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🔥 Beta-glucuronidase: o elo oculto entre intestino, hormônios e inflamação

  • Foto do escritor: Berenice Cunha Wilke
    Berenice Cunha Wilke
  • há 31 minutos
  • 4 min de leitura

🧬 Introdução

Quando falamos em detoxificação, a maioria das pessoas pensa apenas no fígado.Mas a ciência do microbioma mostra algo essencial: o intestino decide se aquilo que o fígado tentou eliminar será realmente excretado — ou reabsorvido.


No centro dessa decisão está uma enzima pouco conhecida fora do meio científico, mas clinicamente poderosa: a beta-glucuronidase.


🧪 O que é a beta-glucuronidase?

A beta-glucuronidase é uma enzima produzida por determinadas bactérias intestinais.Sua função bioquímica é quebrar a ligação entre o ácido glicurônico e moléculas que o fígado conjugou para eliminação.


Esse processo faz parte do ciclo entero-hepático, no qual substâncias são:

  • Metabolizadas pelo fígado

  • Conjugadas (glicuronidação)

  • Excretadas pela bile para o intestino

  • 👉 O problema surge quando a beta-glucuronidase desfaz esse processo.


🔄 O ciclo entero-hepático: onde tudo pode dar errado

Quando a atividade da beta-glucuronidase está aumentada, ocorre:

  • ❌ Desconjugação precoce

  • 🔁 Reabsorção intestinal

  • 📈 Aumento sistêmico de substâncias que deveriam ser eliminadas


Entre elas:

  • Estrogênios

  • Andrógenos

  • Hormônios tireoidianos

  • Bilirrubina

  • Fármacos

  • Toxinas ambientais (xenobióticos)

Ou seja: o corpo “desintoxica”, mas o intestino devolve.


🦠 Quais bactérias estão envolvidas?

Níveis elevados de beta-glucuronidase costumam estar associados a disbiose intestinal, especialmente com predomínio de bactérias como:

  • Escherichia coli

  • Clostridium spp.

  • Bacteroides spp.

  • Enterococcus spp.

📌 Importante: não é a presença isolada dessas bactérias, mas o desequilíbrio ecológico, associado a:

  • Baixa diversidade microbiana

  • Pouca produção de ácidos graxos de cadeia curta (butirato)

  • Dieta pobre em fibras


⚠️ Impactos clínicos: muito além do intestino

O excesso de beta-glucuronidase tem sido associado a diversos quadros clínicos:


👩‍⚕️ Saúde hormonal feminina

  • Dominância estrogênica

  • TPM intensa

  • Endometriose

  • Miomas uterinos

  • Acne hormonal

  • SOP

  • Enxaqueca relacionada ao ciclo


🧠 Inflamação e metabolismo

  • Inflamação crônica de baixo grau

  • Maior carga tóxica sistêmica

  • Alterações do metabolismo de medicamentos

  • Fadiga persistente


🦠 Intestino

  • Constipação crônica (fator chave!)

  • Distensão abdominal

  • Intestino “reativo”

  • Piora de doenças inflamatórias intestinais


👉 Em homens, pode interferir no metabolismo hormonal e na inflamação metabólica, com impacto cardiovascular e prostático.


📦 Quando suspeitar de beta-glucuronidase elevada?

A beta-glucuronidase intestinal elevada pode contribuir para a recirculação hormonal e tóxica, afetando mulheres e homens. Considere suspeitar quando houver:


👩‍⚕️ Sintomas hormonais e ginecológicos

  • Sintomas de dominância estrogênica

  • TPM intensa ou ciclos muito sintomáticos

  • Acne hormonal persistente

  • Endometriose ou miomas uterinos

  • Síndrome do ovário policístico


🧠 Sintomas metabólicos e inflamatórios (ambos os sexos)

  • Inflamação crônica de baixo grau

  • Fadiga persistente ou queda de energia

  • Dificuldade para perder gordura, especialmente abdominal

  • Sintomas inflamatórios recorrentes sem causa clara


🦠 Sintomas intestinais

  • Constipação crônica

  • Distensão abdominal, gases ou sensação de intestino “lento”

  • Histórico de disbiose intestinal


💊 Exposição e metabolismo

  • Uso prolongado de medicamentos metabolizados pelo fígado

  • Exposição frequente a toxinas ambientais


👨‍⚕️ Saúde masculina

  • Desequilíbrio no metabolismo hormonal (ex.: testosterona/estrógenos)

  • Risco cardiometabólico aumentado associado à inflamação

  • Sintomas urinários ou prostáticos em contexto inflamatório


📌 Nesses cenários, avaliar a função intestinal e o microbioma pode ajudar a explicar sintomas persistentes que não se justificam apenas por exames laboratoriais isolados.


