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Síndrome de mega corpo caloso com hipoplasia cerebelar e malformações corticais

  • Foto do escritor: Berenice Cunha Wilke
    Berenice Cunha Wilke
  • 9 de abr.
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 6 dias

Por Dra. Berenice Cunha Wilke


Nem todas as alterações do cérebro são iguais.


Enquanto muitas síndromes genéticas são bem conhecidas, outras ainda estão sendo descobertas — e algumas são tão raras que existem poucos casos descritos no mundo.


A síndrome de mega corpo caloso com hipoplasia cerebelar e malformações corticais (OMIM 618273) é um exemplo claro disso.


🧠 O que é essa síndrome?

Trata-se de uma condição genética do neurodesenvolvimento caracterizada por três alterações principais:

  • Mega corpo caloso → o corpo caloso é mais espesso que o habitual

  • Hipoplasia cerebelar → cerebelo menor ou menos desenvolvido

  • Malformações corticais → alterações na organização do córtex cerebral


Essas alterações indicam um problema que ocorre ainda durante a formação do cérebro na gestação.


🧬 Qual é a causa?


A síndrome está associada a alterações no gene:

  • KAT6B


Esse gene tem um papel importante na regulação da expressão de outros genes, especialmente durante o desenvolvimento embrionário.


Na maioria dos casos, a alteração genética ocorre de forma espontânea (de novo).


👶 Quais são os sinais clínicos?

LFVC, 14 anos - Síndrome do corpo caloso - Foto gentilmente cedida pela família
LFVC, 14 anos - Síndrome do corpo caloso - Foto gentilmente cedida pela família

Os sintomas podem variar bastante, mas geralmente incluem:


Desenvolvimento

  • atraso no desenvolvimento motor e cognitivo

  • dificuldade de linguagem


Neurológico

  • hipotonia (principalmente nos primeiros anos)

  • possível epilepsia


Motor

  • dificuldade de coordenação

  • atraso para andar


Comportamento

  • em alguns casos, características do espectro autista


📊 O que significa ser “extremamente rara”?

Uma doença é considerada ultra-rara quando afeta menos de 1 em 1 milhão de pessoas.


Para essa síndrome:

  • existem pouquíssimos casos descritos no mundo

  • muitos médicos nunca encontrarão um caso na prática


👉 Isso não significa que não existam outros pacientes👉 significa que muitos ainda não foram diagnosticados


🧪 Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico geralmente envolve:

  • Ressonância magnética de crânio → mostra o padrão característico

  • Exoma genético → identifica a alteração no gene KAT6B


Esse é um exemplo clássico de como a genética e a neuroimagem se complementam.


🔬 Existe tratamento?

Aqui é importante ser claro:


👉 Não existe, até o momento, tratamento que corrija a causa genética da doença.


🔭 O que a ciência está estudando?


🧪 Medicamentos reutilizáveis

Estudos em outras doenças semelhantes investigam:

  • equilíbrio entre excitação e inibição cerebral

  • inflamação do sistema nervoso

  • metabolismo neuronal


👉 Ainda sem estudos específicos para essa síndrome


🧬 Terapia gênica

  • possibilidade futura

  • mas complexa, pois o gene KAT6B regula muitos outros genes


👉 Ainda em fase experimental


✂️ CRISPR (edição genética)

  • potencial teórico

  • principal limitação: as alterações ocorrem antes do nascimento

👉 corrigir depois não reverte as malformações já formadas


🧫 Células-tronco

  • estudadas em outras condições neurológicas

  • podem ajudar no ambiente cerebral


👉 mas não corrigem alterações estruturais do cérebro


🧭 Então o que realmente ajuda hoje?

O manejo é baseado em:

  • fisioterapia

  • fonoaudiologia

  • terapia ocupacional

  • acompanhamento neurológico

  • tratamento de sintomas (como epilepsia)


👉 A intervenção precoce faz diferença real no desenvolvimento


⚖️ Um ponto essencial para entender

Essa síndrome nos ensina algo muito importante:

Doenças do desenvolvimento cerebral são diferentes de doenças degenerativas.
  • nas degenerativas → há perda de função ao longo do tempo

  • aqui → o cérebro já se forma de maneira diferente

👉 Isso muda completamente as possibilidades de tratamento.



Resumo para as famílias
Resumo para as famílias

Diferente de doenças mais comuns:

“O avanço no conhecimento dessa síndrome não depende de um único centro, mas da colaboração global entre pesquisadores e do compartilhamento de casos.”

🧬 Centros que estudam síndromes relacionadas ao gene KAT6B (incluindo OMIM 618273)


🇺🇸 Estados Unidos

🧠 National Institutes of Health (NIH)

🔗 Programa de doenças raras: https://rarediseases.info.nih.gov

👉 Destaque:

  • Undiagnosed Diseases Program

  • Casos complexos com malformações cerebrais e variantes raras


🧬 Baylor College of Medicine

🔗 https://www.bcm.edu🔗 Human Genome Sequencing Center: https://www.hgsc.bcm.edu

👉 Destaque:

  • Um dos principais centros de descoberta de novas síndromes genéticas

  • Participação em descrições iniciais de genes raros como KAT6B


🧬 University of Washington

🔗 https://www.uw.edu🔗 GeneReviews (fundamental para prática clínica): https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK1116/

👉 Destaque:

  • Curadoria de informações clínicas e genéticas

  • Integra ClinVar e bancos internacionais


🇬🇧 Reino Unido

🧠 Great Ormond Street Hospital

👉 Destaque:

  • Referência europeia em doenças raras pediátricas

  • Integra redes ERN (European Reference Networks)


🔬 Deciphering Developmental Disorders Study

👉 Destaque:

  • Um dos principais projetos que identificaram síndromes raras do neurodesenvolvimento

  • Base de muitos casos publicados com variantes raras


🌐 Redes globais (essenciais para essa síndrome)

🔗 Matchmaker Exchange

👉 Função:

  • conecta pacientes com variantes raras no mundo inteiro

  • essencial para doenças com poucos casos


🔗 Simons Searchlight

👉 Destaque:

  • acompanhamento longitudinal de síndromes genéticas raras

  • embora mais focado em outros genes, é relevante como modelo de rede


🇫🇷 França

🧬 INSERM

👉 Destaque:

  • pesquisa forte em epigenética

  • relevante para genes reguladores como KAT6B


🇧🇷 Brasil (prática clínica e diagnóstico)

🧬 Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)


🧬 Universidade de São Paulo (USP)

👉 Papel:

  • diagnóstico (exoma/genoma)

  • seguimento clínico

  • discussão de casos raros




Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.


📚Para saber mais:

  1. Campeau PM, Lu JT, Dawson BC, et al. The KAT6B-related disorders: genotype–phenotype correlation and expanding clinical spectrum.

    🔗 https://doi.org/10.1016/j.ajhg.2012.06.007


  2. Millan F, Cho MT, Retterer K, et al. Whole exome sequencing reveals de novo variants in KAT6B in neurodevelopmental disorders.

    🔗 https://doi.org/10.1002/ajmg.a.38437


  3. Deciphering Developmental Disorders Study. Large-scale discovery of novel genetic causes of developmental disorders.

    🔗 https://doi.org/10.1038/nature21062


  4. Wright CF, FitzPatrick DR, Firth HV. Paediatric genomics: diagnosing rare disease in children. Nat Rev Genet.

    🔗 https://doi.org/10.1038/s41576-018-0015-8


  5. Posey JE. Genome sequencing and implications for rare disorders.

    🔗 https://doi.org/10.1016/j.gim.2019.01.009














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