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🧠 Autismo sináptico: como cuidar na prática

  • Foto do escritor: Berenice Cunha Wilke
    Berenice Cunha Wilke
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 21 horas

Por Dra. Berenice C. Wilke


Quando falamos em autismo sináptico, estamos nos referindo a um subgrupo dentro do espectro em que o principal eixo envolvido é a comunicação entre os neurônios.


Nesse contexto, o cuidado não se resume a “acalmar sintomas”, mas sim a modular a função sináptica — o que envolve neurotransmissores, energia cerebral, inflamação e ambiente metabólico.


1. Regular o equilíbrio excitação × inibição

O cérebro funciona em equilíbrio entre dois sistemas principais:

  • Glutamato → excitador

  • GABA → inibitório


No autismo sináptico, frequentemente há um predomínio da excitação, o que pode se manifestar como:

  • ansiedade

  • irritabilidade

  • hipersensibilidade sensorial

  • dificuldade de sono


👉 O objetivo terapêutico aqui é reduzir a hiperexcitabilidade e favorecer o tônus inibitório.


2. Poda sináptica: organizando as conexões cerebrais

Durante o desenvolvimento cerebral, o cérebro cria inúmeras conexões entre neurônios.


Depois, parte dessas conexões é reorganizada por um processo natural chamado poda sináptica.


👉 Esse processo ajuda o cérebro a funcionar de forma mais eficiente e equilibrada.


A poda sináptica é mais intensa nos primeiros anos de vida e volta a ter grande importância durante a adolescência — fases em que o cérebro passa por grandes reorganizações.


Alguns estudos sugerem que, em parte do TEA, essa reorganização pode ocorrer de forma diferente. Isso pode contribuir para:

  • hiperexcitabilidade cerebral

  • sobrecarga sensorial

  • dificuldade de filtrar estímulos

  • maior sensibilidade ao ambiente


🧠 E o mais interessante é que a poda sináptica não depende apenas dos neurônios.

Células do sistema imune cerebral, especialmente a microglia, também participam desse processo.


Quando existe inflamação persistente, ativação imune ou desequilíbrio metabólico, essa regulação pode ser afetada.


3. Microglia, inflamação e histamina

A comunicação entre neurônios não depende apenas das sinapses.


Células do sistema imune cerebral, especialmente a microglia, também participam da organização e da regulação dessas conexões.


Hoje sabemos que inflamação, histamina e ativação mastocitária podem influenciar diretamente a excitabilidade cerebral.


👉 Isso significa que o eixo sináptico conversa constantemente com:

  • sistema imune

  • eixo inflamatório

  • microbiota intestinal

  • sistema histaminérgico


Por isso, em muitos casos, cuidar apenas da neurotransmissão não é suficiente.


O cérebro funciona de forma integrada.


🌿 4. Compostos que modulam a função sináptica


🔹 Principais moduladores

🌱 Canabinoides (CBD broad e full spectrum)

Os canabinoides atuam no sistema endocanabinoide, que regula diretamente:

  • liberação de neurotransmissores

  • excitabilidade neuronal

  • resposta ao estresse


Possíveis benefícios:

  • redução da hiperatividade neuronal

  • melhora da ansiedade e irritabilidade

  • melhor regulação do sono


👉 O broad spectrum - não contém THC

👉 O full spectrum pode ter efeito mais robusto (efeito entourage)

⚠️ A escolha deve ser individualizada, especialmente em crianças.


⚙️ Magnésio

O magnésio é um dos pilares do cuidado sináptico:

  • modula receptores NMDA (glutamato)

  • reduz excitotoxicidade

  • melhora relaxamento neuromuscular

👉 Frequentemente associado a:

  • melhora do sono

  • redução de irritabilidade

  • diminuição de tensão corporal


🌙 Glicina

A glicina atua como:

  • neurotransmissor inibitório

  • co-agonista do receptor NMDA (modulação fina)

👉 Pode contribuir para:

  • melhora do sono

  • redução da hiperexcitabilidade

  • estabilização da função sináptica


🌿 L-teanina

A L-teanina (presente no chá verde) atua:

  • aumentando GABA

  • modulando glutamato

  • promovendo relaxamento sem sedação

👉 Útil em:

  • ansiedade

  • agitação leve

  • dificuldade de foco com hiperexcitabilidade

  • canabinoides (quando indicado)


