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Bumetanida no Autismo: o que sabemos até agora

  • Foto do escritor: Berenice Cunha Wilke
    Berenice Cunha Wilke
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  • 5 min de leitura

A bumetanida é um medicamento conhecido há décadas na medicina, utilizado principalmente como diurético no tratamento de retenção de líquidos em doenças cardíacas e renais. Nos últimos anos, porém, esse fármaco passou a despertar interesse em uma área completamente diferente da medicina: o Transtorno do Espectro Autista (TEA).


Pesquisadores observaram que a bumetanida pode interferir no transporte de íons cloreto dentro dos neurônios, um mecanismo diretamente relacionado ao equilíbrio entre dois importantes neurotransmissores cerebrais: GABA e glutamato.


Esse equilíbrio é essencial para o funcionamento adequado das redes neurais e pode estar alterado em algumas pessoas com autismo. A partir dessa hipótese, diversos estudos passaram a investigar se a bumetanida poderia modular essa atividade neuronal e contribuir para melhorar sintomas como interação social, comunicação e comportamentos repetitivos.


Embora os resultados iniciais sejam promissores, o tema ainda está em investigação e permanece objeto de debate científico.


Fig 1. Hipótese de como a bumetanida pode restaurar o equilíbrio entre GABA e glutamato.
Fig 1. Hipótese de como a bumetanida pode restaurar o equilíbrio entre GABA e glutamato.

Mecanismo de ação proposto

Durante a vida fetal, o neurotransmissor GABA atua de forma excitatória, devido à alta concentração intracelular de cloreto. Após o nascimento, ocorre uma mudança fisiológica que torna o GABA predominantemente inibitório. Esse equilíbrio depende de dois co-transportadores de cloreto:

  • NKCC1, que leva cloreto para dentro da célula;

  • KCC2, que retira o cloreto da célula.


A bumetanida é um antagonista seletivo do NKCC1, reduzindo a entrada de cloreto nos neurônios. Isso pode restaurar a função inibitória do GABA, reequilibrando a comunicação entre GABA e glutamato.


Estudos de neuroimagem mostraram que 3 meses de tratamento com bumetanida estão associados à redução da razão GABA/glutamato em regiões como o córtex insular (ligado à empatia e autoconsciência) e o córtex visual (integração e processamento sensorial), correlação que se associou a melhora clínica dos sintomas.


Principais estudos clínicos


Estudo piloto em Gotemburgo (Suécia)

Um pequeno ensaio aberto incluiu 6 crianças de 3 a 14 anos com TEA, tratadas com bumetanida por 3 meses.

  • A avaliação foi feita por meio da Pesquisa de Satisfação dos Pais (PASS), um questionário de 30 itens em 6 domínios:

    • comportamento motor,

    • motivação, emoções,

    • resposta social,

    • habilidades comunicativas

    • hábitos de vida

  • Resultados:

    Todas as crianças apresentaram progresso, especialmente em:

    • comunicação,

    • interesse social,

    • maior contato visual,

    • participação em atividades,

    • interação com a família.

  • Efeitos colaterais: ocorreram em 4 crianças logo na primeira semana (poliúria, alterações leves de potássio), mas desapareceram com ajuste de dose.


    Todas receberam suplementação de potássio oral preventiva.


Estudo randomizado com 83 crianças (fase II)

Outro ensaio duplo-cego avaliou 83 crianças de 3 a 6 anos com TEA moderado a grave.

  • Grupo tratado: 42 crianças receberam 0,5 mg de bumetanida duas vezes ao dia por 3 meses.

  • Grupo controle: 41 crianças receberam placebo.


  • Resultados: 

Houve melhora significativa em escalas clínicas como CARS (Childhood Autism Rating Scale), além de redução de:

  • comportamentos repetitivos

  • rigidez comportamental

  • hiperfoco em objetos

  • estereotipias motoras


    A melhora clínica também foi confirmada por avaliação cega realizada por médicos.


Estudo multicêntrico fase IIb (2017)

Os resultados mostraram padrão semelhante aos estudos anteriores, com melhora em:

  • interação social

  • comunicação

  • comportamento adaptativo


O efeito foi mais evidente nas doses mais baixas (0,5–1 mg).


Limitação: o efeito foi restrito ao período de uso; após a suspensão, os sintomas retornaram.


Estudos mais recentes (2025–2026)

Estudos mais recentes continuam investigando a eficácia da bumetanida no TEA.

Uma meta-análise publicada em 2025, reunindo diversos ensaios clínicos randomizados, encontrou melhora moderada em escalas de sintomas como CARS, embora os resultados ainda apresentem grande heterogeneidade entre os estudos.


