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INTOLERÂNCIA A HISTAMINA NA PRÁTICA

  • Foto do escritor: Berenice Cunha Wilke
    Berenice Cunha Wilke
  • 22 de fev. de 2025
  • 6 min de leitura

Atualizado: 25 de abr.

Por Dra. Berenice C. Wilke


A intolerância à histamina é uma condição caracterizada por um excesso de histamina no organismo.


Pesquisadores atribuíram várias razões a essa condição, como fatores genéticos, alimentares e alterações da microbiota intestinal entre outros elementos.


Os sintomas de intolerância à histamina foram encontrados se estendendo além do trato gastrointestinal e para todo o corpo, sendo que esses sintomas podem ser esporádicos e não específicos.


Principais mecanismos envolvidos:


1. Redução da degradação da histamina (DAO)

A enzima diamina oxidase (DAO), produzida principalmente no intestino, é responsável por degradar a histamina proveniente da alimentação.

Quando a atividade da DAO está diminuída a histamina não é adequadamente eliminada e pode causar o acúmulo de histamina e seus sintomas.


Causas da deficiência de DAO:

A deficiência da DAO pode ocorrer devido a:

  • Alterações genéticas

    • Mais de 50 polimorfismos genéticos foram associados a deficiência da DAO;

  • Medicamentos.

    • Cerca de 20% da população europeia consome medicamentos que podem diminuir a atividade da DAO, aumentando o risco de intolerância à histamina - ver abaixo na tabela 1;

  • Doenças que podem causar deficiência da DAO

    O intestino produz a enzima DAO nos seus enterócitos maduros, localizadas nas vilosidades intestinais. As doenças que afetam as vilosidades intestinais (como na doença celíaca) ou fatores que aceleram a troca das células intestinais (como doenças inflamatórias intestinais) podem resultar em diminuição da concentração da enzima.

    • A doença inflamatória intestinal por causar diminuição importante da produção da DAO devido aos danos da mucosa intestinal.

    • Doença celíaca

    • Um estudo mostrou que 9 em cada 10 pacientes com sensibilidade ao glúten não celíaca têm níveis séricos de DAO reduzidos, indicando uma relação potencial entre a sensibilidade ao glúten não celíaca e a intolerância à histamina.



2.Aumento da produção de histamina pelo organismo

  • O álcool aumenta a produção de histamina no organismo

  • Resposta inflamatória → ativa mastócitos

  • Desequilíbrio imunológico


3.Alterações da microbiota intestinal

Na microbiota intestinal cerca de 7,5% das bactérias são produtoras de histamina. O aumento dessas bactérias produtoras de histamina causa um aumento da histamina no organismo podendo causar uma ampla gama de sintomas decorrentes intolerância a histamina.

Principais bactérias produtoras de histamina:

  • Filo Protobactérias

    • Klebsiella pneumoniae;

    • Citrobacter freundii;

    • Enterobacter;

  • Filo Firmicutes

    • Clostridium;

    • Enterococcus faecium.


4.Variações hormonais femininas

Nos períodos do ciclo aonde ocorre uma maior taxa de estrogênios em relação a progesterona ou na menopausa temos um aumento da intolerância a histamina.


O estrogênio aumenta a liberação de histamina e a progesterona aumenta a ação da DAO com diminuição da histamina.


Por isso, os sintomas podem piorar em:

  • Período pré-menstrual

  • Perimenopausa

  • Menopausa


5. Alimentação

Dois grupos são relevantes:

  • Alimentos ricos em histamina

  • Alimentos que estimulam liberação de histamina

(Detalhados na Tabela 2)


Sintomas da intolerância à histamina

A histamina atua em diversos tecidos, por isso os sintomas são amplos:

  • Pele: coceira, urticária, rubor

  • Sistema respiratório: congestão nasal, rinite

  • Gastrointestinal: dor abdominal, diarreia, distensão

  • Sistema cardiovascular: palpitações, hipotensão

  • Sistema nervoso: cefaleia, ansiedade, fadiga


📌 Importante:Os sintomas variam muito entre indivíduos e podem ser episódicos, dificultando a associação direta com a causa.



Ainda não existe consenso diagnóstico na literatura. O diagnóstico é clínico, baseado na associação entre sintomas e resposta ao manejo.


Além dos sintomas, alguns exames podem contribuir com esse diagnóstico:

  • Dosagem da DAO no sangue e no intestino

  • Dosagem da 1-metil-histamina da urina

  • Teste genético - pesquisa dos polimorfismos que interferem no metabolismo da histamina. Existem mais de 50 variações genéticas que estão sendo associadas a diminuição da atividade da DAO.

  • ⚠️ Teste de provocação com histamina→ pouco utilizado devido ao risco de sintomas intensos e baixa especificidade


Gerenciamento da intolerância à histamina


1. Revisão de medicamentos

Suspender, quando possível, fármacos que reduzem a atividade da DAO (Tabela 1)


2. Dieta

  • Redução de alimentos ricos em histamina e outras aminas biogênicas

  • Evitar alimentos que estimulam sua liberação


📌 Após melhora dos sintomas (geralmente ~4 semanas), pode-se reintroduzir gradualmente.


⚠️ Atenção ao armazenamento:Alimentos ricos em proteína, quando mal armazenados, aumentam o teor de histamina.

Alimentos


Alimentos não permitidos

Alimentos permitidos


Cereal e tubérculos

 

Arroz, aveia, espelta, milho, painço, quinoa, trigo, trigo sarraceno, batata doce, batata, mandioca, etc.

