimento, imunidade e regulação hormonal.
O cérebro, embora represente apenas cerca de 2% do peso corporal, consome aproximadamente 20% de toda essa energia em repouso — e ainda mais durante o desenvolvimento.
👉 Ou seja: o funcionamento cerebral depende diretamente de um sistema energético eficiente e estável.

⚖️ Mais do que energia: equilíbrio
Durante muito tempo, acreditou-se que o problema mitocondrial estivesse apenas na falta de energia.
Hoje sabemos que essa visão é incompleta. A disfunção mitocondrial pode ocorrer de duas formas principais:
🔻 Produção insuficiente de energia, prejudicando o crescimento e a organização das redes neurais
🔺 Produção excessiva e desorganizada, levando ao aumento de radicais livres e inflamação
👉 O cérebro em desenvolvimento não precisa apenas de energia — ele precisa de equilíbrio na forma como essa energia é produzida e utilizada.
🧩 Diferentes níveis de envolvimento mitocondrial
Nem todas as alterações mitocondriais são iguais. Na prática clínica, é possível reconhecer diferentes níveis de envolvimento, que vão desde formas mais definidas até alterações funcionais mais sutis:
1. Doenças mitocondriais clássicas (mais raras)
São condições genéticas bem definidas, causadas por mutações no DNA mitocondrial ou nuclear.
prevalência estimada: cerca de 1:4.000–5.000
podem cursar com quadros neurológicos, musculares e sistêmicos importantes
👉 Representam uma pequena parcela dos casos de autismo.
2. Disfunção mitocondrial (intermediário)
Aqui, não há uma doença mitocondrial clássica, mas existem sinais de funcionamento alterado.
Estudos sugerem que:
cerca de 30–50% das pessoas com TEA apresentam algum biomarcador de disfunção mitocondrial
Essa alteração pode estar relacionada a:
inflamação crônica
estresse oxidativo
alterações metabólicas
predisposição genética
3. Disregulação bioenergética (“fadiga mitocondrial”) — provavelmente a mais frequente
Este é o grupo mais comum na prática clínica. Nesses casos:
não há doença mitocondrial definida
exames podem ser normais
mas o paciente apresenta sinais de baixa eficiência energética
A produção de energia pode até ser adequada em repouso, mas:
não acompanha situações de estresse
oscila ao longo do dia
falha em momentos de maior demanda
Esse padrão é frequentemente descrito como:
👉 fadiga mitocondrial ou disfunção bioenergética funcional
E pode estar associado a:
fadiga fácil
baixa resistência física
piora após infecções
flutuação cognitiva ou comportamental
maior sensibilidade ao estresse fisiológico
👉 Aqui, o problema não é estrutural — é funcional e adaptativo.
🦠 Microbiota intestinal e função mitocondrial
O intestino e a mitocôndria estão mais conectados do que se imaginava.
A microbiota intestinal influencia diretamente o metabolismo celular por meio da produção de:
ácidos graxos de cadeia curta (como butirato)
metabólitos bacterianos
neurotransmissores
moduladores do sistema imune
👉 Esses elementos impactam diretamente a função mitocondrial.
🔄 O eixo intestino–mitocôndria
Quando há desequilíbrio da microbiota (disbiose), podem ocorrer:
aumento da inflamação sistêmica
maior produção de toxinas metabólicas
aumento da permeabilidade intestinal
sobrecarga do estresse oxidativo
👉 Tudo isso pode comprometer a produção de energia celular.
🧠 E no autismo?
Em parte dos indivíduos com TEA, estudos mostram:
alterações na composição da microbiota
maior prevalência de sintomas gastrointestinais
associação com inflamação sistêmica
👉 Isso reforça a ideia de que o intestino pode influenciar o funcionamento cerebral — inclusive via mitocôndria.
Sistema endocanabinoide e função mitocondrial
O sistema endocanabinoide (SEC) é um importante modulador do equilíbrio do organismo, atuando em processos como inflamação, metabolismo, resposta ao estresse e função neurológica.
Mais recentemente, estudos têm mostrado que ele também desempenha um papel relevante na regulação da função mitocondrial.
Os receptores canabinoides — especialmente o CB1 — podem estar presentes nas próprias mitocôndrias, influenciando diretamente:
a produção de energia celular
o equilíbrio entre excitação e inibição neuronal
a resposta ao estresse oxidativo
a sinalização inflamatória
👉 Ou seja, o SEC atua como uma ponte entre o ambiente, o sistema nervoso e a bioenergia celular.
