Glúten e sintomas psicológicos em pessoas não celíacas
- Berenice Cunha Wilke
- há 4 dias
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O número de pessoas que refere melhora de diversos sintomas — gastrointestinais ou não — após a retirada do trigo ou do glúten da alimentação cresce a cada dia. A sensibilidade ao glúten não celíaca tem sido tema de muitos estudos recentes e vem despertando grande interesse científico.
Existe, entretanto, bastante dificuldade na realização de estudos sobre essa condição. Os sintomas frequentemente se sobrepõem aos de diversas outras doenças intestinais, a fisiopatologia ainda não foi completamente esclarecida, os exames de imagem e a colonoscopia geralmente são normais e ainda não existem exames laboratoriais capazes de estabelecer o diagnóstico com precisão.
Nos últimos anos, muitos estudos passaram a focar nas alterações da microbiota intestinal e na comunicação entre intestino, sistema imunológico e cérebro — o chamado eixo intestino-cérebro. Alterações da microbiota, aumento da permeabilidade intestinal e ativação imunológica podem influenciar neurotransmissores, substâncias inflamatórias e o funcionamento cerebral em indivíduos susceptíveis.
Atualmente, muitos autores preferem o termo sensibilidade ao trigo não celíaca, devido ao grande número de componentes do trigo, além do glúten, que podem estar associados aos sintomas encontrados.
Sintomas
Os sintomas podem envolver tanto o trato gastrointestinal quanto outras partes do organismo.
Os sintomas gastrointestinais mais comuns são:
dor abdominal
diarreia ou constipação
náusea
vômito
flatulência
distensão abdominal
Já os sintomas extraintestinais incluem:
cansaço
dor de cabeça
dores musculares e articulares
dificuldade de concentração
sensação de cabeça “aérea” ou “brain fog”
ansiedade
alterações do humor
alterações do sono
Alguns estudos também investigam se determinados subgrupos de pacientes com condições neuropsiquiátricas, como ansiedade, depressão, esquizofrenia e transtornos do neurodesenvolvimento, poderiam apresentar maior sensibilidade a componentes do trigo ou do glúten.
Esses sintomas frequentemente melhoram ou desaparecem com a retirada do trigo (glúten) da alimentação e podem retornar após sua reintrodução.
Importante destacar que muitos desses sintomas também podem estar presentes em outras condições intestinais, como síndrome do intestino irritável e doenças inflamatórias intestinais, entre elas a doença de Crohn.
O intestino e o cérebro estão profundamente conectados
Hoje sabemos que existe uma comunicação intensa entre intestino, sistema imunológico, microbiota intestinal e cérebro — o chamado eixo intestino-cérebro.
Alterações intestinais podem influenciar:
neurotransmissores
citocinas inflamatórias
barreira intestinal
resposta imune
metabolismo cerebral
Em indivíduos susceptíveis, alguns pesquisadores acreditam que componentes do trigo possam desencadear respostas inflamatórias ou imunológicas capazes de repercutir também no sistema nervoso.
Talvez o problema não seja apenas o glúten
Um ponto importante é que o trigo moderno contém diversas substâncias biologicamente ativas além do glúten.
Entre elas:
1 —Inibidores de amilase-tripsina (ATIs)
Os inibidores de amilase-tripsina (ATIs) são proteínas encontradas no trigo, representando até 4% do total de proteínas do grão.
Essas proteínas são altamente resistentes à digestão intestinal e podem ativar mecanismos da imunidade inata, estimulando a liberação de substâncias pró-inflamatórias, como citocinas.
Muitos pesquisadores acreditam que os ATIs possam participar tanto dos sintomas intestinais quanto de manifestações sistêmicas em indivíduos susceptíveis.
2 — FODMAPs
FODMAP é uma sigla em inglês para “oligossacarídeos, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis fermentáveis”.
Os compostos pertencentes ao grupo FODMAPs não são completamente digeridos nem absorvidos no trato gastrointestinal. Eles apresentam efeito osmótico e sofrem fermentação rápida no intestino, podendo causar:
excesso de gases
distensão abdominal
dor
alteração do hábito intestinal
em pessoas susceptíveis.
Os estudos atuais sugerem que parte desses sintomas esteja relacionada a alterações da microbiota intestinal e da fermentação intestinal.
Os FODMAPs também podem agravar sintomas em pacientes com síndrome do intestino irritável e doenças inflamatórias intestinais.
3 — Exorfinas
A digestão da gliadina do trigo pode gerar peptídeos biologicamente ativos, incluindo substâncias chamadas gliadinomorfinas (ou gliadorfinas).
Esses peptídeos apresentam estrutura e ação semelhantes a substâncias opioides, como as morfinas, podendo interagir com receptores opioides presentes no intestino e no sistema nervoso.
