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Doença celíaca: quando o intestino reage ao glúten

  • Foto do escritor: Berenice Cunha Wilke
    Berenice Cunha Wilke
  • 13 de mai.
  • 8 min de leitura

Atualizado: 15 de mai.

Berenice C. Wilke


A doença celíaca é uma condição autoimune desencadeada pelo consumo de glúten — proteína presente no trigo, centeio e cevada, além de derivados como o malte.


A aveia ocupa uma posição particular nessa discussão, já que frequentemente sofre contaminação cruzada e contém avenina, proteína da mesma família das prolaminas do glúten, que pode desencadear resposta imunológica em parte dos pacientes.


Quando me formei em medicina, ela era considerada uma doença relativamente rara, geralmente diagnosticada na infância, principalmente em crianças que apresentavam diarreia crônica, emagrecimento e dificuldade de crescimento após a introdução das farinhas na alimentação.


Hoje sabemos que a doença celíaca pode surgir em qualquer idade e apresentar manifestações bastante variáveis.


👉 Ela não é apenas uma doença intestinal, mas uma condição sistêmica, capaz de afetar múltiplos órgãos e sistemas do corpo.


Em pessoas geneticamente predispostas, o contato com o glúten ativa o sistema imune e desencadeia um processo inflamatório crônico no intestino delgado, levando à lesão das vilosidades intestinais — estruturas responsáveis pela absorção de nutrientes.


Prevalência

A doença celíaca não é considerada rara.


Hoje, estima-se que acometa aproximadamente 1% da população mundial, embora muitos casos ainda permaneçam sem diagnóstico.


Os estudos também mostram que sua prevalência vem aumentando nas últimas décadas e que a doença pode surgir em qualquer idade, muitas vezes com manifestações muito diferentes das formas clássicas descritas antigamente.


Doença genética e ambiental

A doença celíaca é considerada uma condição multifatorial, resultante da interação entre predisposição genética e fatores ambientais.


O glúten é o principal desencadeador da doença, mas sua presença isoladamente não explica por que algumas pessoas desenvolvem doença celíaca e outras não — mesmo consumindo glúten durante toda a vida.


👉 Isso mostra que o desenvolvimento da doença depende de uma combinação complexa de fatores genéticos, imunológicos e ambientais.


Os estudos demonstram que a maior parte dos pacientes apresenta genes específicos relacionados ao sistema HLA, especialmente HLA-DQ2 e HLA-DQ8, que aumentam a suscetibilidade à doença.


Além desses, outras variantes genéticas também parecem participar do risco aumentado de desenvolvimento da doença celíaca.


No entanto, genética sozinha não explica tudo.


Muitos indivíduos geneticamente predispostos nunca desenvolverão a doença, enquanto outros podem manifestá-la apenas na vida adulta, mesmo após décadas de consumo de glúten sem sintomas aparentes.


👉 Um dos pontos mais estudados atualmente é justamente entender como ocorre a perda de tolerância imunológica ao glúten.


A teoria mais aceita hoje sugere que fatores ambientais — incluindo infecções, alterações da microbiota intestinal, permeabilidade intestinal aumentada e modificações do sistema imune — possam alterar o equilíbrio imunológico em indivíduos predispostos, fazendo com que o glúten deixe de ser tolerado pelo organismo e passe a desencadear uma resposta inflamatória autoimune.


História familiar importa

Por possuir forte influência genética, a doença celíaca pode acometer múltiplos membros da mesma família.


👉 Parentes de primeiro grau apresentam risco aumentado e podem ter formas pouco sintomáticas ou até silenciosas da doença.


Por isso, quando uma pessoa recebe o diagnóstico,a investigação dos familiares próximos pode ser importante, mesmo na ausência de sintomas digestivos clássicos.


O que acontece no organismo?

A reação ao glúten leva a:

  • ativação persistente do sistema imune

  • produção de autoanticorpos

  • inflamação intestinal

  • aumento da permeabilidade intestinal

  • lesão e atrofia das vilosidades intestinais

  • má absorção de nutrientes


Na doença celíaca, o contato do glúten com o intestino desencadeia uma resposta autoimune que leva à inflamação da mucosa intestinal e à atrofia das vilosidades — estruturas responsáveis pela absorção dos nutrientes. Com a redução dessas vilosidades, ocorre prejuízo da absorção intestinal, podendo surgir anemia, fadiga, baixa estatura, osteoporose e diversas outras manifestações sistêmicas. Hoje sabemos que a doença celíaca vai muito além do intestino e envolve uma complexa interação entre imunidade, genética, microbiota e barreira intestinal.
Na doença celíaca, o contato do glúten com o intestino desencadeia uma resposta autoimune que leva à inflamação da mucosa intestinal e à atrofia das vilosidades — estruturas responsáveis pela absorção dos nutrientes. Com a redução dessas vilosidades, ocorre prejuízo da absorção intestinal, podendo surgir anemia, fadiga, baixa estatura, osteoporose e diversas outras manifestações sistêmicas. Hoje sabemos que a doença celíaca vai muito além do intestino e envolve uma complexa interação entre imunidade, genética, microbiota e barreira intestinal.