Também em 2025, um estudo sueco randomizado com desenho “wait-list control” avaliou 15 crianças entre 4 e 12 anos. Alguns participantes apresentaram melhora em interação social e comunicação durante o tratamento.


Entretanto, resultados recentes de estudos maiores indicam que a resposta à bumetanida é heterogênea, sugerindo que apenas subgrupos específicos de pacientes possam se beneficiar do tratamento.


Ensaios clínicos de fase III realizados em larga escala não demonstraram benefício consistente em todos os pacientes, o que reforça a necessidade de identificar biomarcadores ou perfis clínicos que prevejam melhor resposta ao tratamento.




Efeitos colaterais

A bumetanida é geralmente bem tolerada nas doses mais estudadas (0,5–1 mg duas vezes ao dia). Os efeitos adversos mais relatados foram:

  • Hipocalemia (redução do potássio no sangue), principalmente em doses maiores;

  • Poliúria (aumento da urina);

  • Perda de apetite, desidratação, astenia (fraqueza).


A suplementação oral de potássio é recomendada durante o uso. A frequência e gravidade dos eventos adversos são dose-dependentes.


Limitações e perspectivas

Algumas limitações importantes ainda precisam ser consideradas:

  • a maioria dos estudos tem curta duração (cerca de 3 meses)

  • muitas amostras são pequenas

  • a resposta clínica varia entre os pacientes

  • os benefícios parecem desaparecer após a suspensão da medicação


Até o momento, a bumetanida não está aprovada para o tratamento do TEA por agências regulatórias.


Novos estudos procuram identificar subgrupos de pacientes que possam responder melhor ao tratamento, utilizando biomarcadores, neuroimagem e análises genéticas.está em andamento na Europa para confirmar eficácia e segurança.


Conclusão

A bumetanida representa uma linha de pesquisa interessante no tratamento do autismo, especialmente no que se refere a possíveis melhorias em habilidades sociais, comunicação e redução de comportamentos repetitivos.


Entretanto, até o momento seu uso permanece experimental. São necessários estudos maiores, de maior duração e com melhor identificação de subgrupos de pacientes que possam realmente se beneficiar da intervenção.


Por enquanto, a bumetanida deve ser considerada apenas em contextos de pesquisa ou sob supervisão médica altamente especializada, com monitoramento cuidadoso de eletrólitos e função renal.


🧾 Resumo rápido

  • A bumetanida pode modular o equilíbrio GABA-glutamato

  • Estudos mostram melhora em alguns pacientes com TEA

  • Os efeitos parecem ocorrer apenas durante o uso

  • A terapia ainda é considerada experimental





Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.



Para saber mais:

  • Lemonnier E, Degrez C, Phelep M, Tyzio R, Josse F, Grandgeorge M, et al. Bumetanide for autism: a randomized, double-blind, placebo-controlled trial. Transl Psychiatry. 2012;2:e202.https://www.nature.com/articles/tp201261

  • Lemonnier E, Villeneuve N, Sonie S, Serret S, Rosier A, Roue M, et al. Effects of bumetanide on neurobehavioral function in children and adolescents with autism spectrum disorders. Transl Psychiatry. 2017;7(3):e1056.https://www.nature.com/articles/tp201710

  • Zhang L, Huang CCY, Dai Y, Luo Q, Ji Y, Wang K, et al. Symptom improvement in children with autism spectrum disorder following bumetanide administration: a randomized, double-blind, placebo-controlled trial. Transl Psychiatry. 2020;10:69.https://www.nature.com/articles/s41398-020-0692-2

  • Qiu S, Lu Y, Li Y, Shi J, Cui H, Gu Y, et al. Bumetanide treatment in children with autism: a randomized controlled trial evaluating clinical response and changes in GABA/glutamate ratio. Neuroimage Clin. 2021;29:102532.https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33965463/

  • Hadjikhani N, Zürcher NR, Rogier O, Ruest T, Hippolyte L, Ben-Ari Y, et al. A holistic view of how bumetanide attenuates autism spectrum disorders. Cells. 2022;11(15):2419.https://www.mdpi.com/2073-4409/11/15/2419

  • Fernell E, Landberg S, Miniscalco C, Gillberg C. Bumetanide treatment in children with autism: a randomized wait-list controlled study. Acta Paediatr. 2025.https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40568982/

  • Hendi NI, Almosilhy NA, Mohammed OH, et al. The efficacy and safety of bumetanide in children with autism spectrum disorder: updated systematic review and meta-analysis. Eur Child Adolesc Psychiatry. 2025.https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41165800/

  • Li X, Zhang Y, et al. Treating autism with bumetanide: identification of responders and implications for personalized therapy. Transl Psychiatry. 2026.https://www.nature.com/articles/s41398-026-03848-3


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