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Autismo sináptico: quando a comunicação entre neurônios é o principal eixo envolvido

  • Foto do escritor: Berenice Cunha Wilke
    Berenice Cunha Wilke
  • há 7 dias
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 3 dias

Por Dra. Berenice C. Wilke

Como alterações nas sinapses e no sistema glutamatérgico podem influenciar o funcionamento cerebral no autismo.


🧠 1. Introdução

O autismo é um espectro heterogêneo, com múltiplas vias biológicas envolvidas.

Nos últimos anos, um dos eixos que mais tem ganhado destaque é o eixo sináptico, especialmente relacionado ao funcionamento das sinapses glutamatérgicas — fundamentais para a comunicação entre neurônios.


👉 Em alguns indivíduos, parte das manifestações do TEA pode estar ligada a alterações nessa comunicação neural.


⚡ 2. O que são sinapses e por que elas importam?

As sinapses são os pontos de conexão entre os neurônios.


É através delas que o cérebro:

  • processa informações

  • aprende

  • regula emoções

  • integra estímulos sensoriais


👉 Ou seja: não é só “ter neurônios” — é como eles se comunicam que faz a diferença.


🔬 3. O papel do glutamato no cérebro

O glutamato é o principal neurotransmissor excitatório do sistema nervoso central.

Ele participa de:

  • aprendizado e memória

  • plasticidade cerebral

  • formação de circuitos neurais

Esse sistema depende de um equilíbrio fino com o GABA (inibitório).


👉 Pequenos desequilíbrios podem impactar significativamente o funcionamento cerebral.


⚖️ 4. O equilíbrio excitação–inibição

O cérebro precisa manter um equilíbrio entre:

  • excitação (glutamato)

  • inibição (GABA)

Quando esse equilíbrio é alterado:

  • pode haver hiperexcitabilidade

  • dificuldade de filtrar estímulos

  • alterações na organização dos circuitos neurais


👉 Essa hipótese é uma das mais estudadas no autismo atualmente.


✂️5. Poda sináptica: organizando o cérebro

Durante o desenvolvimento cerebral, o cérebro cria inúmeras conexões entre neurônios.


Depois, parte dessas conexões é reorganizada por um processo natural chamado poda sináptica.


👉 Esse processo é mais intenso nos primeiros anos de vida e volta a ter grande importância durante a adolescência — fases em que o cérebro passa por grandes reorganizações.


👉 O objetivo é tornar a comunicação cerebral mais eficiente e equilibrada.


Alguns estudos sugerem que, em parte do TEA, essa reorganização pode ocorrer de forma diferente.


Isso pode contribuir para:

• hiperexcitabilidade

• sobrecarga sensorial

• dificuldade de filtrar estímulos

• maior sensibilidade ao ambiente


🧩 A poda sináptica não depende apenas dos neurônios. Ela sofre influência de múltiplos sistemas biológicos, incluindo:

  • microglia e inflamação neuroimune

  • microbiota intestinal

  • metabolismo e bioenergia cerebral

  • mastócitos e sistema histaminérgico

  • sistema endocanabinoide

  • sono e ritmos biológicos


👉 Isso reforça a ideia de que o autismo envolve redes integradas entre cérebro, metabolismo e sistema imune.


🧬 6. O que a genética mostra

Diversos genes associados ao TEA estão ligados à função sináptica, incluindo:

  • organização da sinapse

  • receptores glutamatérgicos

  • proteínas pós-sinápticas

  • liberação de neurotransmissores


👉 Isso reforça a ideia de que, em parte dos casos, o autismo pode ser entendido como uma condição de disfunção sináptica.


