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🧬 Síndrome de depleção mitocondrial tipo 13 (FBXL4): o que é, como diagnosticar e o que já existe em tratamento

  • Foto do escritor: Berenice Cunha Wilke
    Berenice Cunha Wilke
  • há 20 horas
  • 9 min de leitura

🧩 Introdução

As doenças mitocondriais estão entre os quadros mais desafiadores da medicina — especialmente quando surgem nos primeiros meses de vida.


Entre elas, a síndrome de depleção mitocondrial tipo 13 (MTDPS13), associada ao gene FBXL4, se destaca por:

  • início muito precoce

  • comprometimento neurológico importante

  • evolução potencialmente grave


Mas as perguntas centrais continuam sendo:

👉 O que acontece dentro da célula?👉 Existe tratamento?👉 O que realmente faz diferença hoje?


📊 Quantos casos existem?

  • Aproximadamente 100–200 casos descritos no mundo

  • Classificada como doença ultrarrara (<1 por milhão)

  • Provavelmente subdiagnosticada


🧬 O que é a depleção do DNA mitocondrial?

As mitocôndrias produzem energia (ATP).Para isso, dependem do DNA mitocondrial (mtDNA).

👉 Na depleção mitocondrial:

  • redução importante do número de cópias de mtDNA

  • a célula perde a capacidade de gerar energia suficiente


➡️ Não é uma mutação no mtDNA em si➡️ É uma perda quantitativa desse DNA


🧠 Imagine:

  • a mitocôndria = uma fábrica

  • o mtDNA = o manual de instruções


👉 Na depleção:

  • os manuais vão sendo perdidos

  • a fábrica ainda existe…

  • mas não consegue produzir energia


⚙️ Por que isso acontece no gene FBXL4?

O gene FBXL4 não produz energia diretamente.


Ele atua na manutenção estrutural da mitocôndria.


Quando está alterado:

  • instabilidade mitocondrial

  • aumenta a mitofagia (destruição de mitocôndrias)

  • a replicação do mtDNA fica prejudicada


👉 Resultado:

➡️ queda progressiva do mtDNA

➡️ falência energética celular


💡 Ponto crítico:Isso não é só “falta de energia”👉 é um problema estrutural da célula


👶 Como a doença se manifesta?

Geralmente nos primeiros meses de vida:

  • atraso do desenvolvimento

  • hipotonia

  • dificuldade alimentar

  • falha de crescimento

  • convulsões

  • microcefalia progressiva

  • acidose láctica persistente (sinal-chave)


🧪 Diagnóstico

Baseado em:

  • clínica + lactato elevado

  • neuroimagem

  • genética


👉 Padrão atual: sequenciamento do exoma com análise mitocondrial


🧪 O que é um “exoma com análise mitocondrial”?

É um exame que inclui:

👉 duas análises complementares

  1. DNA nuclear (exoma tradicional)

    • identifica mutações em genes como FBXL4

  2. DNA mitocondrial (mtDNA)

    • avalia variantes no genoma mitocondrial

    • pode detectar heteroplasmia


🔍 Por que isso é importante?

Nas doenças mitocondriais:

  • pode haver mais de um mecanismo envolvido

  • o quadro clínico pode ser semelhante entre causas diferentes


👉 Avaliar apenas o exoma nuclear pode:

  • deixar diagnósticos incompletos

  • perder variantes relevantes no mtDNA


🧠 No caso do FBXL4

👉 O diagnóstico é feito no DNA nuclear (gene FBXL4)

Mas a análise mitocondrial:

  • ajuda a excluir outras causas

  • melhora a interpretação do quadro

  • torna a investigação mais completa


⚠️ Na prática clínica (muito importante)

👉 Sempre confirmar com o laboratório:

  • se o exame inclui mtDNA

  • qual a cobertura do sequenciamento mitocondrial

  • se há análise de heteroplasmia

➡️ Nem todos os laboratórios fazem isso automaticamente


⚠️ Existe tratamento?

👉 Não existe tratamento curativo até o momento


O manejo é de suporte:

  • controle de crises

  • suporte nutricional

  • acompanhamento neurológico/metabólico


💊 Convulsões: existe um anticonvulsivante melhor?

👉 Não existe um anticonvulsivante específico para FBXL4.


O controle das crises segue princípios gerais das encefalopatias epilépticas — com alguns cuidados importantes nas doenças mitocondriais.


🧠 O que a prática clínica mostra

  • As crises costumam ser difíceis de controlar

  • Frequentemente é necessário mais de uma medicação

  • A escolha depende do tipo de crise e da tolerância do paciente

👉 Ou seja: o tratamento é individualizado, não existe um protocolo único para FBXL4.


