🦠 Alistipes: quando uma bactéria da microbiota cresce demais
- Berenice Cunha Wilke
- 6 de mar.
- 5 min de leitura
Nos últimos anos, o estudo da microbiota intestinal revelou que pequenas alterações na composição das bactérias do intestino podem influenciar inflamação, metabolismo e até o funcionamento do cérebro.
Entre essas bactérias está o gênero Alistipes, um grupo que normalmente faz parte da microbiota saudável. No entanto, quando ocorre um aumento exagerado dessa bactéria, pode surgir um desequilíbrio no ecossistema intestinal — situação conhecida como disbiose.
Entender o papel do Alistipes ajuda a interpretar melhor o exame e a orientar estratégias para restaurar o equilíbrio da microbiota.
O que é a bactéria Alistipes
Alistipes pertence ao filo Bacteroidetes, um dos principais grupos bacterianos do intestino humano.
Ela participa de processos importantes como:
metabolismo de proteínas
produção de metabólitos bacterianos
interação com o sistema imunológico
modulação do eixo intestino-cérebro
Por isso, sua presença não é necessariamente negativa. O problema surge quando ocorre predominância excessiva, geralmente associada a redução de outras bactérias protetoras da microbiota.
O que pode levar ao aumento de Alistipes
Diversos fatores podem favorecer o crescimento dessa bactéria.
Entre os mais comuns estão:
Alimentação
dietas muito ricas em proteína animal
baixo consumo de fibras
ingestão reduzida de frutas, legumes e vegetais
Alterações da microbiota
uso repetido de antibióticos
redução de bactérias produtoras de butirato
perda de diversidade bacteriana
Estilo de vida
estresse crônico
dietas muito restritivas
jejuns prolongados
Esses fatores podem alterar o ambiente intestinal e permitir que algumas bactérias se tornem dominantes no ecossistema intestinal.
Possíveis sintomas associados
Quando ocorre desequilíbrio da microbiota com aumento de Alistipes, alguns pacientes podem apresentar:
dor abdominal recorrente
distensão abdominal
alteração do ritmo intestinal
sensibilidade alimentar
aumento de gases
sensação de inflamação intestinal
Em alguns casos, alterações da microbiota também podem influenciar o eixo intestino-cérebro, contribuindo para sintomas como ansiedade ou alterações do humor.
Alistipes e o eixo intestino-cérebro
A microbiota intestinal participa da produção de diversas moléculas que influenciam o sistema nervoso.
Algumas espécies de Alistipes estão envolvidas no metabolismo do triptofano, aminoácido precursor da serotonina.
Alterações nesse metabolismo podem afetar:
inflamação intestinal
comunicação intestino-cérebro
regulação do humor
Por isso, estudos recentes investigam a relação entre microbiota intestinal e saúde mental.
Condições clínicas em que o aumento de Alistipes foi observado
Diversas pesquisas identificaram níveis elevados dessa bactéria em algumas doenças.
É importante ressaltar que essas associações não significam necessariamente causa direta, mas indicam possíveis relações com o desequilíbrio da microbiota.
Síndrome do intestino irritável
Estudos de microbioma em pacientes com síndrome do intestino irritável mostram alterações importantes na composição bacteriana, incluindo aumento de algumas bactérias do filo Bacteroidetes, entre elas Alistipes.
Essas alterações podem contribuir para:
maior sensibilidade intestinal
dor abdominal
distensão
alterações do trânsito intestinal.
Síndrome da fadiga crônica
Pesquisas em pacientes com síndrome da fadiga crônica (ME/CFS) encontraram mudanças na diversidade da microbiota intestinal, com aumento de algumas espécies de Alistipes em determinados subgrupos.
Esses achados sugerem possível participação da microbiota em mecanismos de:
inflamação sistêmica
metabolismo energético
fadiga persistente.
Inflamação metabólica
Estudos recentes também investigam o papel da microbiota intestinal na chamada inflamação metabólica, relacionada a obesidade e doenças metabólicas.
Alterações na abundância de bactérias como Alistipes podem influenciar a produção de metabólitos bacterianos que modulam o sistema imunológico.
🔬 Bactérias que frequentemente diminuem quando Alistipes aumenta
Em muitos exames de microbioma, o aumento de Alistipes aparece acompanhado da redução de bactérias consideradas protetoras.
Isso ocorre porque a microbiota funciona como um ecossistema competitivo.
Entre as bactérias que frequentemente aparecem reduzidas estão:
Akkermansia muciniphila
Importante para a manutenção da barreira intestinal e da camada de muco intestinal.
Bifidobacterium
Participa da digestão de fibras e da produção de metabólitos benéficos.
Roseburia
Uma das principais produtoras de butirato, essencial para a saúde das células do intestino.
Outras bactérias produtoras de butirato
Também podem aparecer reduzidas:
Faecalibacterium prausnitzii
Eubacterium
Lachnospira
Essas bactérias ajudam a manter um ambiente intestinal anti-inflamatório.
O mais importante: microbiota é equilíbrio
A microbiota intestinal funciona como um ecossistema complexo, composto por centenas de espécies bacterianas que convivem em equilíbrio. Por isso, o problema geralmente não é a presença de uma bactéria específica, mas sim o desequilíbrio entre diferentes grupos bacterianos.
O objetivo da abordagem clínica não é eliminar completamente Alistipes, mas restaurar a diversidade e o equilíbrio da microbiota intestinal.
Estratégias para modular a microbiota intestinal
Algumas estratégias podem ajudar a favorecer um microbioma mais equilibrado:
Aumentar o consumo de fibras prebióticas
inulina
goma acácia
FOS (frutooligossacarídeos)
XOS
Essas fibras estimulam o crescimento de bactérias benéficas como Bifidobacterium.
Aumentar polifenóis na dieta
Alimentos ricos em polifenóis podem ajudar a modular a microbiota:
frutas vermelhas
romã
uva
chá verde
cacau
Aumentar diversidade alimentar
Dietas ricas em vegetais, legumes e frutas contribuem para aumentar a diversidade bacteriana intestinal.
Ajustar temporariamente o consumo de proteína animal
Dietas muito ricas em proteína animal podem favorecer bactérias proteolíticas. Em alguns casos, pode ser útil equilibrar o consumo de proteínas e aumentar fibras e vegetais.
Uso direcionado de probióticos
Em alguns casos, probióticos contendo Bifidobacterium podem ajudar a restaurar o equilíbrio da microbiota.
Conclusão
O aumento de Alistipes no microbioma intestinal pode ser um sinal de desequilíbrio do ecossistema intestinal.
Embora essa bactéria faça parte da microbiota normal, sua predominância excessiva pode estar associada a processos inflamatórios e alterações metabólicas.
O foco da abordagem clínica deve ser restaurar a diversidade e o equilíbrio da microbiota, por meio de alimentação adequada, fibras prebióticas e estratégias individualizadas de modulação intestinal.

Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.
Para saber mais
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