🧬 Peptídeos derivados da própria mitocôndria (MDPs)
- Berenice Cunha Wilke
- há 4 horas
- 5 min de leitura
As mitocôndrias estão no centro de várias doenças — do envelhecimento ao autismo, passando por doenças raras.
E uma nova geração de terapias não tenta apenas “dar energia”
👉 mas tentar modular diretamente o funcionamento da mitocôndria
🧬 O que é um peptídeo?

👉 Pense assim:
Aminoácidos = “letras”
Peptídeo = “palavra curta”
Proteína = “frase longa”
📌 Peptídeos costumam ter funções específicas e direcionadas no organismo — muitas vezes como sinais biológicos.
🧬 1. Peptídeos derivados da própria mitocôndria (MDPs)
São produzidos a partir do DNA mitocondrial e funcionam como sinais biológicos sistêmicos — alguns autores os comparam a “hormônios mitocondriais”.
🔹 Principais:
• Humanina (Humanin)
Um dos primeiros descobertos
Ação citoprotetora e antiapoptótica
Estudada em:
Alzheimer
Doenças neurodegenerativas
Resistência à insulina
👉 Atua protegendo contra estresse oxidativo e morte celular
👉 Estudos mostram associação com envelhecimento e doenças neurodegenerativas — principalmente como biomarcador, ainda sem aplicação clínica direta
• MOTS-c (Mitochondrial Open Reading Frame of the 12S rRNA-c)
Regula metabolismo energético
Atua no núcleo (sinalização retrógrada)
📌 Principais efeitos:
↑ sensibilidade à insulina
↑ uso de glicose
↑ adaptação ao exercício
👉 Muito estudado em:
obesidade
diabetes
envelhecimento
👉 Um dos poucos com estudos iniciais em humanos — ainda sem uso clínico estabelecido
• SHLPs (Small Humanin-Like Peptides)
Família de peptídeos semelhantes à humanina:
SHLP1 a SHLP6
📌 Funções:
Regulação metabólica
Proteção celular
Modulação do envelhecimento
👉 Alguns têm efeito protetor, enquanto outros podem induzir apoptose dependendo do contexto celular
🧬 2. Peptídeos terapêuticos que atuam na mitocôndria
Aqui entram os mais relevantes para prática clínica e pesquisa translacional.
🔹 Principais:
• SS-31 (Elamipretide)
👉 É o peptídeo mitocondrial mais avançado em estudos clínicos — ainda sem aprovação ampla para uso rotineiro
📌 Mecanismo:
Liga-se à cardiolipina na membrana mitocondrial interna
Estabiliza a cadeia respiratória
👉 Efeitos:
↑ produção de ATP
↓ espécies reativas de oxigênio
melhora da eficiência mitocondrial
📚 Estudos em:
miopatias mitocondriais
insuficiência cardíaca
doença renal
doenças neurodegenerativas
• Peptídeos antioxidantes mitocondriais (menos específicos)
Alguns peptídeos experimentais com alvo mitocondrial:
Szeto-Schiller peptides (família do SS-31)
Peptídeos direcionados por carga lipofílica (ainda experimentais)
👉 É o peptídeo mitocondrial mais avançado em estudos clínicos — ainda sem aprovação ampla para uso rotineiro
🧬 3. Peptídeos indiretos (modulam mitocôndria, mas não são específicos)
Aqui entra um ponto importante — muitos peptídeos populares NÃO são “mitocondriais”, mas impactam a função mitocondrial:
• BPC-157
Modula inflamação e reparo tecidual
Pode melhorar função mitocondrial indiretamente
• Semax / Selank
Efeito neuroprotetor
Redução de estresse oxidativo
👉 Mas não são direcionados à mitocôndria de forma específica
⚖️ O que já é realidade — e o que ainda não é
🧬 Apesar do grande interesse, a maioria dos peptídeos mitocondriais ainda está em fase de pesquisa.
👉 Para entender melhor, vale olhar por doença:
🧠 Alzheimer e peptídeos mitocondriais
A disfunção mitocondrial ocorre precocemente no Alzheimer, antes mesmo das alterações clássicas como placas de β-amiloide.
👉 Isso levou ao estudo de peptídeos mitocondriais como possíveis terapias.
O que os estudos mostram
Peptídeos como a Humanina:
protegem neurônios contra a toxicidade do β-amiloide
reduzem a morte celular
diminuem o estresse oxidativo
👉 Esses resultados são consistentes em modelos celulares e animais, mas ainda não se traduziram em benefício clínico em humanos
👤 E em humanos?