💊 Opções mais utilizadas (perfil mais seguro em mitocondriopatias)

O tratamento é individualizado.


Na prática, costumam ser preferidos:

  • Levetiracetam → muito usado, boa tolerabilidade, pouco efeito mitocondrial

  • Clobazam → útil como adjuvante

  • Topiramato → pode ajudar em alguns casos, mas exige cautela


👉 Esses não são “os melhores”, mas são frequentemente escolhidos por segurança.


⚠️ Medicações que exigem cautela (ou evitar)

Aqui está um ponto crítico em doenças mitocondriais:

  • Ácido valpróico

🚫 pode piorar a função mitocondrial

🚫 risco de hepatotoxicidade

👉 Especialmente perigoso em alguns defeitos metabólicos mitocondriais.


🧪 Suplementos: o que realmente faz sentido?


🔹 Cofatores mitocondriais clássicos

  • Coenzima Q10

  • Riboflavina

  • L-carnitina

  • Ácido alfa-lipóico

👉 Podem ajudar em alguns pacientes

👉 Não mudam o curso da doença


⚡ Creatina e Arginina


Creatina

  • suporte energético celular

  • possível melhora leve da função muscular

➡️ efeito variável e limitado


Arginina

  • atua no óxido nítrico

  • útil em condições como MELAS


➡️ sem evidência consistente em FBXL4


👉 Creatina e arginina:

  • não tratam a causa

  • não corrigem a depleção de mtDNA

  • não mudam a evolução da doença


➡️ São ferramentas adjuntas, não tratamento principal


🧬 Suplementos emergentes

Podem atuar em diferentes vias:

  • Mitofagia → Urolitina A

  • Biogênese → PQQ

  • Estresse oxidativo → Sulforafano

  • Inflamação → Curcumina

  • Metabolismo energético → NAD+

  • Ergotioneína → proteção antioxidante mitocondrial

⚠️ Limitações importantes

  • ❗ Sem estudos específicos em FBXL4

  • ❗ Não corrigem a depleção do mtDNA


🧬 Peptídeos mitocondriais

Peptídeos como Elamipretide:

  • estabilizam a membrana mitocondrial

  • podem melhorar a produção de energia

➡️ ainda em fase experimental



🧬 Terapias emergentes: o que está sendo estudado

Apesar de ainda não existir tratamento curativo para mutações no gene FBXL4, a pesquisa em doenças mitocondriais está avançando — especialmente em abordagens mais direcionadas à causa do problema.


1. Terapia com nucleosídeos: uma nova esperança nas doenças mitocondriais?

Nos últimos anos, a medicina começou a explorar uma abordagem diferente para doenças mitocondriais raras:👉 tratar diretamente a causa do problema, e não apenas os sintomas.


Um dos estudos mais relevantes nessa área é o ensaio clínico de fase II registrado como:


🧠 O que o estudo investigou?

O estudo avaliou o uso de:

  • desoxicitidina (dC)

  • desoxitimidina (dT)


👉 duas moléculas fundamentais para a formação do DNA mitocondrial.


O objetivo foi entender se essa reposição poderia:

✔️ melhorar a função mitocondrial

✔️ reduzir a progressão da doença

✔️ trazer ganhos clínicos em crianças com síndromes de depleção de DNA mitocondrial


Qual é o racional?

Nas síndromes de depleção mitocondrial (como as relacionadas ao gene FBXL4:

  • o organismo tem dificuldade em manter o DNA mitocondrial (mtDNA)

  • isso leva a:

    • baixa produção de energia

    • aumento do lactato

    • comprometimento neurológico


👉 A ideia da terapia é simples e elegante: fornecer ao organismo os “blocos de construção” necessários para reconstruir o mtDNA.


👶 Quem está participando do estudo?

  • Crianças com diagnóstico genético confirmado de doença mitocondrial

  • Pacientes com diferentes causas de depleção de mtDNA

👉 Isso amplia a aplicabilidade potencial da terapia.


💊 Qual é a proposta do estudo?

Os participantes recebem:

👉 nucleosídeos por via oral, de forma contínua

O estudo é:

  • de fase II

  • aberto (sem grupo placebo)

  • focado principalmente em segurança e sinais iniciais de eficácia


📊 O que está sendo avaliado?

✔️ Desfechos principais

  • segurança

  • tolerabilidade

✔️ Desfechos secundários

  • desenvolvimento neurológico

  • função motora

  • evolução clínica

  • marcadores metabólicos (como lactato)


⚠️ Quais são as limitações?

