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Síndrome de Radio Tartaglia

  • Foto do escritor: Berenice Cunha Wilke
    Berenice Cunha Wilke
  • 7 de jan. de 2022
  • 3 min de leitura

Atualizado: 24 de fev.

1. Introdução

A Síndrome de Radio-Tartaglia é um distúrbio raro do neurodesenvolvimento causado por variantes patogênicas em heterozigose no gene SPEN, localizado na região 1p36 do cromossomo 1.


Foi descrita recentemente a partir de coortes internacionais de pacientes identificados por exoma clínico, o que reforça o papel da genômica na elucidação de quadros antes classificados apenas como “atraso global do desenvolvimento” ou “TEA sem etiologia definida”.


O diagnóstico molecular não apenas nomeia a condição, mas organiza o seguimento clínico, o aconselhamento genético e o prognóstico.


2. Base Genética e Mecanismo Molecular

Gene envolvido

  • SPEN (Split Ends)

  • Localização: 1p36

  • Herança: autossômica dominante (geralmente variante de novo)


Função biológica

O SPEN atua como regulador transcricional e participa de:

  • Regulação epigenética

  • Via de sinalização do Notch - um sistema de comunicação entre células fundamental para a formação do sistema nervoso.

  • Diferenciação neuronal

  • Silenciamento do cromossomo X


A maioria das variantes descritas é truncante, sugerindo mecanismo de haploinsuficiência.


3. Fenótipo Clínico

3.1 Neurodesenvolvimento

  • Atraso global do desenvolvimento

  • Deficiência intelectual variável

  • Atraso ou fala pobre

  • TEA, TDAH, ansiedade e comportamento agressivo (≈81%)


3.2 Tônus e Motricidade

  • Hipotonia generalizada (≈73%)

  • Hipotonia motora oral (≈43%)

  • Alterações de marcha (≈52%)

  • Convulsões (raras)

  • Sinais piramidais (raros)


3.3 Crescimento e Metabolismo

  • Puberdade precoce (≈22%)

  • Tendência a IMC aumentado em mulheres


3.4 Fenótipo Facial

Características mais frequentes:

  • Testa larga

  • Estreitamento bitemporal

  • Sobrancelhas arqueadas

  • Sinófris

  • Telecanto

  • Dobras epicânticas

  • Orelhas displásicas

  • Nariz largo com ponta bulbosa


Menos frequentes:

  • Filtro nasal longo

  • Lábio superior fino

  • Palato alto arqueado

  • Microcefalia (rara)

  • Anormalidades dentárias

  • Queixo pontudo


3.5 Características Extra-Neurológicas

  • Cardiopatias congênitas (≈28%)

  • Escoliose

  • Braquidactilia

  • Alterações nos pododáctilos

  • Pele seca

  • Hemangiomas


Neuroimagem: alterações inespecíficas.


4. Diagnóstico


Exoma clínico

O diagnóstico é realizado por sequenciamento do exoma, especialmente em pacientes com:

  • Atraso global do desenvolvimento

  • TEA associado a dismorfismos

  • Hipotonia inexplicada

  • Fenótipo sindrômico leve


O exoma permite:

  • Identificação etiológica

  • Aconselhamento genético

  • Definição de risco de recorrência

  • Evitar investigação excessiva


5. Pesquisas em Andamento

5.1 Estudos Funcionais

  • Modelos celulares derivados de iPSC

  • Modelos murinos com perda de função

  • Investigação do papel do SPEN na neurogênese


5.2 Correlação Genótipo-Fenótipo

  • Gravidade associada a variantes truncantes

  • Associação específica com TEA

  • Perfil metabólico em mulheres


5.3 Expansão de Coortes

  • Colaboração internacional

  • Registro via GeneMatcher

  • Ampliação de dados fenotípicos


6. Propostas de Tratamento

⚠ Não existe terapia específica direcionada ao gene SPEN.


A conduta é baseada no fenótipo.


6.1 Neurodesenvolvimento

  • Intervenção precoce multidisciplinar

  • Fonoaudiologia (ênfase em hipotonia oral)

  • Terapias comportamentais

  • Tratamento farmacológico individualizado


6.2 Motricidade

  • Fisioterapia motora

  • Terapia ocupacional

  • Monitoramento ortopédico


6.3 Monitoramento Clínico

Recomenda-se:

  • Ecocardiograma inicial

  • Avaliação endócrina se sinais de puberdade precoce

  • Monitoramento de IMC

  • Avaliação odontológica

  • Seguimento neurológico


7. Perspectivas Futuras

Compreensão das vias reguladas pelo SPEN pode abrir caminhos para:

  • Modulação epigenética

  • Terapias baseadas em RNA

  • Abordagens de medicina de precisão


Atualmente, essas estratégias permanecem experimentais.


ILLSN - DN 28/12/2002                                           Foto gentilmente cedida pela mãe
ILLSN - DN 28/12/2002 Foto gentilmente cedida pela mãe





Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.



Para acompanhar pesquisas em andamento:




Associações e Redes de Apoio

Embora não exista associação exclusiva da síndrome, famílias podem se conectar por meio de:

🔗 GeneMatcher https://genematcher.org/


Para saber mais:


  1. Estudo de caracterização inicial (2021)https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33692058/

  2. OMIM – SPEN-related disorderhttps://omim.org/

  3. ClinVar – variantes em SPENhttps://www.ncbi.nlm.nih.gov/clinvar/

  4. Pesquisa PubMed – SPEN neurodevelopmenthttps://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=SPEN+neurodevelopmentões inespecíficas.

  5. SPEN haploinsufficiency causes a neurodevelopmental disorder overlapping proximal 1p36 deletion syndrome with an episignature of X chromosomes in females. 

    Francesca ClementinaRadio et all.

    Am J Hum Genet . 2021 Mar 4;108(3):502-516.

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