top of page

Glúten e sintomas psicológicos em pessoas não celíacas

  • Foto do escritor: Berenice Cunha Wilke
    Berenice Cunha Wilke
  • há 4 dias
  • 5 min de leitura

O número de pessoas que refere melhora de diversos sintomas — gastrointestinais ou não — após a retirada do trigo ou do glúten da alimentação cresce a cada dia. A sensibilidade ao glúten não celíaca tem sido tema de muitos estudos recentes e vem despertando grande interesse científico.


Existe, entretanto, bastante dificuldade na realização de estudos sobre essa condição. Os sintomas frequentemente se sobrepõem aos de diversas outras doenças intestinais, a fisiopatologia ainda não foi completamente esclarecida, os exames de imagem e a colonoscopia geralmente são normais e ainda não existem exames laboratoriais capazes de estabelecer o diagnóstico com precisão.


Nos últimos anos, muitos estudos passaram a focar nas alterações da microbiota intestinal e na comunicação entre intestino, sistema imunológico e cérebro — o chamado eixo intestino-cérebro. Alterações da microbiota, aumento da permeabilidade intestinal e ativação imunológica podem influenciar neurotransmissores, substâncias inflamatórias e o funcionamento cerebral em indivíduos susceptíveis.


Atualmente, muitos autores preferem o termo sensibilidade ao trigo não celíaca, devido ao grande número de componentes do trigo, além do glúten, que podem estar associados aos sintomas encontrados.


Sintomas

Os sintomas podem envolver tanto o trato gastrointestinal quanto outras partes do organismo.


Os sintomas gastrointestinais mais comuns são:

  • dor abdominal

  • diarreia ou constipação

  • náusea

  • vômito

  • flatulência

  • distensão abdominal


Já os sintomas extraintestinais incluem:

  • cansaço

  • dor de cabeça

  • dores musculares e articulares

  • dificuldade de concentração

  • sensação de cabeça “aérea” ou “brain fog”

  • ansiedade

  • alterações do humor

  • alterações do sono


Alguns estudos também investigam se determinados subgrupos de pacientes com condições neuropsiquiátricas, como ansiedade, depressão, esquizofrenia e transtornos do neurodesenvolvimento, poderiam apresentar maior sensibilidade a componentes do trigo ou do glúten.


Esses sintomas frequentemente melhoram ou desaparecem com a retirada do trigo (glúten) da alimentação e podem retornar após sua reintrodução.


Importante destacar que muitos desses sintomas também podem estar presentes em outras condições intestinais, como síndrome do intestino irritável e doenças inflamatórias intestinais, entre elas a doença de Crohn.


O intestino e o cérebro estão profundamente conectados

Hoje sabemos que existe uma comunicação intensa entre intestino, sistema imunológico, microbiota intestinal e cérebro — o chamado eixo intestino-cérebro.


Alterações intestinais podem influenciar:

  • neurotransmissores

  • citocinas inflamatórias

  • barreira intestinal

  • resposta imune

  • metabolismo cerebral


Em indivíduos susceptíveis, alguns pesquisadores acreditam que componentes do trigo possam desencadear respostas inflamatórias ou imunológicas capazes de repercutir também no sistema nervoso.


Talvez o problema não seja apenas o glúten

Um ponto importante é que o trigo moderno contém diversas substâncias biologicamente ativas além do glúten.


Entre elas:

1 —Inibidores de amilase-tripsina (ATIs)

Os inibidores de amilase-tripsina (ATIs) são proteínas encontradas no trigo, representando até 4% do total de proteínas do grão.


Essas proteínas são altamente resistentes à digestão intestinal e podem ativar mecanismos da imunidade inata, estimulando a liberação de substâncias pró-inflamatórias, como citocinas.


Muitos pesquisadores acreditam que os ATIs possam participar tanto dos sintomas intestinais quanto de manifestações sistêmicas em indivíduos susceptíveis.


2 — FODMAPs

FODMAP é uma sigla em inglês para “oligossacarídeos, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis fermentáveis”.


Os compostos pertencentes ao grupo FODMAPs não são completamente digeridos nem absorvidos no trato gastrointestinal. Eles apresentam efeito osmótico e sofrem fermentação rápida no intestino, podendo causar:

  • excesso de gases

  • distensão abdominal

  • dor

  • alteração do hábito intestinal

em pessoas susceptíveis.


Os estudos atuais sugerem que parte desses sintomas esteja relacionada a alterações da microbiota intestinal e da fermentação intestinal.


Os FODMAPs também podem agravar sintomas em pacientes com síndrome do intestino irritável e doenças inflamatórias intestinais.


3 — Exorfinas

A digestão da gliadina do trigo pode gerar peptídeos biologicamente ativos, incluindo substâncias chamadas gliadinomorfinas (ou gliadorfinas).


Esses peptídeos apresentam estrutura e ação semelhantes a substâncias opioides, como as morfinas, podendo interagir com receptores opioides presentes no intestino e no sistema nervoso.


Os opioides naturais e medicamentosos são conhecidos por influenciar:

  • percepção da dor

  • sensação de prazer e recompensa

  • comportamento

  • ansiedade

  • motivação

  • atenção

  • trânsito intestinal


Por esse motivo, alguns pesquisadores investigam se as gliadinomorfinas poderiam exercer efeitos semelhantes em indivíduos susceptíveis.