Como o estudo ainda está em andamento:

  • número limitado de participantes

  • ausência de grupo controle

  • heterogeneidade dos casos

👉 os resultados ainda não são definitivos


O que sabemos até agora?

Dados preliminares de estudos semelhantes sugerem que:

✔️ a terapia tende a ser bem tolerada

✔️ pode haver estabilização clínica em alguns casos

✔️ alguns pacientes apresentam melhora discreta

👉 mas ainda não há evidência de reversão da doença


E na prática clínica?

Essa abordagem representa um avanço importante:

👉 passa-se de um cuidado apenas de suporte

👉 para uma tentativa de intervenção na causa genética


Mas é fundamental reforçar:

  • ainda é um tratamento experimental

  • os resultados variam

  • o acompanhamento clínico continua essencial


Insight importante

Mesmo com terapias inovadoras:

👉 o ambiente metabólico do paciente influencia diretamente a resposta ao tratamento


🧭 Resumo:

👉 A terapia com nucleosídeos é uma abordagem promissora para síndromes de depleção de DNA mitocondrial, com potencial de estabilização da doença — mas ainda em fase de validação científica.


  1. Terapia gênica

A proposta é:

👉 introduzir uma cópia funcional do gene FBXL4 nas células


Potencial:

  • corrigir a causa da doença

  • restaurar a função mitocondrial


Limitações atuais:

  • dificuldade de entrega eficiente aos tecidos (especialmente cérebro)

  • segurança a longo prazo ainda em estudo


➡️ Ainda não disponível na prática clínica


  1. ✂️ Edição genética (CRISPR)

A tecnologia de edição genética, como o CRISPR, permite:

👉 corrigir diretamente a mutação no DNA


Potencial:

  • abordagem mais precisa que a terapia gênica tradicional

  • possibilidade de correção definitiva


Desafios:

  • aplicação em humanos ainda limitada

  • risco de efeitos fora do alvo

  • questões éticas importantes


➡️ Atualmente restrita a pesquisa experimental


  1. 🔁 Transferência mitocondrial

Estratégia inovadora que busca:

👉 substituir mitocôndrias disfuncionais por mitocôndrias saudáveis


Pode ser feita em diferentes contextos:

  • técnicas reprodutivas (prevenção de transmissão)

  • estudos celulares experimentais


Potencial:

  • restaurar a produção de energia


Limitações:

  • extremamente complexa

  • ainda sem aplicação terapêutica estabelecida para FBXL4


➡️ Campo promissor, mas ainda inicial


5.⚙️ Terapias metabólicas

Buscam contornar o problema energético:

👉 melhorar o funcionamento celular mesmo sem corrigir a causa genética

Incluem:

  • moduladores metabólicos

  • ativadores de biogênese mitocondrial

  • redutores de estresse oxidativo


Exemplos em estudo:


  • 💊 Dicloroacetato (DCA)

    Uma das abordagens mais interessantes em pesquisa.

    👉 É considerado um medicamento reutilizável.


    O que estudos experimentais mostraram:

    • melhora da função mitocondrial

    • redução de alterações metabólicas

    • melhora estrutural das mitocôndrias


    • ⚠️ Mas aqui está o ponto crítico:

      • resultados em modelos laboratoriais

      • sem comprovação clínica robusta em FBXL4


  • NAD+ e precursores


  • Bezafibrato

O bezafibrato é um medicamento antigo para colesterol que atua ativando os PPARs.

👉 Isso leva a:

  • aumento da biogênese mitocondrial

  • maior capacidade energética celular

💡 Em teoria, poderia compensar a falha energética.


🧪 O problema na prática

  • estudos experimentais mostraram melhora mitocondrial

  • mas estudos em humanos são inconsistentes

  • benefício clínico não comprovado de forma robusta

❗ E no FBXL4?


👉 Ponto central:

  • não existem estudos específicos relevantes

  • o mecanismo provavelmente não resolve o problema principal


Porque no FBXL4:

  • há instabilidade da mitocôndria

  • aumento da degradação

  • perda de DNA mitocondrial


👉 Ou seja:

➡️ não é só “falta de mitocôndria”

➡️ é um defeito estrutural


🧠 Interpretação clínica

O bezafibrato tenta:

👉 aumentar a produção de mitocôndrias

Mas o FBXL4 cursa com:

👉 perda estrutural e perda de mtDNA

➡️ Resultado esperado:

