top of page

Ser mulher e vivenciar TEA e TDAH na vida adulta

  • Foto do escritor: Berenice Cunha Wilke
    Berenice Cunha Wilke
  • 1 de abr. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 15 de fev.

Historicamente, acreditava-se que o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA) eram condições quase exclusivas da infância — e predominantemente masculinas.


Essa visão não surgiu por acaso.


Durante décadas, as pesquisas foram conduzidas majoritariamente com meninos.

Como consequência, os critérios diagnósticos foram construídos a partir de apresentações masculinas dessas condições.


O resultado foi silencioso — e profundo:

👉 Mulheres ficaram fora das estatísticas.👉 Fora dos estudos.👉 Fora dos diagnósticos.

E, muitas vezes, fora da compreensão sobre si mesmas.


Hoje sabemos que meninas e mulheres no espectro — ou com TDAH — frequentemente apresentam manifestações diferentes:

  • Maior capacidade de camuflagem social

  • Esforço intenso para “se encaixar”

  • Imitação comportamental

  • Internalização do sofrimento

  • Diagnósticos prévios de ansiedade ou depressão


Essa discrepância contribuiu para uma geração de mulheres que só recebeu diagnóstico na vida adulta — ou que ainda permanece sem ele.


Vozes femininas que ficaram invisíveis

Estudos recentes têm buscado ouvir diretamente essas mulheres, permitindo que relatem suas próprias vivências.


Diagnósticos equivocados ao longo da vida

“Fui frequentemente diagnosticada com ansiedade, depressão e mau humor por mais de 20 anos — quando, na realidade, tudo estava relacionado ao Autismo e ao TDAH.”(Meredith)
“Durante anos, acreditei que era bipolar. Hoje percebo que vivenciava uma combinação de TDAH, esgotamento autista e hipomania induzida por antidepressivos.”(Juliette)

Camuflagem social desde a infância

“Aprendi a ser sociável porque isso era importante, especialmente para uma menina. Eu me encaixava — mas às custas de muito esforço.”(Abril)
“Era quieta, estudiosa, um ‘prazer em sala’. Ninguém via minha procrastinação crônica ou minha disfunção executiva.”(Chloe)

A chamada camuflagem social feminina é um dos principais fatores de subdiagnóstico.


Meninas aprendem cedo que precisam:

  • Ser educadas

  • Ser sociáveis

  • Não incomodar

  • Não demonstrar estranheza


O custo adaptativo é alto — e invisível.


Sofrimento interno não percebido

“As pessoas me percebiam bem, mesmo quando eu estava em colapso. Sofria sobrecarga sensorial e estresse extremo — ninguém notava.”(Juliette)
“Sempre tive ansiedade, mas nunca entendi o que era.”(Amelia)

Esse padrão é frequente no consultório: Mulheres que funcionam externamente —mas colapsam internamente.


Sensorialidade e expectativas de gênero

“Meu desconforto sensorial aumentava com sutiãs e saltos. Eu usava para me encaixar — mas era fisicamente insuportável.”(Juliette)

Questões aparentemente “estéticas” muitas vezes são, na verdade, sensoriais:

  • Tecidos

  • Sapatos

  • Maquiagem

  • Contato físico


Mas raramente são reconhecidas como tal.


Vulnerabilidade social e violência

Alguns relatos trazem aspectos ainda mais delicados:

“Fui abusada sexualmente em várias ocasiões. Hoje percebo que minha dificuldade em ler situações me tornou vulnerável.”(Chloe)

Mulheres neurodivergentes apresentam maior risco de:

  • Relacionamentos abusivos

  • Violência sexual

  • Exploração emocional


Não por fragilidade —mas por diferenças na leitura de pistas sociais.


Uso de estratégias compensatórias

“Na adolescência comecei a beber. Isso me ajudava a ser sociável — mas me colocava em risco.”(Amelia)

Álcool, drogas ou hiperadaptação social podem surgir como tentativas de pertencimento.


Impacto hormonal ao longo da vida

Outro ponto recorrente é a influência hormonal:

“Meu ciclo hormonal exacerbava minha desregulação emocional.”(Juliette)
“A perimenopausa trouxe névoa cerebral e piora da ansiedade.”(Margaret)

A literatura recente descreve piora de sintomas em:

  • TPM

  • Pós-parto

  • Perimenopausa

  • Menopausa


Muitas mulheres só percebem a neurodivergência nesses períodos de descompensação.


O peso de uma vida sem diagnóstico


Talvez os relatos mais marcantes sejam os do “antes e depois”:

“Antes do diagnóstico, eu me sentia um fracasso.”(Amelia)
“Passei por um luto pela vida que poderia ter tido.”(Meredith)
“Pergunto quem eu seria se tivesse sido diagnosticada antes.”(Juliette)

O diagnóstico não muda o passado —mas reorganiza a narrativa de vida.


O que essas histórias nos mostram

TDAH e TEA em mulheres foram historicamente ignorados por dois fatores principais:

  • Critérios diagnósticos baseados em meninos

  • Apresentações femininas mais camufladas


O resultado foi uma geração de mulheres:

  • Não diagnosticadas

  • Mal compreendidas

  • Rotuladas de ansiosas, instáveis ou “difíceis”


O diagnóstico como lente de reconstrução

Os depoimentos mostram algo profundo:

  • O diagnóstico não é apenas um rótulo clínico.

  • Ele funciona como uma lente reorganizadora da própria história.


Permite:

  • Ressignificar fracassos

  • Reduzir culpa

  • Compreender limites

  • Reconstruir identidade


Em muitos casos, a vida passa a ser percebida em dois tempos:


Antes do diagnóstico e Depois do diagnóstico








Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.



Para saber mais:


C Kelly, S Sharma, AT Jieman, S Ramon

Disability & Society, 39(3), 663–695



Craddock E.Qual Health Res. 2024 Dec;34(14):1442-1455.

 
 
 
bottom of page