🧬 Genes relacionados ao eixo sináptico

Explicando que muitos genes associados ao TEA participam:

  • da formação das sinapses

  • da organização da comunicação neuronal

  • do equilíbrio excitação–inibição

  • da plasticidade cerebral


🔬 Os principais genes que valem citar

🌿 Organização sináptica

  • SHANK3

  • NRXN1

  • NLGN3 / NLGN4


👉 importantes para estrutura e estabilidade da sinapse


Genes relacionados ao sistema glutamatérgico

  • GRIN2B

  • GRIA

  • SLC1A2


👉 relacionados a receptores glutamatérgicos e recaptação de glutamato


⚖️ Genes relacionados a excitação–inibição

  • genes ligados ao GABA

  • GABRB3 (vale citar)


🔋 Genes relacionados a plasticidade e metabolismo neuronal

  • SYNGAP1

  • SCN2A

👉 frequentemente associados a hiperexcitabilidade e neurodesenvolvimento



7. O que pode modular esse eixo: intestino, inflamação, bioenergia e sistemas regulatórios

O funcionamento sináptico não depende apenas do cérebro — ele é influenciado por outros sistemas do organismo.


🦠 Microbiota intestinal

A flora intestinal participa da regulação do cérebro por diferentes vias:

  • produção de metabólitos

  • modulação de neurotransmissores

  • influência sobre o sistema imune

  • comunicação pelo eixo intestino–cérebro


Alterações na microbiota (disbiose) podem:

  • aumentar a permeabilidade intestinal

  • ativar o sistema imune

  • influenciar a excitabilidade cerebral


🔥 Inflamação sistêmica

A inflamação tem impacto direto sobre o funcionamento das sinapses:

  • reduz a recaptação de glutamato → aumentando sua disponibilidade

  • altera o equilíbrio com o GABA

  • ativa a micróglia → interferindo na organização das conexões neurais


👉 Isso pode favorecer um estado de hiperexcitabilidade cerebral.


🍽️ Glutamato alimentar — qual o papel?

O glutamato presente na alimentação:

  • não atravessa diretamente o cérebro em condições normais

  • é metabolizado principalmente no intestino


👉 Portanto, ele não é causa direta de alterações cerebrais.


No entanto, em indivíduos mais sensíveis:

  • com disbiose

  • com inflamação

  • ou com um sistema já hiperexcitado

ele pode atuar como um modulador de sintomas, e não como causa principal.


🔋 O papel da bioenergia cerebral

O funcionamento das sinapses depende de alta demanda energética.


Cada etapa da comunicação entre neurônios exige energia:

  • liberação de neurotransmissores

  • recaptação de glutamato

  • manutenção dos gradientes iônicos

  • plasticidade sináptica

👉 Tudo isso depende diretamente das mitocôndrias.


⚠️ O que acontece quando falta energia?

Alterações na bioenergia cerebral podem levar a:

  • dificuldade na recaptação de glutamato

    → aumento da excitabilidade

  • redução da eficiência sináptica

    → prejuízo na comunicação neuronal

  • maior vulnerabilidade ao estresse oxidativo


👉 Ou seja:menos energia → pior controle do sistema glutamatérgico


🌿 Sistema endocanabinoide

O sistema endocanabinoide atua como um modulador do equilíbrio cerebral. Ele participa da:

  • regulação da excitabilidade neuronal

  • modulação da inflamação

  • resposta ao estresse

  • plasticidade sináptica


👉 funcionando como um importante sistema de “ajuste fino” das conexões neurais.


🌿 Sistema histaminérgico e mastócitos

A histamina também influencia o funcionamento cerebral.


Além das reações alérgicas, ela participa:

  • da vigília e sono

  • da modulação inflamatória

  • da comunicação neuroimune

  • da excitabilidade neuronal


👉 A ativação mastocitária e alterações do sistema histaminérgico podem impactar a estabilidade sináptica em alguns indivíduos.


🍽️ Fatores ambientais e alimentares

Fatores ambientais podem atuar como moduladores do sistema nervoso:

👉 Muitos desses fatores podem interferir na função mitocondrial, aumentar estresse oxidativo e favorecer estados de hiperexcitabilidade cerebral.


