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Mutação no gene MT-TN: uma causa rara de doença mitocondrial progressiva

  • Foto do escritor: Berenice Cunha Wilke
    Berenice Cunha Wilke
  • há 2 dias
  • 7 min de leitura

🧠 Quando o cansaço não é apenas cansaço

Alguns pacientes começam com sinais discretos:

LAC,  17 anos com mutação no gene MT-TN. Foto gentilmente cedida pela família.
LAC, 17 anos com mutação no gene MT-TN. Foto gentilmente cedida pela família.

  • fadiga aos esforços

  • dificuldade para acompanhar atividades físicas

  • recuperação lenta após infecções


Com o tempo, surgem:

  • fraqueza muscular progressiva

  • alterações neurológicas

  • perda de funções motoras


👉 Em alguns casos, a causa está em uma alteração no DNA mitocondrial.



Os sintomas podem surgir em diferentes fases da vida, desde a infância até a idade adulta, refletindo a capacidade variável do organismo de compensar a alteração mitocondrial ao longo do tempo.


🧬 O que é a mutação no gene MT-TN?


O gene MT-TN faz parte do DNA mitocondrial e codifica um RNA transportador (tRNA) essencial para a produção de proteínas dentro da mitocôndria.


👉 A variante m.5703G>A é considerada patogênica.

Isso significa que ela compromete diretamente a capacidade da célula de produzir energia.


🧬 Uma doença extremamente rara: o que isso significa?

A mutação no gene MT-TN está entre as causas extremamente raras de doença mitocondrial.


Mas o que significa, na prática, dizer que uma doença é “raríssima”?


👉 Em medicina, consideramos uma doença rara quando ela afeta menos de 1 em cada 2.000 pessoas.


👉 Já as extremamente raras podem afetar menos de 1 em cada 100.000 pessoas — e, em alguns casos, existem apenas poucos pacientes descritos na literatura médica.


Existem apenas algumas dezenas de casos descritos na literatura médica mundial para mutações como essa, o que a coloca entre as doenças genéticas extremamente raras.


⚙️ O que acontece no organismo

Quando essa mutação está presente:

  • a produção de ATP diminui

  • ocorre acúmulo de lactato

  • células com alta demanda energética entram em sofrimento


👉 Os tecidos mais afetados são:

  • cérebro

  • músculos

  • sistema nervoso autonômico


📊 Um detalhe fundamental: a heteroplasmia

Nas doenças mitocondriais, nem todas as mitocôndrias estão alteradas.

Isso é chamado de heteroplasmia.


👉 Em exames de sangue, valores como 20% podem parecer baixos.

Mas é importante entender:


⚠️ O sangue frequentemente não reflete o que ocorre nos tecidos

👉 Músculo e sistema nervoso costumam ter cargas maiores


Isso explica por que o quadro clínico pode ser grave mesmo com níveis aparentemente moderados.


🧠 Como essa doença se manifesta?

A mutação no MT-TN está associada a um quadro de:


✔️ Encefalomiopatia mitocondrial progressiva

Os principais sinais incluem:

  • fadiga intensa

  • intolerância ao exercício

  • fraqueza muscular

  • espasticidade e clônus

  • regressão funcional

  • disautonomia

  • acidose láctica


👉 Em fases mais avançadas, pode ocorrer comprometimento respiratório.


⚠️ Por que há piora após infecções?

Situações como febre ou infecções aumentam a necessidade de energia.

👉 Como a mitocôndria não consegue responder:

  • ocorre descompensação metabólica

  • o lactato se eleva

  • há piora neurológica


Esse padrão é altamente sugestivo de doença mitocondrial.


🧪 Diagnóstico: o papel do exame genético

O diagnóstico é confirmado pela identificação da mutação no DNA mitocondrial.

👉 Isso é fundamental porque:

  • encerra a investigação diagnóstica

  • evita exames desnecessários

  • orienta a conduta clínica


💊 Existe tratamento?

Ainda não existe cura, mas o manejo adequado pode melhorar a evolução.



✔️ Medidas essenciais:

  • evitar jejum prolongado

  • tratar infecções precocemente

  • garantir suporte nutricional adequado


✔️ Suplementos com maior racional:

  • Coenzima Q10 / Idebenona

  • Riboflavina

  • Tiamina

  • L-carnitina

  • Creatina


👉 Alguns protocolos incluem também (com evidência ainda em desenvolvimento):

  • PQQ

  • Urolitina A


👉Proteção estrutural mitocondrial adicional (com evidência ainda em desenvolvimento)

  • Ergotioneina


🧬 Herança: o que a família precisa saber

O DNA mitocondrial é herdado da mãe.


