Glúten e transtornos psiquiátricos na criança com doença celíaca
- Berenice Cunha Wilke
- há 6 dias
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Berenice C. Wilke
A doença celíaca não afeta apenas o intestino.
Nas últimas décadas, diversos estudos passaram a demonstrar que crianças com doença celíaca apresentam maior risco de alterações emocionais, comportamentais, cognitivas e psiquiátricas — muitas vezes antes mesmo do diagnóstico gastrointestinal.
Embora classicamente conhecida pelos sintomas digestivos, hoje sabemos que a doença celíaca é uma condição imunológica sistêmica capaz de influenciar também o funcionamento cerebral.
Doença celíaca: muito além do intestino
A doença celíaca é uma doença autoimune desencadeada pela ingestão de glúten em pessoas geneticamente predispostas.
A resposta imunológica desencadeada pelo glúten provoca:
inflamação intestinal
aumento da permeabilidade intestinal
alteração da microbiota
produção de autoanticorpos
deficiência de vitaminas e minerais
ativação inflamatória sistêmica
Esse processo pode repercutir em diversos órgãos — incluindo o cérebro e o sistema nervoso.
Sintomas psiquiátricos podem ser os primeiros sinais
Em algumas crianças, os sintomas neuropsiquiátricos aparecem antes dos sintomas digestivos clássicos.
Irritabilidade persistente, ansiedade, alterações do humor, dificuldade de concentração e mudanças comportamentais podem fazer parte da manifestação clínica da doença celíaca.
Por isso, em muitos casos, o diagnóstico acaba demorando anos.
O que os estudos mostram
Um grande estudo sueco acompanhou mais de 3.000 crianças com doença celíaca durante aproximadamente 12 anos.
Os pesquisadores observaram aumento significativo no risco de transtornos psiquiátricos, tanto na infância quanto posteriormente na vida adulta.
Entre os quadros mais associados estavam:
ansiedade
depressão
transtornos do humor
transtornos alimentares
TDAH
alterações comportamentais
transtorno do espectro do autismo (TEA)
Além disso, crianças com doença celíaca apresentaram maior uso de medicações psiquiátricas quando comparadas à população geral.
Como o intestino pode afetar o cérebro?
Essa relação provavelmente ocorre através de múltiplos mecanismos.
A inflamação intestinal persistente pode gerar repercussões sistêmicas capazes de influenciar o funcionamento cerebral.
Entre os mecanismos mais estudados estão:
ativação imunológica crônica
neuroinflamação
alterações da microbiota intestinal
aumento da permeabilidade intestinal
alterações no eixo intestino-cérebro
deficiência de nutrientes importantes para neurotransmissores e função cerebral, como ferro, zinco, folato e vitaminas do complexo B
O intestino participa ativamente da regulação imunológica, metabólica e neurológica do organismo.
Por isso, alterações intestinais podem repercutir também sobre comportamento, cognição e saúde mental.
Saúde mental deve fazer parte do acompanhamento
A vigilância da saúde mental deve ser parte integrante do cuidado da criança com doença celíaca.
Sintomas emocionais ou comportamentais persistentes não devem ser interpretados apenas como “questões psicológicas”, especialmente quando associados a sintomas digestivos, fadiga, anemia ou alterações nutricionais.
Em alguns casos, o reconhecimento da doença celíaca pode representar uma mudança importante na qualidade de vida da criança e da família.
Tratamento
O único tratamento comprovadamente eficaz para a doença celíaca continua sendo a retirada completa e permanente do glúten da alimentação.
Na maioria dos pacientes, a dieta sem glúten leva à melhora progressiva da inflamação intestinal e redução significativa das complicações sistêmicas.
Em algumas crianças, sintomas neuropsiquiátricos também podem melhorar após o controle adequado da doença.
O ponto mais importante
A doença celíaca não deve ser vista apenas como uma doença digestiva.
Ela pode se manifestar através do comportamento, das emoções, da cognição e da saúde mental.
E, em algumas crianças, o cérebro pode ser um dos primeiros órgãos a demonstrar que algo não está bem.
Alterações neuropsiquiátricas relacionadas ao glúten também vêm sendo estudadas em indivíduos sem doença celíaca clássica, dentro do espectro chamado sensibilidade ao glúten não celíaca.

Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.
Para saber mais:
Butwicka A, Lichtenstein P, Frisén L, et al. Psychiatric disorders in children with coeliac disease: a Swedish nationwide cohort study. J Child Psychol Psychiatry. 2020;61(4):448-457. Journal of Child Psychology and Psychiatry
Levinta A, Mukovozov I, Tsai E, et al. Anxiety and depression among patients with celiac disease: a systematic review and meta-analysis. Nutrients. 2022;14(4):885. Nutrients Journal
Mormile R, Vitale C. Neuropsychiatric manifestations of celiac disease in children. Pediatr Gastroenterol Hepatol Nutr. 2021;24(6):495-502. Pediatric Gastroenterology, Hepatology & Nutrition




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