🧠 Autismo adulto ou fenótipo autista?
- Berenice Cunha Wilke
- há 1 dia
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Atualizado: há 9 horas
🧠 Autismo em adultos ou apenas fenótipo autista? Como diferenciar quando há dificuldades sociais ao longo da vida — mas também autonomia profissional.
Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais comum que adultos passem a se reconhecer dentro do espectro autista. Muitos relatam uma vida inteira de dificuldades sociais, sensação de inadequação, instabilidades emocionais e esforço contínuo para se adaptar — mesmo tendo conseguido formação acadêmica, carreira e independência financeira.
Essa realidade levanta uma dúvida legítima:
👉 Se a pessoa conseguiu “dar conta da vida”, isso é autismo ou apenas fenótipo autista?
A resposta exige cuidado clínico — e não pode ser baseada apenas no nível de funcionamento externo.
📌 AUTISMO (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento definido por critérios diagnósticos internacionais (DSM-5-TR / CID-11)
Critérios centrais
Dois eixos obrigatórios:
A. Déficits persistentes na comunicação e interação social
Dificuldade de reciprocidade social
Pouco compartilhamento emocional
Dificuldade em linguagem pragmática
Problemas em desenvolver/manter relações
B. Padrões restritos e repetitivos
Estereotipias motoras ou verbais
Rotinas rígidas
Interesses hiperfocados
Hipo/hiper-reatividade sensorial
Além disso:
Base desde o neurodesenvolvimento
Persistência ao longo da vida
Impacto funcional (mesmo que mascarado)
👉 Ou seja: precisa haver impacto clínico funcional.
🧠 Funcionamento com alto custo adaptativo
Muitos adultos autistas apresentam autonomia funcional:
• Concluíram faculdade
• Exercem profissões técnicas ou acadêmicas
• Mantêm rotina estruturada
• São altamente produtivos
Mas frequentemente às custas de:
• Exaustão social intensa
• Mascaramento constante
• Roteirização de interações
• Sensação crônica de inadequação
• Colapsos emocionais privados
• Burnout social recorrente
👉 Funcionam — mas com alto custo interno.
🧠 Início precoce — mas nem sempre evidente
O autismo continua sendo, conceitualmente, um transtorno do neurodesenvolvimento.
Ou seja:
👉 A base neurobiológica está presente desde fases precoces da vida.
No entanto, estudos recentes descrevem um grupo chamado de autismo de diagnóstico tardio.
Nesses casos:
O desenvolvimento infantil é considerado típico
Linguagem e aprendizado ocorrem dentro do esperado
A socialização parece funcional na infância
As dificuldades tornam-se mais evidentes apenas:
Na adolescência
Na vida adulta
Com o aumento das exigências sociais e emocionais
Isso ocorre porque:
Os sinais eram sutis
Houve mascaramento precoce
Existiam fatores compensatórios (inteligência, ambiente estruturado)
📌 FENÓTIPO AUTISTA (Broad Autism Phenotype)
Aqui falamos de traços autísticos, não de transtorno.
Podem incluir:
Preferência por rotina
Comunicação mais literal
Introversão
Interesses específicos
Sensibilidade sensorial leve
Mas sem:
Prejuízo funcional significativo
Sofrimento social estrutural
Colapso adaptativo
👉A pessoa flexibiliza, se adapta e mantém relações sem esforço extremo.
⚖️ Linha divisória prática
Na avaliação clínica, a diferença não está no currículo — mas no custo para funcionar.
Aspecto | TEA adulto | Fenótipo autista |
Dificuldades sociais ao longo da vida | Marcantes e persistentes | Leves ou situacionais |
Sensação de inadequação | Frequente | Ocasional |
Mascaramento social | Intenso e crônico | Discreto ou ausente |
Exaustão após interação | Alta | Baixa |
Rigidez cognitiva | Moderada a intensa | Leve |
Flexibilidade social | Baixa | Preservada |
Prejuízo relacional | Presente | Discreto |
Profissão estável | Pode ter | Pode ter |
👉 Profissão não diferencia.👉 Sofrimento estrutural diferencia.
🧠 Como é feito o diagnóstico em adultos?
O diagnóstico não é feito por exame ou checklist isolado.
Ele envolve:
1. Avaliação dos dois eixos
Comunicação/social (3 domínios obrigatórios)
Restrito/repetitivo (mínimo 2 de 4)
2. Evidência desde o desenvolvimento
Mesmo que sutil ou não reconhecida.
3. Impacto funcional
Social, profissional, emocional ou adaptativo.
4. Diagnóstico diferencial
Incluindo:
TDAH
Ansiedade social
Trauma
Depressão
Altas habilidades
Não há exame laboratorial que diagnostique o TEA.
🧬 Novos estudos sobre autismo de diagnóstico tardio
Nos últimos anos, estudos longitudinais e genômicos vêm aprofundando a compreensão dos casos identificados apenas na adolescência ou na vida adulta.
Essas pesquisas não criam oficialmente um novo transtorno, mas levantam uma questão importante:
👉 Será que todos os casos de TEA seguem necessariamente a trajetória clássica, com sinais evidentes na infância?
O que motivou essa discussão?
Alguns estudos descrevem adultos diagnosticados tardiamente cujo desenvolvimento infantil foi considerado típico:
• Sem atraso de fala
• Com bom desempenho escolar
• Com socialização aparentemente funcional
Nesses casos, as dificuldades passaram a se tornar clinicamente relevantes apenas:
• Na adolescência
• Na vida adulta
• Quando as demandas sociais e emocionais aumentam
Onde está o “conflito” com o modelo clássico?