👉 E os efeitos podem se espalhar para além do intestino.


Nem sempre os sintomas são digestivos

Embora diarreia, distensão abdominal e dor intestinal sejam manifestações clássicas, muitos pacientes apresentam sintomas aparentemente desconectados do intestino.


A doença celíaca pode estar associada a:

  • anemia persistente

  • deficiência de vitaminas e minerais

  • baixa estatura em crianças

  • atraso puberal

  • osteopenia e osteoporose precoce

  • fadiga crônica

  • hipoplasia do esmalte dental

  • enxaqueca

  • alterações cognitivas

  • alterações de humor

  • infertilidade

  • dermatite herpetiforme


👉 Em alguns casos, os sintomas digestivos podem ser discretos ou até ausentes.


Baixa estatura pode ser um dos primeiros sinais

Em crianças, a baixa estatura pode ser uma das manifestações mais importantes da doença celíaca — e, em alguns casos, o primeiro sinal percebido.


Isso acontece porque a inflamação intestinal crônica e a lesão das vilosidades podem comprometer a absorção adequada de nutrientes fundamentais para o crescimento, como ferro, zinco, proteínas, vitamina D e outros micronutrientes.


👉 Muitas vezes, a criança não apresenta diarreia importante ou sintomas digestivos clássicos.


O quadro pode surgir principalmente como:

  • desaceleração do crescimento

  • dificuldade de ganho de peso

  • baixa estatura

  • atraso puberal

  • fadiga ou anemia persistente


Por isso, alterações do crescimento merecem investigação cuidadosa, especialmente quando associadas a histórico familiar, doenças autoimunes ou síndromes genéticas com maior prevalência de doença celíaca.


Algumas condições apresentam maior prevalência de doença celíaca

' A doença celíaca é mais frequente em algumas condições genéticas e autoimunes.

Entre elas:

  • Síndrome de Down

  • Síndrome de Turner

  • Síndrome de Williams

  • Diabetes tipo 1

  • Tireoidite de Hashimoto


👉 Nesses grupos, sintomas como baixa estatura, anemia, alterações gastrointestinais, fadiga ou dificuldade de ganho ponderal merecem atenção especial.


Em crianças, a baixa estatura pode ser uma das manifestações mais importantes da doença celíaca — às vezes mesmo na ausência de sintomas digestivos clássicos.


O intestino conversa com o corpo inteiro

Hoje sabemos que a inflamação intestinal pode repercutir em diferentes sistemas do organismo.


A ativação imune persistente, a alteração da microbiota e a permeabilidade intestinal aumentada podem influenciar:

  • metabolismo energético

  • sistema nervoso

  • inflamação sistêmica

  • equilíbrio imunológico


👉 A doença celíaca é um exemplo claro de como intestino, imunidade e cérebro estão interligados.


O papel da microbiota intestinal

Além da inflamação autoimune, muitos estudos mostram que pessoas com doença celíaca podem apresentar alterações importantes da microbiota intestinal.


Em diversos casos, observa-se:

  • redução de bactérias consideradas benéficas

  • aumento de microrganismos pró-inflamatórios

  • menor produção de substâncias protetoras da mucosa intestinal

  • alterações da barreira intestinal


Esse ambiente pode favorecer:

  • perpetuação da inflamação

  • aumento da permeabilidade intestinal

  • ativação imune persistente

  • pior recuperação da mucosa intestinal


👉 Ou seja: a microbiota não parece ser apenas uma consequência da doença — ela também pode participar da manutenção do processo inflamatório.


Por isso, o cuidado não envolve apenas retirar o glúten

Em muitos pacientes, também é importante olhar para:

  • diversidade alimentar

  • recuperação da mucosa intestinal

  • saúde da microbiota

  • correção de deficiências nutricionais


👉 Porque o intestino precisa não apenas deixar de ser agredido, mas também recuperar sua capacidade de equilíbrio e proteção.


Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico costuma envolver:

  • sorologia específica (IgA anti-transglutaminase, IgA anti-endomísio)

  • dosagem de IgA total

  • biópsia do intestino delgado

  • avaliação genética em casos selecionados (HLA-DQ2/HLA-DQ8)


⚠️ Importante: os exames devem ser realizados enquanto a pessoa ainda está consumindo glúten.


A IgA anti-transglutaminase tecidual é atualmente o principal exame sorológico para investigação da doença celíaca, apresentando sensibilidade em torno de 90–98% e especificidade de aproximadamente 95–97%.


O anti-endomísio, classicamente pesquisado na forma IgA, possui especificidade muito elevada, próxima de 98–100%, sendo considerado um exame bastante confiável quando positivo. No entanto, é menos utilizado como teste inicial porque apresenta custo mais elevado, depende mais da interpretação do examinador e costuma ser menos prático para rastreamento em larga escala quando comparado à IgA anti-transglutaminase tecidual.


Já os testes em IgG, como a IgG anti-transglutaminase, apresentam sensibilidade menor, variando cerca de 40–70%, sendo utilizados principalmente em pacientes com deficiência de IgA ou quando existe forte suspeita clínica apesar de exames IgA negativos.


⚠️ Não existe medicamento que permita consumir glúten

Até o momento, não existe nenhum medicamento aprovado capaz de impedir que o glúten desencadeie a resposta autoimune da doença celíaca.


👉 Não existe “proteção” para consumir glúten com segurança.


Mesmo pequenas quantidades de glúten podem manter a inflamação ativa, impedir a recuperação da mucosa intestinal e perpetuar sintomas e alterações laboratoriais.


Por isso, o tratamento precisa ser rigoroso e contínuo.


A contaminação cruzada também importa

Em muitos casos, não basta apenas retirar pão, massas e alimentos óbvios contendo glúten.


Traços de glúten podem estar presentes por contaminação cruzada durante o preparo dos alimentos, inclusive em utensílios compartilhados, tábuas, superfícies de preparo, torradeiras, panelas, esponjas e até óleo reutilizado.


👉 Pequenas exposições repetidas já podem ser suficientes para manter a doença ativa em algumas pessoas.


E a aveia?

A aveia ocupa uma posição particular na doença celíaca.


Embora não contenha o glúten clássico do trigo, cevada e centeio, ela possui avenina, proteína estruturalmente semelhante às prolaminas do glúten.


As diretrizes atuais consideram que muitos pacientes com doença celíaca podem tolerar aveia certificada sem contaminação por glúten, especialmente após estabilização clínica e recuperação da mucosa intestinal.


Além disso, a aveia integral pode contribuir positivamente para a qualidade nutricional da dieta sem glúten.


No entanto, a discussão permanece aberta.


Isso ocorre porque:

  • a contaminação cruzada da aveia é muito frequente

  • alguns pacientes parecem apresentar resposta imunológica à própria avenina

  • nem todos os indivíduos toleram aveia da mesma forma


👉 Por isso, a introdução da aveia deve ser individualizada e acompanhada com cautela, especialmente em pacientes ainda sintomáticos ou com doença ativa.


Existem pesquisas buscando novas formas de tratamento?

Sim. Diversas linhas de pesquisa estão sendo estudadas, incluindo enzimas capazes de degradar o glúten, medicamentos voltados para redução da permeabilidade intestinal, vacinas para modular a resposta imune e estratégias envolvendo a microbiota intestinal.


Uma das substâncias mais estudadas foi o Larazotide acetate, voltado para a modulação da barreira intestinal.


Apesar dos avanços científicos, nenhum desses tratamentos substitui atualmente a dieta sem glúten.


👉 Hoje, a exclusão rigorosa e contínua do glúten continua sendo o único tratamento comprovadamente seguro para a doença celíaca.


Além da retirada do glúten

Muitos pacientes também precisam de:

  • correção de deficiências nutricionais

  • recuperação da mucosa intestinal

  • acompanhamento laboratorial

  • avaliação da microbiota e da saúde intestinal


👉 Porque retirar o gatilho é fundamental — mas recuperar o organismo também faz parte do cuidado.


O ponto mais importante

A doença celíaca não é uma “sensibilidade leve” nem uma “intolerância simples”.


Ela é uma condição autoimune sistêmica que exige atenção contínua.


E talvez uma das mensagens mais importantes seja:


👉 o intestino não funciona isolado.


O que acontece nele pode repercutir em todo o organismo.







Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.


Para saber mais:


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