  • efeito limitado ou ausente


⚠️ Limitações gerais das terapias metabólicas

  • não corrigem a depleção do mtDNA

  • efeitos variáveis entre pacientes

  • ainda sem evidência robusta


👉 Podem ter papel como suporte, mas não são curativas


🔬 Comparação prática das abordagens metabólicas em estudo (FBXL4)

Aspecto

DCA

Bezafibrato

Peptídeos mitocondriais (ex: Elamipretide)

Tipo

Medicamento reutilizado

Medicamento reutilizado

Terapia experimental

Mecanismo principal

Reduz produção de lactato / melhora metabolismo energético

Estimula biogênese mitocondrial (PPAR)

Estabiliza membrana mitocondrial

Alvo do problema

Metabolismo

Produção mitocondrial

Estrutura mitocondrial

Evidência em humanos

Limitada

Inconsistente

Estudos iniciais (outras doenças)

Evidência em FBXL4

❌ Não

❌ Não

❌ Não

Principal limitação

Neurotoxicidade (neuropatia)

Miopatia / hepatotoxicidade

Falta de estudos clínicos robustos

Potencial teórico

Moderado

Limitado

Mais promissor (teoricamente)


👉 “Tratar energia, quantidade ou estrutura são caminhos diferentes — mas nenhum ainda corrige a perda do DNA mitocondrial.”


Hoje:

  • o tratamento é de suporte

  • suplementos têm efeito limitado


No futuro:

👉 terapias como edição genética e terapia gênica são as que realmente têm potencial de mudar o curso da doença


🌍 Onde estão sendo feitas as pesquisas?

Principais centros:


👉 Esses centros trabalham de forma integrada, o que é essencial para doenças raras como FBXL4.


⚙️ Por que é tão difícil tratar?

Porque o problema é múltiplo:

  • instabilidade mitocondrial

  • aumento da degradação

  • perda progressiva de mtDNA


👉 Ou seja:


➡️ não é só metabolismo

➡️ é arquitetura celular alterada


Isso explica:

  • por que suplementos têm efeito limitado

  • por que terapias futuras precisam ser mais direcionadas


🧠 Conclusão

A síndrome de depleção mitocondrial tipo 13 (FBXL4) é uma condição:

  • rara

  • grave

  • de início precoce

  • sem tratamento curativo até o momento


Mas há um ponto importante:

👉 a ciência está avançando — especialmente em genética e terapias direcionadas


Enquanto isso:

➡️ o diagnóstico precoce

➡️ o acompanhamento adequado

➡️ e a orientação das famílias

continuam sendo fundamentais.

 

FNS, 7a8m, e seu irmão gêmeo, ambos com Síndrome de Depleção Mitocondrial Tipo 13 (FBXL4). Foto gentilmente cedida pela família
FNS, 7a8m, e seu irmão gêmeo, ambos com Síndrome de Depleção Mitocondrial Tipo 13 (FBXL4). Foto gentilmente cedida pela família



Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.


Para saber mais:


Para pesquisar sobre estudos em andamento:





  1. Gai X, Ghezzi D, Johnson MA, et al.

    Mutations in FBXL4, encoding a mitochondrial protein, cause early-onset mitochondrial encephalomyopathy.

    Am J Hum Genet. 2013;93(3):482–495.


  2. Bonnen PE, Yarham JW, Besse A, et al.

    Mutations in FBXL4 cause mitochondrial encephalopathy and a disorder of mitochondrial DNA maintenance.

    Am J Hum Genet. 2013;93(3):471–481.


  3. Wortmann SB, Kluijtmans LAJ, Rodenburg RJ, et al.

    3-Methylglutaconic aciduria—lessons from 50 genes and 977 patients.

    J Inherit Metab Dis. 2013;36(6):913–921.

👉 (Inclui FBXL4 dentro do espectro metabólico)


  1. Ghezzi D, Zeviani M.

    Human diseases associated with defects in mitochondrial protein synthesis.

    Hum Mol Genet. 2018;27(R2):R229–R236.


  2. Ballout RA, Al Alam C, Bonnen PE, et al.

    FBXL4-related mitochondrial DNA depletion syndrome: clinical, biochemical, and molecular characterization.

    J Med Genet. 2019;56(2):92–101.


  3. El-Hattab AW, Craigen WJ, Scaglia F.

    Mitochondrial DNA depletion syndromes: review and updates of genetic basis, manifestations, and therapeutic options.

    Neurotherapeutics. 2017;14(2):344–358.


  4. Stenton SL, Prokisch H.

    Genetics of mitochondrial diseases: identifying mutations to help diagnosis.

    Lancet Neurol. 2020;19(2):170–180.


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