🔹 Moduladores estratégicos (dependendo do perfil)

  • regula glutamato (via sistema cistina-glutamato)

  • reduz estresse oxidativo

  • tem evidência em irritabilidade no TEA

👉 Especialmente útil em:

  • comportamento mais desorganizado

  • irritabilidade

  • compulsividade

  • taurina

  • zinco

  • melatonina

  • creatina


Zinco

  • modula receptores de glutamato

  • participa da função GABA

  • impacto direto em plasticidade sináptica

👉 Baixos níveis podem piorar:

  • irritabilidade

  • atenção

  • regulação emocional


Melatonina (quando o sono está alterado)

  • regula ritmo circadiano

  • tem efeito neuroprotetor e antioxidante

  • influencia plasticidade sináptica

👉 Não é só “para dormir” — é regulador cerebral.


🔋Creatina (ponte entre sinapse e energia)

  • reserva rápida de energia cerebral

  • suporte à neurotransmissão


👉 Útil em:

  • fadiga mental

  • baixa energia

  • dificuldade de processamento


🔹 Mais específicos


Rhodiola rosea

Adaptógeno com ação sobre:

  • eixo estresse (HPA)

  • fadiga mental

  • neurotransmissores

👉 Pode ajudar em:

  • sobrecarga sensorial

  • fadiga cognitiva

  • irritabilidade relacionada ao estresse


Inositol (especialmente mio-inositol)

  • atua em sinalização intracelular

  • modula ansiedade e regulação emocional

👉 Pode ajudar em:

  • ansiedade mais “cognitiva”

  • rigidez mental

⚠️ Não é para todos — mais útil em perfis específicos.


🔋5. Suporte mitocondrial: energia para o cérebro funcionar

Sinapse consome muita energia.

Sem energia adequada:

  • neurotransmissão falha

  • plasticidade cerebral reduz

  • cérebro fica mais vulnerável ao estresse

👉 Estratégias importantes:

  • vitaminas do complexo B

  • CoQ10 de alta biodisponibilidade

  • carnitina

  • antioxidantes (NAC, vitamina C, E)


🦠 6. Microbiota intestinal e eixo intestino–cérebro

A microbiota influencia diretamente:

  • produção de neurotransmissores

  • inflamação

  • permeabilidade intestinal

Desequilíbrios podem aumentar:

  • glutamato

  • inflamação

  • sintomas comportamentais

👉 Cuidar da microbiota não é opcional nesse eixo.


🌙 7. Sono: peça central da regulação sináptica

Durante o sono ocorre:

  • reorganização sináptica

  • “limpeza” metabólica cerebral

  • consolidação de aprendizado

👉 Privação de sono piora:

  • irritabilidade

  • atenção

  • regulação emocional


🥗 8. Alimentação: base do equilíbrio neuroquímico

A alimentação impacta diretamente:

  • neurotransmissores

  • inflamação

  • microbiota


👉 Estratégias importantes:

  • reduzir ultraprocessados

  • evitar alimentos que geram inflamação individual

  • priorizar comida de verdade

  • reduzir alimentos de alto teor de glutamato


🧩 9. O ponto mais importante

Nem todo autismo é sináptico.

Mas quando esse eixo está envolvido:

✔️ faz sentido modular neurotransmissores

✔️ reduzir excitotoxicidade

✔️ melhorar energia cerebral

✔️ cuidar do ambiente metabólico


👉 Não é um único tratamento — é um conjunto de intervenções integradas.


Autismo sináptico: uma abordagem integrada faz diferença.
Autismo sináptico: uma abordagem integrada faz diferença.



Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.


Para saber mais 1. Cellot G, Cherubini E.

GABAergic signaling as therapeutic target for autism spectrum disorders. Front Pediatr. 2022;10:813829.

  1. Ford TC, Crewther DP.

    A comprehensive review of the role of glutamate and GABA in autism spectrum disorder. J Neural Transm (Vienna). 2021;128(4):451–468.

    👉 https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12589001/

  2. Lee TM, Lee KM, Lee CY, Lee HC, Tam KW, Loh EW.

    Effectiveness of N-acetylcysteine in autism spectrum disorders: A meta-analysis of randomized controlled trials. Aust N Z J Psychiatry.2021 Feb;55(2):196-206.

    👉 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32900213/


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