👉 Em indivíduos mais sensíveis, esses fatores podem influenciar sintomas e regulação cerebral.


🔗 Integração dos sistemas

👉 O mais importante não é um fator isolado, mas a interação:

  • Mitocôndrias - fornecem a bioenergia para a função cerebral

    → A sinapse não é apenas um sistema de comunicação — é também um sistema de alto consumo energético.

     → baixa eficiência energética - pior controle do glutamato

  • Disbiose intestinal→ ativa o sistema imune

  • Inflamação sistêmica→ altera a função sináptica

  • Sistema nervoso mais excitável→ maior sensibilidade a estímulos


👉 Esse conjunto pode contribuir para alterações na comunicação entre neurônios.


🧩 8. Como isso pode aparecer no dia a dia

Esse eixo pode se associar, em alguns indivíduos, a:

  • hipersensibilidade sensorial

  • sobrecarga fácil

  • rigidez cognitiva

  • dificuldade de adaptação

  • irritabilidade ou desregulação


👉 Não define todos os casos — mas ajuda a entender padrões.


🧪 9. O que isso pode significar na prática

Entender esse eixo:

  • amplia a compreensão biológica do TEA

  • ajuda a identificar possíveis subgrupos

  • abre espaço para abordagens mais individualizadas


👉 Caminhamos para uma medicina de precisão no autismo.


📌 10. Resumo visual


Neste eixo, o foco está nas sinapses — especialmente no sistema glutamatérgico — e em como fatores como inflamação, microbiota intestinal e bioenergia cerebral podem influenciar esse equilíbrio. 👉 Não é a única explicação para o autismo, mas ajuda a compreender um subgrupo dentro do espectro.
Neste eixo, o foco está nas sinapses — especialmente no sistema glutamatérgico — e em como fatores como inflamação, microbiota intestinal e bioenergia cerebral podem influenciar esse equilíbrio. 👉 Não é a única explicação para o autismo, mas ajuda a compreender um subgrupo dentro do espectro.

🔗 11. Mensagem final

O autismo não é uma condição única — é um conjunto de diferentes caminhos biológicos.

O eixo sináptico é um deles.


E compreender como cérebro, intestino e sistema imune interagem é um passo importante para abordagens mais integradas e individualizadas.




Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.



Para saber mais:

  1. Lee E, Lee J, Kim E. Excitation/Inhibition Imbalance in Animal Models of Autism Spectrum Disorders. Biol Psychiatry. 2017;81(10):838–847.

    👉 https://doi.org/10.1016/j.biopsych.2016.05.011

  2. Sohal VS, Rubenstein JLR. Excitation–inhibition balance as a framework for investigating mechanisms in neuropsychiatric disorders. Mol Psychiatry. 2019;24(9):1248–1257.

    👉 https://doi.org/10.1038/s41380-019-0426-0

  3. Uzunova G, Pallanti S, Hollander E. Excitatory/inhibitory imbalance in autism spectrum disorders: Implications for interventions and therapeutics. World J Biol Psychiatry. 2016;17(3):174–186.

    👉 https://doi.org/10.3109/15622975.2015.1085597

  4. Ecker C, Bookheimer SY, Murphy DGM. Neuroimaging in autism spectrum disorder: brain structure and function across the lifespan. Lancet Neurol. 2015;14(11):1121–1134.

    👉 https://doi.org/10.1016/S1474-4422(15)00050-2

  5. Cellot G, Cherubini E. GABAergic signaling as therapeutic target for autism spectrum disorders: a systematic review. Front Cell Neurosci. 2014;8:70.

    👉 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25072038/

  6. Horder J, Petrinovic MM, Mendez MA, Bruns A, Takumi T, Spooren W, et al. Glutamate and GABA in autism spectrum disorder—a systematic review and meta-analysis of magnetic resonance spectroscopy studies. Transl Psychiatry. 2018 May 25;8(1):106.

    👉https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29802263/




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