Até o momento:
não há ensaios clínicos testando Humanina como tratamento
estudos em humanos são apenas observacionais
📌 Níveis mais baixos de Humanina estão associados a:
envelhecimento
maior risco de declínio cognitivo
👉 Ou seja: pode funcionar como biomarcador, mas não como terapia
⚠️ Na prática clínica
não existe tratamento com peptídeos aprovado
não há evidência de melhora cognitiva em pacientes
não há dose ou protocolo definido
Resumo
🧬 Os peptídeos mitocondriais são promissores no laboratório, mas ainda não demonstraram benefício clínico no Alzheimer.
🧠 Parkinson e peptídeos mitocondriais
A disfunção mitocondrial é um dos principais mecanismos envolvidos na degeneração dos neurônios dopaminérgicos.
👉 Isso motivou o estudo de peptídeos com ação mitocondrial.
O que os estudos mostram
Peptídeos como Humanina e Elamipretide (SS-31):
reduzem o estresse oxidativo
protegem neurônios em modelos experimentais
melhoram a função mitocondrial em modelos experimentais
👉 Resultados consistentes em modelos celulares e animais
E em humanos?
não há ensaios clínicos robustos em Parkinson
não há evidência de melhora dos sintomas motores
Na prática clínica
não existe tratamento com peptídeos aprovado
não há impacto comprovado na progressão da doença
Resumo
🧬 No Parkinson, os peptídeos mitocondriais são promissores em modelos experimentais, mas ainda não demonstraram benefício clínico.
🧬 Autismo e peptídeos mitocondriais
Em uma parte dos pacientes com TEA, há evidências de disfunção mitocondrial e alterações metabólicas.
👉 Isso levou à hipótese de uso de peptídeos mitocondriais.
O que os estudos mostram
Peptídeos como Humanina e MOTS-c:
modulam metabolismo energético
reduzem estresse oxidativo
têm efeitos anti-inflamatórios em modelos experimentais
E em humanos?
não existem ensaios clínicos com peptídeos em TEA
não há dados de eficácia clínica
Na prática clínica
não há indicação de uso
não há protocolos definidos
Resumo
🧬 No autismo, os peptídeos mitocondriais ainda são uma hipótese teórica, sem aplicação clínica atual.
🧬 Doenças mitocondriais primárias e peptídeos
Nas mitocondriopatias, a disfunção mitocondrial é direta — muitas vezes causada por mutações no DNA mitocondrial ou nuclear.
👉 Em teoria, seriam o cenário ideal para terapias que atuam na mitocôndria.
O que os estudos mostram
O principal peptídeo estudado é o Elamipretide (SS-31).
Os estudos se concentram principalmente em:
Síndrome de Barth
Miopatias mitocondriais primárias
MELAS (com dados mais limitados)
📊 Resultados
melhora da eficiência mitocondrial
redução do estresse oxidativo
melhora discreta de:
fadiga
capacidade funcional (principalmente muscular)
👉 Os resultados são mais consistentes na síndrome de Barth, onde há alteração da cardiolipina (alvo direto do peptídeo)
E em humanos?
há ensaios clínicos em algumas mitocondriopatias, principalmente em miopatias mitocondriais primárias
os benefícios são modestos e variáveis
não há impacto claro na progressão da doença
📌 Em condições como MELAS:
não há evidência de prevenção de episódios neurológicos
não há melhora significativa do quadro cerebral
Na prática clínica
não há tratamento aprovado amplamente
não corrige a mutação genética
não modifica de forma significativa a evolução da doença
Resumo
Nas doenças mitocondriais, os peptídeos podem melhorar a função celular — mas ainda não mudam de forma significativa o curso da doença.
O que já sabemos:
✔️ Esses peptídeos:
participam da regulação mitocondrial
têm efeitos consistentes em modelos experimentais
ajudam a entender mecanismos de doença
O que ainda NÃO temos
tratamentos aprovados
protocolos clínicos
dose e duração definidas
dados de segurança a longo prazo
Conclusão
👉 Hoje, os peptídeos mitocondriais:
explicam melhor a doença
ainda não mudam de forma significativa o tratamento
🧬 A medicina já entende melhor como a mitocôndria falha — mas ainda está aprendendo como intervir de forma eficaz.
Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.
Para saber mais:
Mitocondriopatias
Karaa A, Bertini E, Carelli V, et all
Neurology. 2023 Jul 18;101(3):e238-e252
Contemporary insights into elamipretide's mitochondrial mechanism of action and therapeutic effects.
Sabbah HN, Alder NN, Sparagna GC, Bruce JE, Stauffer BL, Chao LH, Pitceathly RDS, Maack C, Marcinek DJ.
Biomed Pharmacother. 2025 Jun;187:118056.




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