Autismos: diferentes caminhos biológicos no Transtorno do Espectro Autista (TEA)
- Berenice Cunha Wilke
- há 1 dia
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Por Dra. Berenice C. Wilke
Como a genética e os eixos biológicos ajudam a entender por que o espectro autista não é uma condição única
Durante muitos anos, o autismo foi visto como uma única condição. Mas essa visão já não se sustenta. Hoje sabemos que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) não é uma doença única, e sim um conjunto de trajetórias biológicas diferentes que podem levar a um padrão comportamental semelhante.
Talvez, do ponto de vista biológico, seja mais correto falar em “autismos”, no plural.
Isso fica ainda mais claro quando comparamos perfis muito distintos. Um adulto com diagnóstico recente e uma criança com autismo mais intenso, sem fala, podem compartilhar o mesmo diagnóstico — mas é provável que não compartilhem os mesmos mecanismos biológicos. O comportamento pode apresentar pontos em comum, mas os caminhos que levaram até ele podem ser diferentes.
Hoje sabemos que pessoas com TEA podem apresentar alterações em diferentes sistemas do organismo. A genética tem um papel central nesse processo, sendo que o autismo pode surgir a partir de diferentes mecanismos genéticos, como:
variantes raras de maior impacto
alterações no número de cópias do DNA (CNVs)
mutações novas (de novo)
combinação de múltiplas variantes comuns (risco poligênico)
ou síndromes genéticas específicas
Genes como SHANK3, SCN2A, NRXN1, NLGN3 e FMR1 mostram como diferentes alterações podem afetar o desenvolvimento do cérebro — especialmente nas sinapses.
Mas a genética não atua sozinha.
A expressão desses genes pode ser modulada por fatores como o metabolismo celular, o funcionamento das sinapses, o sistema imune, processos inflamatórios e o eixo intestino–cérebro, além de influências ambientais e epigenéticas. Isso significa que diferentes caminhos biológicos podem convergir para um mesmo diagnóstico clínico.
É essa diversidade de mecanismos que define a heterogeneidade do autismo — e que nos convida a olhar para o espectro de forma mais ampla e mais individualizada.
Mas, diante de tanta complexidade, surge uma pergunta natural:
como organizar tudo isso na prática?
Uma das formas propostas pela ciência é agrupar esses mecanismos em eixos biológicos, que ajudam a entender melhor os diferentes perfis dentro do espectro.
🧬 Quais são esses eixos biológicos?
⚡ 1️⃣ Eixo mitocondrial
A mitocôndria é responsável por produzir energia dentro das células — um processo essencial para o funcionamento do organismo, especialmente do cérebro, que é altamente dependente de energia.
Nos últimos anos, estudos têm mostrado que uma parte das pessoas com TEA apresenta sinais de disfunção mitocondrial ou alterações no metabolismo energético celular.
Clinicamente, isso pode se manifestar como:
fadiga intensa ou baixa resistência ao esforço
regressão do desenvolvimento, especialmente após infecções ou estresse
hipotonia
intolerância ao exercício
alterações gastrointestinais
maior vulnerabilidade ao estresse oxidativo
Além disso, pesquisas descrevem alterações na cadeia respiratória mitocondrial, na produção de ATP e na capacidade da célula de responder a situações de estresse metabólico.
Esse conjunto de achados sugere que, em alguns casos, o cérebro pode estar funcionando com menor eficiência energética, o que pode impactar diretamente processos fundamentais como desenvolvimento, plasticidade e regulação do comportamento.
É importante destacar que, na grande maioria das vezes, essas alterações não configuram uma doença mitocondrial clássica. No contexto do autismo, costumam se apresentar como disfunções mais sutis do metabolismo energético, que fazem parte da complexidade biológica do espectro.
🔥 2️⃣ Eixo neuroimune (inflamação e sistema imune)
Outro eixo importante envolve alterações do sistema imunológico e sua interação com o cérebro — o que chamamos de eixo neuroimune.
Nos últimos anos, a literatura tem mostrado que, em parte das pessoas com TEA, podem existir sinais de ativação imune e inflamatória, tanto periférica quanto no sistema nervoso central.
Clinicamente, isso pode se manifestar como:
alergias frequentes
dermatites e outras condições inflamatórias da pele
sintomas gastrointestinais persistentes
história pessoal ou familiar de doenças autoimunes
sinais de ativação de mastócitos
possível relação com irritabilidade, alterações de sono e comportamento
Do ponto de vista biológico, estudos descrevem:
alterações em citocinas inflamatórias
ativação da microglia (células de defesa do cérebro)
maior permeabilidade de barreiras, como a intestinal e a hematoencefálica
presença de autoanticorpos em subgrupos de pacientes
Um exemplo interessante dentro desse eixo é a presença de autoanticorpos contra o receptor de ácido fólico (FRα), que podem interferir no transporte de folato para o cérebro — reforçando a conexão entre imunidade e metabolismo cerebral.
Esse conjunto de achados sugere que, em alguns casos, o cérebro pode estar funcionando sob um estado de ativação imune e inflamação crônica de baixo grau, com possíveis impactos no desenvolvimento e na regulação do comportamento.
É importante destacar que essas alterações não estão presentes em todos os indivíduos com TEA e, quando ocorrem, costumam fazer parte de um quadro mais amplo e multifatorial.
🔌 3️⃣ Eixo sináptico (comunicação entre neurônios)
Esse é um dos pilares mais consistentes da neurobiologia do autismo.
Grande parte dos estudos genéticos mostra que muitos dos genes associados ao TEA estão diretamente envolvidos no funcionamento das sinapses — as estruturas responsáveis pela comunicação entre os neurônios.
Essas alterações podem impactar processos fundamentais como:
formação e organização das sinapses
poda sináptica (eliminação de conexões ao longo do desenvolvimento)
plasticidade neural
equilíbrio entre excitação e inibição nos circuitos cerebrais
Do ponto de vista biológico, isso pode levar a redes neurais menos eficientes ou desorganizadas, com impacto direto na forma como o cérebro processa informações, regula o comportamento e responde ao ambiente.
Entre os genes mais estudados nesse contexto estão SHANK3, SCN2A, NRXN1, NLGN3 e FMR1, todos relacionados à estrutura, função ou regulação das sinapses.
Esse conjunto de achados sustenta a ideia de que, em muitos casos, o autismo pode ser entendido como uma sinaptopatia — ou seja, uma condição em que o principal desafio está na comunicação entre os neurônios.
🌿 4️⃣ Eixo histaminérgico e mastocitário (via emergente)
Esse é um campo mais recente, mas que vem ganhando interesse na pesquisa sobre o autismo.
A proposta envolve a interação entre diferentes sistemas do organismo, incluindo:
histamina (uma amina biogênica envolvida em respostas inflamatórias e neurológicas)
mastócitos (células do sistema imune que liberam mediadores inflamatórios)
microbiota intestinal
sistema imune
cérebro
Esse conjunto de interações faz parte do chamado eixo intestino–imunidade–cérebro, que vem sendo cada vez mais estudado em condições neuropsiquiátricas.
Clinicamente, alguns pacientes podem apresentar:
intolerância a alimentos ricos em histamina
sintomas alérgicos recorrentes
alterações gastrointestinais
possível associação com irritabilidade, ansiedade e alterações de comportamento
A hipótese é que, em determinados indivíduos, exista um desequilíbrio na regulação dessas vias, com impacto tanto no sistema imune quanto no funcionamento cerebral. Esse eixo pode ser entendido como uma extensão do eixo neuroimune, destacando o papel específico de mediadores como a histamina e a participação dos mastócitos.
⚠️ Importante: esse ainda é um modelo em construção na ciência, com evidências em expansão, mas que não se aplica a todos os casos de autismo.
🌿 Sistema endocanabinoide: um regulador que conecta os eixos
Além dos eixos biológicos principais, existe um sistema que vem ganhando cada vez mais atenção na ciência do autismo: o sistema endocanabinoide.
Diferente dos outros, ele não representa um eixo isolado, mas atua como um **regulador transversal**, modulando diversos processos fundamentais no organismo.
Esse sistema está envolvido na regulação de:
resposta inflamatória
funcionamento do sistema imune
comunicação entre neurônios
equilíbrio entre excitação e inibição
resposta ao estresse
sono e comportamento
👉 Ou seja, ele funciona como um “ajuste fino” que influencia vários dos eixos já discutidos.
Alterações nesse sistema vêm sendo estudadas como um possível fator contribuinte em parte dos indivíduos com TEA.
Na prática, isso pode se associar a sintomas como:
ansiedade
irritabilidade
alterações do sono
maior reatividade sensorial
dificuldades na regulação emocional
⚠️ Assim como os demais eixos, ele não está alterado em todos os casos e provavelmente atua em conjunto com outros mecanismos.