• DSM/CID: o TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento com base desde fases precoces.
• Corrente emergente: sugere que pode haver trajetórias mais sutis e altamente compensadas — e discute se, em parte dos casos, o fenótipo se torna evidente tardiamente.
Importante: essa discussão ocorre dentro da literatura científica e ainda está em evolução.
🧠 Perfil clínico descrito nesses estudos
Adultos de diagnóstico tardio tendem a apresentar:
• Inteligência média ou alta
• Alto mascaramento
• Sensação de inadequação crônica
• Burnout social
• Rigidez cognitiva
• Dificuldade de leitura social
E, com alta coocorrência:
• Ansiedade
• Depressão
• TDAH
Em alguns modelos, essas condições são vistas como parte de um conjunto de traços com bases neurobiológicas parcialmente sobrepostas, e não apenas “comorbidades isoladas”.
🧬 Achados genéticos
Alguns estudos mostram que esse grupo pode ter:
Menor carga de variantes raras clássicas do TEA
Maior sobreposição genética com:
TDAH – Ansiedade – Depressão – Traços internalizantes
Isso sugere um espectro mais dimensional e interligado.
⚖️ DSM atual × corrente emergente de pesquisa
Aspecto | Modelo DSM / CID | Corrente emergente |
Classificação | Neurodesenvolvimento único | Possíveis trajetórias distintas |
Início | Sempre precoce | Pode não ser evidente |
Linguagem infantil | Pode atrasar | Geralmente típica |
Cognição | Variável | Média ou alta |
Mascaramento | Menor foco | Central |
Internalização | Secundária | Proeminente |
Ansiedade/depressão | Comorbidades | Parte do fenótipo |
TDAH | Comorbidade | Sobreposição genética |
⚠️ Importante
Essas hipóteses ainda não modificaram os critérios diagnósticos oficiais.
O DSM e a CID continuam exigindo base no neurodesenvolvimento.
Os novos estudos ampliam a compreensão — mas não substituem os critérios atuais.
💬 Por que tantos adultos estão descobrindo isso agora?
Alguns fatores ajudam a explicar esse aumento de diagnósticos e de autoidentificação no espectro:
Ampliação dos critérios diagnósticos
Perfis mais leves passaram a ser reconhecidos dentro do espectro nas classificações atuais.
Reconhecimento do mascaramento
Especialmente em mulheres, pessoas com altas habilidades e indivíduos que desenvolveram estratégias compensatórias ao longo da vida.
Maior divulgação do autismo nas mídias
Séries, filmes, documentários, redes sociais e relatos de figuras públicas ampliaram a visibilidade do espectro. Isso permitiu que muitos adultos se reconhecessem em características antes pouco discutidas fora do meio técnico.
Maior acesso à informação científica e psicoeducação
Conteúdos educativos, profissionais especializados e materiais online facilitaram a compreensão sobre o tema.
Burnout autista tardio
Décadas de compensação e mascaramento podem levar a colapso adaptativo na vida adulta, motivando investigação diagnóstica.
Nomear o que sempre esteve presente costuma trazer alívio — e, principalmente, direcionamento terapêutico mais adequado.
📌 Conclusão
Nem todo adulto com traços autísticos terá diagnóstico de TEA.
Mas também não é correto descartar o espectro apenas pela autonomia funcional.
A diferença central está em:
• Intensidade dos critérios
• Persistência ao longo da vida
• Impacto funcional
• Custo adaptativo
Autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento.Fenótipo autista é uma variação dimensional de traços.
Diferenciar ambos não é rotular — é compreender, direcionar suporte e reduzir sofrimento adaptativo.
Se você se identificou, saiba:
Entender seu funcionamento não é se limitar.É finalmente ter um mapa para viver com menos desgaste e mais autenticidade.

Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.
Para saber mais:
American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5-TR. 5th ed., text rev. Washington, DC: APA; 2022.Disponível em: https://www.psychiatry.org/psychiatrists/practice/dsm
World Health Organization. International Classification of Diseases 11th Revision (ICD-11): Autism spectrum disorder (6A02). Geneva: WHO; 2019.Disponível em: https://icd.who.int/
🧬 Novos estudos – diagnóstico tardio e autismo adulto
[Nature – estudo citado]Lord C, et al. Developmental and genetic trajectories of late-diagnosed autism. Nature. 2025.Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41586-025-09542-6
Riglin L, et al. Investigating shared genetic risk between autism, ADHD and depression. Molecular Psychiatry. 2020;25:2030-2041.Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41380-018-0339-2
Brugha TS, et al. Adult autism spectrum disorders in the general population: diagnostic and functional outcomes. JAMA Psychiatry. 2016;73(3):256-263.Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jamapsychiatry/fullarticle/2484513
🧠 Mascaramento e diagnóstico tardio
Hull L, et al. “Putting on my best normal”: Social camouflaging in adults with autism spectrum conditions. Autism. 2017;21(6):704-715.Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1362361316671012
Cassidy S, et al. Risk markers for suicidality in autistic adults: camouflaging and mental health. The Lancet Psychiatry. 2018;5(6):504-513.Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2215036618301544
🧩 Fenótipo autista ampliado
Sasson NJ, Lam KSL, Childress D, et al. The Broad Autism Phenotype in typically developing adults: behavioral and genetic perspectives. Journal of Autism and Developmental Disorders. 2013;43:2549-2564.Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s10803-013-1819-5
Rubenstein E, Chawla D. Broader autism phenotype: a review of genetic and environmental contributions. Autism Research. 2018;11(1):32-45.Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/aur.1893






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