No contexto do autismo, em que frequentemente observamos alterações em inflamação, metabolismo e regulação neuronal, esse sistema pode contribuir para a compreensão de alguns subgrupos dentro do espectro.
👉O SEC não é a causa isolada, mas parte de uma rede de regulação que influencia diretamente o funcionamento mitocondrial.
🌍 O ponto de convergência: ambiente e mitocôndria
Sabemos que diferentes fatores — muitas vezes aparentemente sem relação entre si — podem contribuir para o risco de alterações no neurodesenvolvimento. Entre eles, destacam-se:
🌱 Agrotóxicos e pesticidas
Incluem substâncias como organofosforados, glifosato e outros compostos amplamente utilizados na agricultura.
Podem:
interferir na cadeia respiratória mitocondrial
aumentar a produção de radicais livres
alterar a microbiota intestinal
modular vias inflamatórias
👉 Em modelos experimentais, muitos desses compostos apresentam efeito direto sobre a função mitocondrial.
⚙️ Metais pesados
Como chumbo, mercúrio, arsênio e cádmio.
Estão associados a:
aumento de estresse oxidativo
dano ao DNA mitocondrial
prejuízo na produção de ATP
alterações na neurotransmissão
👉 O DNA mitocondrial é particularmente vulnerável a esses danos.
🌫️ Poluição ambiental
Inclui material particulado, poluentes atmosféricos e compostos industriais.
Pode levar a:
inflamação sistêmica de baixo grau
aumento de espécies reativas de oxigênio
disfunção endotelial
impacto indireto na função mitocondrial
👉 A exposição crônica parece ser mais relevante do que exposições isoladas.
🔥 Retardantes de chama (PBDEs e compostos relacionados)
Os éteres difenílicos polibromados (PBDEs) são amplamente utilizados em:
móveis estofados
colchões
eletrônicos
tecidos e plásticos
Esses compostos:
são lipossolúveis e se acumulam no organismo
persistem no ambiente por longos períodos
já foram detectados em sangue, tecido adiposo e leite materno
Do ponto de vista biológico, podem:
interferir na função mitocondrial
aumentar o estresse oxidativo
alterar a sinalização hormonal (especialmente tireoidiana)
impactar o neurodesenvolvimento
👉 A exposição costuma ser crônica e cumulativa, muitas vezes invisível no dia a dia.
🔥 Inflamação crônica
Pode ter múltiplas origens:
infecções persistentes
disbiose intestinal
doenças metabólicas
estresse crônico
A inflamação:
consome grande quantidade de energia
aumenta o estresse oxidativo
altera a eficiência mitocondrial
👉 Sistema imune e mitocôndria estão intimamente conectados.
🥗 Alterações nutricionais
Tanto deficiência quanto excesso podem impactar a bioenergia.
Incluem:
deficiência de micronutrientes (ferro, B12, folato, magnésio, coenzimas)
dietas ricas em ultraprocessados
baixa ingestão de antioxidantes
desequilíbrios de macronutrientes
👉 As mitocôndrias dependem diretamente de cofatores nutricionais para funcionar.
⚖️ Distúrbios metabólicos
Como:
resistência à insulina
obesidade
diabetes
síndrome metabólica
Podem levar a:
redução da biogênese mitocondrial
aumento de inflamação
sobrecarga oxidativa
menor eficiência na produção de energia
👉 O metabolismo energético global influencia diretamente a função mitocondrial.
Apesar de diferentes, esses fatores compartilham um efeito comum:
👉 aumentam estresse oxidativo, inflamação e sobrecarga metabólica
👉 e, por caminhos distintos, convergem para um mesmo ponto dentro da célula:
➡️ a bioenergia mitocondrial
O papel da epigenética
A epigenética ajuda a entender como o ambiente “conversa” com os genes. Ela regula quais genes serão ativados ou silenciados sem alterar a sequência do DNA. Esses mecanismos podem influenciar:
genes relacionados à função mitocondrial
vias inflamatórias
formação de sinapses
Durante a gestação e os primeiros anos de vida — os chamados primeiros 1000 dias — essa influência é ainda mais intensa.
👉 Quanto mais cedo ocorre a interferência ambiental, maior tende a ser o impacto sobre a função mitocondrial, com possíveis repercussões no desenvolvimento cerebral.