Frutas e nozes

Morangos e frutas vermelhas, mamão, abacate, frutas cítricas (laranja, toranja, tangerina, limão, kiwi e abacaxi), banana, ameixa, nozes (nozes, amendoim, amêndoa, castanha de caju e avelã)

Damasco, cerejas, romã, figo, manga, maçã, pêssego, melão, pêra, uva, melancia, pinhões, etc

Vegetais e folhas

Picles de vegetais (por exemplo, chucrute, azeitonas), abobrinha, abóbora, espinafre, berinjela e tomate

Acelga, alcachofra, brócolis, cebola, erva-doce, verde feijão, aspargos, alface, pimentão, beterraba, cenoura, etc

Leite e derivados e substituições

Queijos envelhecidos, semi-envelhecidos e ralados, leite e iogurte

Queijos frescos, bebidas vegetais, fermentados e  produtos feitos de soja ou outras plantas  ("iogurte" à base de plantas)

Leguminosas e derivados

Tofu e tempeh

Feijão, grão de bico, lentilha, soja, etc.

Peixes e frutos do mar

Peixe enlatado ou semi-enlatado (atum enlatado, anchovas, sardinhas ou cavala, anchovas em vinagre, salmão fumado, etc.) e frutos do mar.

Peixe fresco ou congelado, choco (Cuttlefish), lula, polvo, etc. É importante garantir que esses alimentos estejam frescos no momento da compra. Caso contrário, é preferível comprá-los diretamente congelados.

Ovos

Clara

Gema

Carnes e frango

Embutidos (salsicha, chorizo, linguiça, etc.), vísceras (fígado, rins, etc.)

Carne fresca ou congelada

Sucos e bebidas

Suco de laranja, suco de tomate, bebidas alcoólicas e chá

Água e café.

Azeite, gordura e manteiga

 

Azeite e sementes, creme de gergelim torrado (tahini), manteiga

Condimentos

Vinagre, molho de soja e molho de tomate

Orégano, manjericão, cúrcuma, gengibre, hortelã, sal, açúcar, mel e adoçantes

Outros

Chocolate, geléia de frutas cítricas, doces e bolos contendo alimentos excluídos

Alfarroba, compotas e sorvetes feitos de frutas adequadas, sementes de chia e linho, girassol e sementes de abóbora


O aumento das Bifidobacterium na microbiota intestinal confere maior proteção contra a intolerância a histamina.


Alguns estudos asssociam também o aumento dos Lactobacillus, comumente usandos como suplementos, com a maior produção de histamina e portanto prejudiciais na intolerância a histamina

  • L casei

  • L. paracasei

  • L. bulgaricus

  • L. rhamnosus

  • L. plantarum

  • L. curvatus

  • L. delbrueckii

  • L. helvético

  • L. lactis


4. Saúde intestinal

  • Tratamento da hiperpermeabilidade intestinal

  • Uso de nutrientes como glutamina



5. Medicações

  • Anti-histamínicos (uso pontual)

    • H1 → sintomas sistêmicos

    • H2 → sintomas gastrointestinais


Podem ser usados por curto período de tempo. A preferencia inicial é pelos bloqueadores H1 sendo que os H2 podem ser utilizados quando houver predominancia de sintomas gastricointestinais.


6.Suplementações de vitaminas e minerais

A suplementação deve ser individualizada e não se limita apenas à reposição de cofatores enzimáticos.


📌 Ponto-chave:A intolerância à histamina frequentemente está associada a disbiose intestinal e aumento da permeabilidade intestinal, sendo fundamental abordar esses eixos para um resultado sustentado.



1. Cofatores das enzimas de degradação da histamina DAO

O cobre, zinco, vitamina C e vitamina B6 são cofatores da enzima DAO.


HNMT

Os doadores metil, como SAME, vitamina B12 e B9 (folatos) auxiliam na função da enzima HNMT que faz a quebra intracelular da histamina.


2. Modulação da microbiota intestinal

  • Estímulo ao crescimento de bactérias protetoras (especialmente Bifidobacterium)

  • Redução de bactérias produtoras de histamina

  • Uso criterioso de probióticos (nem todos são benéficos nesse contexto)


3. Correção da permeabilidade intestinal

A integridade da mucosa intestinal é essencial para a produção adequada de DAO.


Podem ser utilizados:

  • Glutamina

  • Nutrientes anti-inflamatórios

  • Estratégias de reparo da barreira intestinal


Observação clínica importante

👉 Em muitos pacientes, apenas a reposição de vitaminas não é suficiente.

Se não houver:

  • correção da disbiose

  • melhora da mucosa intestinal

a produção de DAO continuará reduzida, e os sintomas tendem a persistir.


🧪 Intolerância a histamina - Índice das Postagens







Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.




Saiba mais


Jochum C.Nutrients. 2024 Apr 19;16(8):1219. doi: 10.3390/nu16081219


Duelo A, Sánchez-Pérez S, Ruiz-Leon AM, Casanovas-Garriga F, Pellicer-Roca S, Iduriaga-Platero I, Costa-Catala J, Veciana-Nogués MT, Fernández-Solà J, Muñoz-Cano RM, Bartra J, Combalia A, Comas-Basté O, Casas R, Latorre-Moratalla ML, Estruch R, Vidal-Carou MC.Nutrients. 2024 Dec 25;17(1):29.



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