🧬 Um ponto fundamental
Esses eixos não são exclusivos.
Uma mesma pessoa pode apresentar, por exemplo:
base genética sináptica
associada a disfunção mitocondrial
com ativação inflamatória secundária
👉 Ou seja: os mecanismos se sobrepõem.
⚖️ Isso muda o diagnóstico?
Não.
O diagnóstico de TEA continua sendo clínico.
Mas esses eixos ajudam a:
entender melhor cada paciente
investigar com mais precisão
reconhecer comorbidades
pensar em abordagens mais individualizadas
O que isso significa na prática?
Estamos caminhando para uma nova forma de enxergar o autismo:
➡️ menos rótulo
➡️ mais biologia
➡️ mais personalização
E isso é essencial, principalmente para adolescentes e adultos que muitas vezes não se encaixam nos modelos clássicos.
Em resumo
O autismo não é uma condição única.
Ele pode envolver diferentes eixos biológicos, como:
mitocondrial
inflamatório
sináptico
histaminérgico
E entender isso é um passo importante para uma medicina mais precisa e mais humana.
Um ponto fundamental
Esses eixos não são exclusivos.
Uma mesma pessoa pode apresentar, por exemplo, uma base genética relacionada ao funcionamento das sinapses, associada a alterações no metabolismo energético e a sinais de ativação imune.
👉 Ou seja, os mecanismos se sobrepõem.
Isso muda o diagnóstico?
Não.
O diagnóstico de TEA continua sendo clínico.
Mas essa forma de compreender o autismo amplia o nosso olhar. Ela permite entender melhor cada paciente, investigar com mais precisão, reconhecer comorbidades e pensar em abordagens mais individualizadas.
O que isso significa na prática?
Estamos caminhando para uma nova forma de enxergar o autismo:
➡️ menos rótulo
➡️ mais biologia
➡️ mais personalização
Essa mudança é especialmente importante para adolescentes e adultos que, muitas vezes, não se encaixam nos modelos clássicos de apresentação do TEA.
Em resumo
O autismo não é uma condição única. Ele pode envolver diferentes eixos biológicos — como alterações mitocondriais, neuroimunes, sinápticas e vias emergentes relacionadas à histamina. Compreender essa complexidade é um passo importante para uma medicina mais precisa, mais individualizada — e, acima de tudo, mais humana.
Talvez o futuro não seja entender o autismo como um diagnóstico único, mas reconhecer os diferentes caminhos biológicos que levam até ele — e que vamos explorar, um a um, nos próximos textos do blog.

Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.




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