Mas mutações podem surgir de forma espontânea.


👉 Por isso:

  • a avaliação materna pode ser considerada

  • mesmo na ausência de sintomas


📌 Mensagem final

A mutação no gene MT-TN é uma causa rara, mas importante, de doença mitocondrial.

Reconhecer esse diagnóstico permite:

  • entender a evolução do quadro

  • orientar melhor o tratamento

  • evitar intervenções desnecessárias

  • oferecer mais clareza para a família


👉 E, principalmente, muda completamente a forma de conduzir o paciente.


🧬 Quais terapias estão sendo estudadas nas doenças mitocondriais?

Embora ainda não exista tratamento curativo para mutações como no gene MT-TN, diversos centros de pesquisa no mundo estão estudando novas abordagens.


💊 1. Medicamentos reutilizados (repurposing)

Alguns medicamentos já vêm sendo estudados em ensaios clínicos:


  • Idebenona

    👉 semelhante à CoQ10, melhora transporte de elétrons

👉 já utilizada em Leber Hereditary Optic Neuropathy




Esses tratamentos não corrigem a mutação, mas podem melhorar a função celular.



🧬 2. Terapias genéticas (incluindo CRISPR)

Aqui está o maior campo de inovação — mas ainda em fase experimental.


✔️ CRISPR e edição mitocondrial

Editar DNA mitocondrial é muito mais difícil do que o nuclear.

👉 Hoje existem tecnologias emergentes como:


Centro de pesquisa:👉 Broad Institute


⚠️ Limitação atual:

  • ainda não aplicáveis na prática clínica

  • estudos principalmente em laboratório


✔️ Estratégias em estudo:

  • redução seletiva de mitocôndrias mutadas

  • aumento de mitocôndrias saudáveis

  • transferência mitocondrial


👉 Estudos ainda experimentais.


🧫 3. Células-tronco

Outra linha promissora, mas ainda inicial.


✔️ O que está sendo estudado:

  • células-tronco mesenquimais

  • efeito anti-inflamatório e metabólico

  • possível melhora da função celular


Centro envolvido: 👉 Stanford University


⚠️ Limitação:

  • não corrigem diretamente a mutação

  • resultados ainda inconsistentes


🔬 4. Terapias metabólicas avançadas

Essas são as mais próximas da prática clínica atual.


✔️ Incluem:

  • suporte à cadeia respiratória

  • aumento da biogênese mitocondrial

  • redução do estresse oxidativo


👉 Aqui entram também:

  • CoQ10

  • riboflavina

  • tiamina

  • carnitina


⚠️ Importante

Nenhuma dessas abordagens hoje:

❌ corrige definitivamente a mutação

❌ cura a doença


👉 Mas algumas podem:

✔️ melhorar sintomas

✔️ reduzir descompensações

✔️ estabilizar a evolução


“A ciência já compreende bem o funcionamento dessas doenças, mas ainda está desenvolvendo formas de corrigi-las. Hoje, o tratamento é focado em melhorar o funcionamento das células e evitar pioras.”
Principais Centros de Pesquisa Mitocondrial
Principais Centros de Pesquisa Mitocondrial

🧬 Prognóstico da mutação no gene MT-TN

👉 O prognóstico é variável, mas pode ser progressivo e potencialmente grave, dependendo principalmente da carga mutacional nos tecidos.


Por que o prognóstico varia tanto?

Nas mutações mitocondriais, três fatores mudam completamente a evolução:


1. 📊 Heteroplasmia (carga da mutação)

  • Quanto maior a porcentagem de mitocôndrias alteradas → mais grave

  • Sangue pode subestimar (músculo e cérebro costumam ter mais)


2. 🧬 Distribuição nos tecidos

  • Se cérebro e músculo estão mais afetados → pior prognóstico

  • Se mais restrito → evolução mais lenta


3. ⏳ Idade de início

  • Início precoce → geralmente mais grave

  • Início tardio (adolescência ou adulto) → tende a evolução mais lenta


⚠️ Evolução esperada

A mutação no MT-TN costuma cursar com:

  • progressão neurológica ao longo dos anos

  • aumento da fraqueza muscular

  • possível perda de funções motoras

  • risco de comprometimento respiratório


👉 A velocidade é muito variável.