Os opioides naturais e medicamentosos são conhecidos por influenciar:
percepção da dor
sensação de prazer e recompensa
comportamento
ansiedade
motivação
atenção
trânsito intestinal
Por esse motivo, alguns pesquisadores investigam se as gliadinomorfinas poderiam exercer efeitos semelhantes em indivíduos susceptíveis.
A degradação desses peptídeos depende, entre outros fatores, da enzima dipeptidil peptidase IV (DPP IV). Alguns autores sugerem que alterações nessa degradação poderiam favorecer o acúmulo de peptídeos bioativos em parte dos pacientes.
Produtos lácteos também podem gerar peptídeos semelhantes, chamados caseomorfinas, derivados da caseína do leite.
Uma das hipóteses propostas é que, em indivíduos susceptíveis — especialmente quando existe aumento da permeabilidade intestinal — esses peptídeos possam influenciar o eixo intestino-cérebro e participar de sintomas como:
sensação de “névoa mental”
alterações do humor
maior percepção de dor
alterações comportamentais
fadiga
desconforto intestinal
Entretanto, esse mecanismo ainda permanece controverso e não está completamente estabelecido pela literatura científica. Até o momento, os estudos apresentam resultados heterogêneos, e não há consenso de que esses peptídeos sejam responsáveis isoladamente pelos sintomas neuropsiquiátricos observados em alguns pacientes.
4 — Permeabilidade intestinal
Alguns estudos sugerem que determinados indivíduos possam apresentar aumento da permeabilidade intestinal.
Nessa situação, fragmentos alimentares, toxinas bacterianas e substâncias inflamatórias poderiam atravessar a barreira intestinal com maior facilidade, estimulando respostas imunológicas e inflamatórias.
Esse mecanismo vem sendo investigado como possível participante tanto dos sintomas intestinais quanto das manifestações sistêmicas e cognitivas observadas em parte dos pacientes.
Tratamento
Durante muitos anos, o tratamento da sensibilidade ao trigo/glúten não celíaca consistia basicamente na retirada do glúten da alimentação por tempo indeterminado.
Atualmente, entende-se que o tratamento deve ser individualizado.
Em alguns pacientes, a retirada do trigo ou do glúten pode trazer melhora importante dos sintomas. Em outros, estratégias voltadas para recuperação da microbiota intestinal, melhora da barreira intestinal e redução da inflamação intestinal também podem auxiliar no controle do quadro.
Além disso, uma microbiota intestinal saudável contribui para o equilíbrio do sistema imunológico e para maior proteção da mucosa intestinal.
É importante destacar que a exclusão do glúten não deve ser iniciada antes da investigação adequada para doença celíaca, pois a retirada prévia do glúten pode normalizar exames e dificultar o diagnóstico correto.
Conclusão
A sensibilidade ao trigo/glúten não celíaca ainda é uma condição em estudo, mas vem recebendo crescente atenção científica.
Hoje sabemos que intestino, microbiota, sistema imunológico e cérebro estão profundamente conectados. Em alguns indivíduos susceptíveis, componentes do trigo parecem participar não apenas de sintomas digestivos, mas também de manifestações cognitivas, emocionais e sistêmicas.
Isso não significa que o glúten seja um problema universal ou que explique isoladamente doenças psiquiátricas e neurológicas. Entretanto, reforça a importância de uma avaliação individualizada e baseada em evidências científicas.

Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.
Para saber mais:
Catassi C, Elli L, Bonaz B, Bouma G, Carroccio A, Castillejo G, et al. Diagnosis of non-celiac gluten sensitivity (NCGS): The Salerno Experts’ Criteria. Nutrients. 2015;7(6):4966-4977. Disponível em: Nutrients
Fasano A, Sapone A, Zevallos V, Schuppan D. Nonceliac gluten sensitivity. Gastroenterology. 2015;148(6):1195-1204. Disponível em: Gastroenterology
Barbaro MR, Cremon C, Wrona D, Fuschi D, Marasco G, Stanghellini V, et al. Non-celiac gluten sensitivity in the context of functional gastrointestinal disorders. Nutrients. 2020;12(12):3735. Disponível em: Nutrients – Non-celiac gluten sensitivity review
Schuppan D, Zevallos V. Wheat amylase trypsin inhibitors as nutritional activators of innate immunity. Digestive Diseases. 2015;33(2):260-263. Disponível em: Digestive Diseases
Cryan JF, O’Riordan KJ, Cowan CSM, Sandhu KV, Bastiaanssen TFS, Boehme M, et al. The microbiota-gut-brain axis. Physiol Rev. 2019;99(4):1877-2013. Disponível em: Physiological Reviews




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