🧫 É possível avaliar a beta-glucuronidase?

Sim.Testes avançados de microbioma fecal conseguem estimar:

  • Atividade de beta-glucuronidase

  • Perfil funcional das bactérias

  • Capacidade de detoxificação intestinal


📌 Esses dados são especialmente úteis quando:

  • Os exames hormonais estão “normais”, mas os sintomas persistem

  • Há recorrência de sintomas hormonais apesar do tratamento

  • Existe histórico de exposição a toxinas ou uso prolongado de medicamentos


🥦 Estratégias ampliadas para modular a beta-glucuronidase intestinal


🌱 1. O eixo central: equilíbrio da microbiota

Mais importante do que “reduzir a enzima” é corrigir o ecossistema intestinal que favorece sua hiperatividade.A elevação da beta-glucuronidase costuma refletir disbiose, com baixa diversidade bacteriana, menor produção de ácidos graxos de cadeia curta (especialmente butirato) e trânsito intestinal inadequado.


👉 Sem reequilíbrio da microbiota, qualquer intervenção tende a ser incompleta.


🦠 2. Fibras e prebióticos: a base da modulação

As fibras atuam indiretamente na redução da beta-glucuronidase ao favorecer bactérias benéficas, melhorar o trânsito intestinal e reduzir a reabsorção hormonal.


Destaques:

  • PHGG (goma guar parcialmente hidrolisada – Fibregum®)

  • Amido resistente (ex.: aveia hidratada)

  • Fibras de vegetais, leguminosas e sementes


📌 Constipação prolonga o tempo de contato intestinal e favorece a recirculação de hormônios e toxinas.


🌿 3. Fitoterápicos: uso estratégico

Em situações selecionadas, fitoterápicos podem ser úteis para modular a microbiota intestinal, especialmente quando há disbiose associada a inflamação ou sobrecrescimento bacteriano funcional.Seu uso deve ser criterioso, temporário e integrado a uma estratégia de reconstrução do ecossistema intestinal.


🧂 4. Mineral de apoio

Cálcio D-glucarato pode auxiliar na redução da atividade da beta-glucuronidase e favorecer a eliminação de compostos conjugados.


🥦 5. Compostos alimentares que ajudam naturalmente

Alguns alimentos atuam como moduladores fisiológicos do eixo fígado–intestino:

  • Vegetais crucíferos (brócolis, couve, rúcula, repolho)

  • Polifenóis (chá verde, frutas vermelhas, azeite)

  • Compostos sulfurados

  • Dieta rica em comida de verdade


Esses compostos:

  • estimulam vias de detoxificação hepática

  • reduzem inflamação intestinal

  • favorecem um microbioma mais “protetor”


🧩 Mensagem final

O fígado tenta eliminar. O intestino decide se aquilo vai embora — ou volta.

Cuidar do microbioma intestinal é uma estratégia fundamental e frequentemente negligenciada no manejo de sintomas hormonais, inflamatórios e metabólicos.










Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.



📚 Referências científicas

  1. Plottel CS, Blaser MJ.Microbiome and malignancy.Cell Host & Microbe. 2011👉 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21402359/

  2. Kwa M, Plottel CS, Blaser MJ, Adams S.The intestinal microbiome and estrogen receptor–positive female breast cancer.Journal of the National Cancer Institute. 2016👉 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26825095/

  3. Baker JM, Al-Nakkash L, Herbst-Kralovetz MM.Estrogen–gut microbiome axis: physiological and clinical implications.Maturitas. 2017👉 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28242069/

  4. McIntosh FM et al.β-glucuronidase activity in human intestinal bacteria.Applied and Environmental Microbiology. 2012👉 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22267603/

  5. Ervin SM et al.The role of the gut microbiome in endocrine and metabolic disease.Nature Reviews Endocrinology. 2019👉 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30778188/

  6. Gérard P.Gut microbiota and metabolism of estrogens and androgens.Molecular and Cellular Endocrinology. 2017👉 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27876546/



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