Desequilíbrio do sistema endocanabinoide no autismo
- Berenice Cunha Wilke
- 8 de dez. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: há 5 dias
Por Dra. Berenice C. Wilke
O sistema endocanabinoide (SEC) é um sistema de regulação presente em todo o organismo. Ele participa do equilíbrio de múltiplos processos biológicos, incluindo inflamação, comunicação entre neurônios, resposta ao estresse, sono, dor, metabolismo e funcionamento do sistema imune.
Nosso próprio corpo produz substâncias semelhantes aos canabinoides encontrados na planta Cannabis sativa. Essas substâncias são chamadas de endocanabinoides. Os mais estudados são a anandamida (AEA) e o 2-araquidonoilglicerol (2-AG), que atuam através de receptores distribuídos pelo cérebro, sistema imune, intestino e diversos outros tecidos.
Hoje, o sistema endocanabinoide vem sendo considerado um dos principais sistemas regulatórios do organismo — uma espécie de “modulador central” responsável por ajudar o corpo a retornar ao equilíbrio diante de situações de estresse biológico.
O sistema endocanabinoide e o cérebro autista
Nos últimos anos, estudos em modelos animais e humanos começaram a mostrar que parte dos indivíduos com TEA pode apresentar alterações na atividade do sistema endocanabinoide.
Os pesquisadores investigam se essa desregulação poderia contribuir para alguns mecanismos biológicos frequentemente observados no autismo, como:
neuroinflamação;
desequilíbrio entre excitação e inibição neuronal;
alterações da comunicação sináptica;
disfunção mitocondrial;
alterações da resposta ao estresse;
distúrbios do sono;
alterações gastrointestinais e da comunicação intestino-cérebro.
O SEC participa justamente da modulação desses sistemas.
Os endocanabinoides não ficam armazenados no organismo. Eles são produzidos “sob demanda”, conforme a necessidade do corpo.
Por exemplo: quando existe excesso de atividade neuronal excitatória, o organismo produz endocanabinoides para tentar reduzir essa hiperativação e restaurar o equilíbrio sináptico.
Quando esse sistema regulatório funciona de forma insuficiente, pode haver maior dificuldade em controlar estados de hiperexcitabilidade neuronal, inflamação e estresse fisiológico.
O que os estudos encontraram?
Em 2019, um estudo realizado em Israel por Adi Aran, analisou os endocanabinóides em 93 crianças com TEA.
O estudo encontrou níveis séricos mais baixos de alguns endocanabinoides, incluindo:
anandamida (AEA);
N-palmitoiletanolamina (PEA);
N-oleoiletanolamina (OEA).
Os autores sugeriram que alterações na sinalização da anandamida poderiam estar relacionadas a mecanismos de neuro e imunomodulação envolvidos no TEA.
Esses achados fortaleceram a hipótese de que uma disfunção do sistema endocanabinoide possa estar presente em pelo menos um subgrupo de indivíduos autistas.

Figura 1 - comparação das taxas de endocanabinoides encontradas por Adi Aran nesse estudo.
AEA - anandamida; OEA - n-oleoetanolamina; PEA - n-palmiletanolamina
Fitocanabinoides e TEA
Em 2021, outro estudo conduzido por Adi Aran avaliou 150 crianças e adolescentes com TEA divididos em três grupos:
extrato full spectrum com proporção 20:1 de CBD:THC;
extrato de CBD isolado;
placebo.

Figura 2 - Participantes (%) cujos problemas comportamentais melhoraram muito na escala CGI-I após 12 semanas de tratamento.
Os pesquisadores observaram melhora significativa em parte das crianças avaliadas, especialmente em áreas relacionadas a:
comportamento;
irritabilidade;
agitação;
interação social;
estresse familiar.
As melhorias foram avaliadas por escalas como:
HSQ-ASD;
SRS-2;
APSI;
CGI-I.
Apesar dos resultados promissores, os estudos ainda apresentam limitações metodológicas importantes, e os efeitos não são iguais para todos os indivíduos.
O ponto mais importante
O autismo é uma condição complexa e heterogênea.
Não existe um único mecanismo biológico envolvido no TEA — e provavelmente também não existirá um único tratamento capaz de atuar em todos os casos.
O sistema endocanabinoide parece ser uma peça importante dentro dessa rede integrada que envolve:
eixo neuroimune;
função mitocondrial;
comunicação sináptica;
microbiota intestinal;
resposta ao estresse;
regulação sensorial.
Por isso, muitos pesquisadores passaram a considerar o SEC como um possível sistema regulatório central no autismo.
Cannabis não é “cura” para o autismo
É fundamental ressaltar que a Cannabis medicinal não funciona para todos os indivíduos com TEA e não representa uma cura para o autismo.
Quando utilizada, ela deve ser vista como uma possível ferramenta terapêutica adjuvante dentro de um cuidado multidisciplinar mais amplo, associado a:
intervenções comportamentais;
suporte educacional;
manejo do sono;
abordagem nutricional;
suporte gastrointestinal;
regulação inflamatória;
tratamento das comorbidades associadas.
Além disso, a decisão sobre seu uso deve sempre ser individualizada e acompanhada por profissionais capacitados.
O que as pesquisas mostram hoje?
As pesquisas atuais sugerem que o sistema endocanabinoide pode representar um dos caminhos mais promissores na compreensão dos mecanismos regulatórios envolvidos no TEA.
Mas ainda existem muitas perguntas sem resposta.
Os estudos continuam tentando compreender:
quais subgrupos de indivíduos apresentam maior alteração desse sistema;
como essas alterações interagem com inflamação, metabolismo e função sináptica;
quais pacientes podem realmente se beneficiar da modulação do SEC;
e quais seriam as abordagens mais seguras e eficazes no longo prazo.
O conhecimento sobre o sistema endocanabinoide no autismo ainda está em construção — mas vem crescendo rapidamente nos últimos anos.

Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.
Para saber mais:
Karhson, D. S. et al.
Mol. Autism 9, 18 (2018).
Aran, A. et al.
Mol. Autism 10, 2 (2019).
Aran, A. et al.
Mol. Autism 12, 6 (2021).
Michael Siani-Rose 1, Stephany Cox 1, Bonni Goldstein 1, Donald Abrams 1, Myiesha Taylor 1, Itzhak Kurek 1
Cannabis Cannabinoid Res. 2021 Dec 6. doi: 10.1089/can.2021.0129




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