🔥 O “círculo vicioso” metabólico
Um dos aspectos mais relevantes da disfunção mitocondrial é que ela raramente ocorre isoladamente.
Existe um ciclo que se retroalimenta:
disfunção mitocondrial
aumento de radicais livres (estresse oxidativo)
inflamação crônica
👉 Cada um desses fatores piora o outro.
Esse padrão ajuda a explicar por que alguns pacientes apresentam:
regressões após infecções
pioras em períodos de estresse
evolução clínica oscilante
Sinais clínicos que podem sugerir esse eixo
Nem sempre esse eixo é óbvio.Mas alguns sinais aumentam a suspeita, especialmente quando aparecem em conjunto:
fadiga ou baixa resistência física
hipotonia
atraso motor
regressão após infecções
distúrbios do sono
sintomas gastrointestinais persistentes
convulsões
flutuação do comportamento ou da cognição
sensibilidade a medicamentos
múltiplos sistemas envolvidos
👉 Muitas vezes, o quadro vai além do comportamento e envolve o organismo como um todo.
🧪 E quanto aos exames laboratoriais?
Na suspeita de envolvimento mitocondrial, alguns exames podem trazer pistas, como lactato, piruvato, CK e marcadores metabólicos e inflamatórios. Em casos selecionados, a investigação pode incluir sequenciamento do exoma, idealmente com análise do DNA mitocondrial especialmente quando há sinais sindrômicos ou comprometimento multissistêmico
👉 Exames normais não excluem disfunção mitocondrial. Na prática, o funcionamento mitocondrial nem sempre é captado por exames — mas pode ser percebido na história clínica.
🧠 Por que isso é relevante no autismo
O desenvolvimento cerebral depende de:
energia disponível
equilíbrio redox
regulação inflamatória
funcionamento sináptico adequado
Quando a bioenergia está alterada:
sinapses podem se formar de forma inadequada
redes neurais podem se organizar de maneira diferente
a adaptação ao ambiente pode ser prejudicada
👉 Isso não explica todo o autismo — mas pode explicar parte dos casos e da variabilidade clínica.
✨ Uma mudança de perspectiva
Talvez a pergunta não seja apenas:
👉 “Existe ou não disfunção mitocondrial?”
Mas sim:
👉 “Como a energia celular está sendo produzida, regulada e utilizada nesse organismo?”
Porque, em muitos casos:
👉 o problema não está na mitocôndria isoladamente —mas no contexto biológico em que ela está inserida.
🧩 Síntese final
O eixo mitocondrial representa um conjunto de situações em que a bioenergia celular desempenha papel relevante no quadro clínico do autismo. Ele pode incluir:
doenças mitocondriais raras
disfunções detectáveis em exames
e, mais frequentemente, alterações funcionais da eficiência energética
Esse eixo é particularmente importante quando o autismo vem acompanhado de:
regressão
fadiga
sintomas sistêmicos
flutuação clínica
Mais do que um detalhe metabólico, a mitocôndria pode ser uma peça central para entender por que alguns quadros são tão complexos, dinâmicos e heterogêneos.
👉“No autismo, talvez não se trate apenas de comportamento — mas também de como o organismo produz, organiza e sustenta a energia necessária para se desenvolver.”

Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.
Para saber mais:
Rossignol DA, Frye RE.
Mitochondrial dysfunction in autism spectrum disorders: a systematic review and meta-analysis.
Mol Psychiatry. 2012;17(3):290–314.
Frye RE.
Mitochondrial dysfunction in autism spectrum disorder: unique abnormalities and targeted treatments.
Semin Pediatr Neurol. 2020;35:100829.
Hollis F, Kanellopoulos AK, Bagni C.
Mitochondrial dysfunction in autism spectrum disorder: clinical features and perspectives.
Curr Opin Neurobiol. 2017;45:178–187.
Giulivi C, Zhang YF, Omanska-Klusek A, et al.
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JAMA. 2010;304(21):2389–2396.
Naviaux RK.
Metabolic features of the cell danger response.
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Mitochondrial dysfunction in autism spectrum disorder: evidence, mechanisms, and treatments.
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Epigenomics. 2020;12(19):1697–1711.
🔗 https://www.thiemeconnect.com/products/ejournals/pdf/10.3934/genet.2016.4.292.pdf
Bölte S, Girdler S, Marschik PB.
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