👉 Ergotioneína: estamos diante de um novo aliado nas doenças mitocondriais e neurológicas?
- Berenice Cunha Wilke
- há 1 dia
- 3 min de leitura
por Berenice Cunha Wilke
🧩 Introdução
Nos últimos anos, a medicina tem voltado sua atenção para compostos capazes de atuar diretamente dentro das células — especialmente na proteção das mitocôndrias e do cérebro.
Entre eles, a ergotioneína vem ganhando destaque.
Mas a pergunta central é: 👉 estamos realmente diante de um novo aliado clínico ou ainda no campo da hipótese científica?
🧬 O que é a ergotioneína
A ergotioneína é um derivado de aminoácido sulfurado, obtido exclusivamente pela alimentação (principalmente cogumelos).
Seu principal diferencial é único:
👉 ela possui um transportador específico (OCTN1 / SLC22A4) que leva a molécula ativamente para dentro das células.
Isso permite que ela se concentre em tecidos estratégicos:
cérebro
mitocôndrias
fígado
rins
sistema imune
👉 Ou seja: não é apenas um antioxidante circulante —é um antioxidante intracelular direcionado.
⚙️ Por que isso é relevante?
Grande parte das doenças neurológicas e mitocondriais envolve:
excesso de espécies reativas de oxigênio (ROS)
disfunção mitocondrial
inflamação celular
dano ao DNA
👉 E esses processos ocorrem dentro da célula.
Isso muda o raciocínio:
Não basta ter antioxidantes no sangue —é preciso que eles cheguem ao local do dano.
🔋 Possíveis mecanismos de ação
1. Proteção mitocondrial
redução do estresse oxidativo
proteção do DNA mitocondrial
preservação da produção de ATP
👉 relevante em doenças com falha energética celular
2. Neuroproteção
atravessa a barreira hematoencefálica
reduz dano oxidativo neuronal
👉 potencial impacto em:
cognição
doenças neurodegenerativas
3. Modulação inflamatória
redução de inflamação de baixo grau
possível modulação da microglia
🧠 Onde isso pode se aplicar?
✔ Doenças mitocondriais
Em doenças como MELAS — e em outras doenças mitocondriais — observa-se::
há falha na produção de energia
aumento de ROS
dano neuronal progressivo
👉 A ergotioneína poderia atuar como:
protetor mitocondrial
redutor de dano oxidativo
❗ Porém:
não há evidência clínica robusta nessas doenças
✔ Doenças neurológicas
Estudos sugerem possível papel em:
envelhecimento cerebral
doenças neurodegenerativas
declínio cognitivo
✔ Transtornos do neurodesenvolvimento como Autismo
pode haver estresse oxidativo elevado
disfunção mitocondrial em subgrupos
inflamação neuroimune
👉 Nesse contexto, a ergotioneína surge como hipótese terapêutica complementar
✔ Doenças raras Muitas doenças raras compartilham:
disfunção energética
estresse oxidativo
inflamação celular
👉 O interesse pela ergotioneína cresce justamente por atuar nesses eixos comuns.

❗ O ponto mais importante: evidência científica
Apesar do forte racional biológico:
🔴 Ainda não existem ensaios clínicos robustos que sustentem seu uso como tratamento padrão
Isso significa:
Não há dose padronizada. Hoje, com mais respaldo:
Coenzima Q10
Riboflavina (B2)
L-carnitina
NAC
Ácido alfa-lipoico
Arginina (especialmente em MELAS)
Sulforafano
👉 A ergotioneína ainda está um passo atrás em evidência.
🧠 Conclusão
A ergotioneína representa uma nova geração de compostos com atuação intracelular direcionada, especialmente interessante para o eixo:
👉 mitocôndria – cérebro – inflamação
No entanto:
👉 ainda não é um tratamento consolidado nas doenças mitocondriais ou neurológicas
Seu uso deve ser:
individualizado
complementar
baseado em raciocínio clínico
📌 Mensagem final
Nem todo antioxidante é igual.
A ergotioneína chama atenção porque entra na célula e atua onde o dano acontece —mas a medicina ainda está entendendo qual será o seu real papel nas doenças mitocondriais e neurológicas.
👉 Estamos diante de um composto promissor, mas ainda em construção científica.
Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.
Para saber mais:
Chen L, Zhang L, Ye X, Deng Z, Zhao C. Ergothioneine and its congeners: anti-ageing mechanisms and pharmacophore biosynthesis. Protein Cell. 2024;15(3):191-206.
Tian X, Thorne JL, Moore JB. Ergothioneine: an underrecognised dietary micronutrient required for healthy ageing? Br J Nutr. 2023;129(1):104-114.
Apparoo Y, Phan CW, Kuppusamy UR, Sabaratnam V. Ergothioneine and its prospects as an anti-ageing compound. Exp Gerontol. 2022;170:111982.
Cheah IK, Halliwell B. Ergothioneine, recent developments. Redox Biol. 2021;42:101868.
Ishimoto T, Kato Y. Ergothioneine in the brain. FEBS Lett. 2022;596(10):1290-1298.
Liu HM, Tang W, Wang XY, et al. Safe and effective antioxidant: the biological mechanism and potential pathways of ergothioneine in the skin. Molecules. 2023;28(4):1648.
Syahputra RA, Ahmed A, Asriadi, et al. Ergothioneine as a functional nutraceutical: mechanisms, bioavailability, and therapeutic implications. J Nutr Biochem. 2025;145:110006.
Sprenger HG, Mittenbühler MJ, Sun Y, et al. Ergothioneine controls mitochondrial function and exercise performance via direct activation of MPST. Cell Metab. 2025;37(4):857-869.e9.




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