A degradação desses peptídeos depende, entre outros fatores, da enzima dipeptidil peptidase IV (DPP IV). Alguns autores sugerem que alterações nessa degradação poderiam favorecer o acúmulo de peptídeos bioativos em parte dos pacientes.


Produtos lácteos também podem gerar peptídeos semelhantes, chamados caseomorfinas, derivados da caseína do leite.


Uma das hipóteses propostas é que, em indivíduos susceptíveis — especialmente quando existe aumento da permeabilidade intestinal — esses peptídeos possam influenciar o eixo intestino-cérebro e participar de sintomas como:

  • sensação de “névoa mental”

  • alterações do humor

  • maior percepção de dor

  • alterações comportamentais

  • fadiga

  • desconforto intestinal


Entretanto, esse mecanismo ainda permanece controverso e não está completamente estabelecido pela literatura científica. Até o momento, os estudos apresentam resultados heterogêneos, e não há consenso de que esses peptídeos sejam responsáveis isoladamente pelos sintomas neuropsiquiátricos observados em alguns pacientes.


4 — Permeabilidade intestinal

Alguns estudos sugerem que determinados indivíduos possam apresentar aumento da permeabilidade intestinal.


Nessa situação, fragmentos alimentares, toxinas bacterianas e substâncias inflamatórias poderiam atravessar a barreira intestinal com maior facilidade, estimulando respostas imunológicas e inflamatórias.


Esse mecanismo vem sendo investigado como possível participante tanto dos sintomas intestinais quanto das manifestações sistêmicas e cognitivas observadas em parte dos pacientes.


Tratamento

Durante muitos anos, o tratamento da sensibilidade ao trigo/glúten não celíaca consistia basicamente na retirada do glúten da alimentação por tempo indeterminado.


Atualmente, entende-se que o tratamento deve ser individualizado.


Em alguns pacientes, a retirada do trigo ou do glúten pode trazer melhora importante dos sintomas. Em outros, estratégias voltadas para recuperação da microbiota intestinal, melhora da barreira intestinal e redução da inflamação intestinal também podem auxiliar no controle do quadro.


Além disso, uma microbiota intestinal saudável contribui para o equilíbrio do sistema imunológico e para maior proteção da mucosa intestinal.


É importante destacar que a exclusão do glúten não deve ser iniciada antes da investigação adequada para doença celíaca, pois a retirada prévia do glúten pode normalizar exames e dificultar o diagnóstico correto.


Conclusão

A sensibilidade ao trigo/glúten não celíaca ainda é uma condição em estudo, mas vem recebendo crescente atenção científica.


Hoje sabemos que intestino, microbiota, sistema imunológico e cérebro estão profundamente conectados. Em alguns indivíduos susceptíveis, componentes do trigo parecem participar não apenas de sintomas digestivos, mas também de manifestações cognitivas, emocionais e sistêmicas.


Isso não significa que o glúten seja um problema universal ou que explique isoladamente doenças psiquiátricas e neurológicas. Entretanto, reforça a importância de uma avaliação individualizada e baseada em evidências científicas.


A sensibilidade ao glúten não celíaca pode ir muito além do intestino. Em algumas pessoas, o consumo de trigo parece estar associado a sintomas como ansiedade, fadiga mental, dificuldade de concentração, alterações do humor e sensação de “brain fog”, mesmo sem doença celíaca. Estudos recentes investigam a relação entre microbiota intestinal, inflamação, permeabilidade intestinal e eixo intestino-cérebro para compreender como determinados componentes do trigo podem influenciar também o comportamento e o bem-estar.
A sensibilidade ao glúten não celíaca pode ir muito além do intestino. Em algumas pessoas, o consumo de trigo parece estar associado a sintomas como ansiedade, fadiga mental, dificuldade de concentração, alterações do humor e sensação de “brain fog”, mesmo sem doença celíaca. Estudos recentes investigam a relação entre microbiota intestinal, inflamação, permeabilidade intestinal e eixo intestino-cérebro para compreender como determinados componentes do trigo podem influenciar também o comportamento e o bem-estar.






Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.




Para saber mais:

  1. Catassi C, Elli L, Bonaz B, Bouma G, Carroccio A, Castillejo G, et al. Diagnosis of non-celiac gluten sensitivity (NCGS): The Salerno Experts’ Criteria. Nutrients. 2015;7(6):4966-4977. Disponível em: Nutrients

  2. Fasano A, Sapone A, Zevallos V, Schuppan D. Nonceliac gluten sensitivity. Gastroenterology. 2015;148(6):1195-1204. Disponível em: Gastroenterology

  3. Barbaro MR, Cremon C, Wrona D, Fuschi D, Marasco G, Stanghellini V, et al. Non-celiac gluten sensitivity in the context of functional gastrointestinal disorders. Nutrients. 2020;12(12):3735. Disponível em: Nutrients – Non-celiac gluten sensitivity review

  4. Schuppan D, Zevallos V. Wheat amylase trypsin inhibitors as nutritional activators of innate immunity. Digestive Diseases. 2015;33(2):260-263. Disponível em: Digestive Diseases

  5. Cryan JF, O’Riordan KJ, Cowan CSM, Sandhu KV, Bastiaanssen TFS, Boehme M, et al. The microbiota-gut-brain axis. Physiol Rev. 2019;99(4):1877-2013. Disponível em: Physiological Reviews

Comentários


bottom of page