🚨 Fatores de pior prognóstico

  • regressão neurológica rápida

  • necessidade precoce de suporte respiratório

  • crises metabólicas frequentes

  • acidose láctica persistente


🧬 O que pode melhorar a evolução

Não muda a genética — mas muda o curso clínico:

✔️ diagnóstico precoce

✔️ evitar descompensações

✔️ suporte nutricional adequado

✔️ manejo metabólico (suplementos)

✔️ acompanhamento multidisciplinar

👉 Isso pode reduzir pioras e estabilizar o quadro em alguns casos


“A doença pode evoluir ao longo do tempo, mas a velocidade e a gravidade variam muito de pessoa para pessoa. O acompanhamento adequado pode fazer diferença na qualidade de vida e na estabilidade do quadro.”




Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.



Para saber mais:

1. Banco MITOMAP
  • lista a variante m.5703G>A

  • classifica como associada a doença

  • reúne casos reportados globalmente


2. Banco ClinVar
  • classificação clínica (patogênica)

  • submissões de laboratórios e centros

🔗 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/clinvar/ 1. Duan H, Pan C, Wu T, Peng J, Yang L.

MT-TN mutations lead to progressive mitochondrial encephalopathy and promotes mitophagy.

Biochim Biophys Acta Mol Basis Dis. 2024;1870(4):167043.

  1. Visuttijai K, Hedberg-Oldfors C, Lindgren U, Nordström S, Elíasdóttir Ó, Lindberg C, Oldfors A.

    Progressive external ophthalmoplegia associated with novel MT-TN mutations.

    Acta Neurol Scand. 2021;143(1):103–108.

    🔗 https://doi.org/10.1111/ane.13339

  2. Finsterer J.

    Is the MT-TN variant m.5703G>A truly causative for myoclonic epilepsy with ragged red fibers syndrome plus?

    Chin Med J (Engl). 2019;132(14):1752.

    🔗 https://doi.org/10.1097/CM9.0000000000000337

  3. Blakely EL, Yarham JW, Alston CL, Craig K, Poulton J, Brierley C, Park SM, et al.

    Pathogenic mitochondrial tRNA point mutations: nine novel mutations affirm their importance as a cause of mitochondrial disease.

    Hum Mutat. 2013;34(9):1260–1268.

    🔗 https://doi.org/10.1002/humu.22358

  4. Hu C, Li X, Zhao L, Shi Y, Zhou S, Wu B, Wang Y.

    Clinical and molecular characterization of pediatric mitochondrial disorders in south of China.

    Eur J Med Genet. 2020;63(8):103898.

    🔗 https://doi.org/10.1016/j.ejmg.2020.103898


Tratamento de doenças mitocondriais

Embora ainda não exista tratamento curativo, estudos recentes mostram avanços importantes em terapias metabólicas, medicamentos direcionados à função mitocondrial e, mais recentemente, estratégias de edição genética.


🔬 Revisões recentes e visão geral
  1. Russell OM, Gorman GS, Lightowlers RN, Turnbull DM.

    Mitochondrial diseases: hope for the future.

    Cell. 2020;181(1):168–188.

    🔗 https://doi.org/10.1016/j.cell.2020.02.051

  2. Viscomi C, Zeviani M.

    Strategies for fighting mitochondrial diseases.

    J Intern Med. 2020;287(6):665–684.


    🔗 https://doi.org/10.1111/joim.13072

  3. Ng YS, Bindoff LA, Gorman GS, Horvath R, Klopstock T, Mancuso M, et al.

    Mitochondrial disease in adults: recent advances and future promise.

    Lancet Neurol. 2021;20(7):573–584.

    🔗 https://doi.org/10.1016/S1474-4422(21)00096-4


💊 Terapias emergentes e ensaios clínicos
  1. Karaa A, Haas R, Goldstein A, Vockley J, Weaver WD, Cohen BH.

    Randomized dose-escalation trial of elamipretide in adults with primary mitochondrial myopathy.

    Neurology. 2020;94(12):e1212–e1221.

    🔗 https://doi.org/10.1212/WNL.0000000000009163

  2. Gorman GS, et al.

    Elamipretide for mitochondrial myopathy: clinical perspectives.

    Neurol Genet. 2021;7(3):e590.

    🔗 https://doi.org/10.1212/NXG.0000000000000590


🧬 Terapias genéticas e edição mitocondrial
  1. Mok BY, de Moraes MH, Zeng J, Bosch DE, Kotrys AV, Raguram A, et al.

    A bacterial cytidine deaminase toxin enables CRISPR-free mitochondrial base editing.

    Nature. 2020;583(7817):631–637.

    🔗 https://doi.org/10.1038/s41586-020-2477-4

  2. Gammage PA, Rorbach J, Vincent AI, Rebar EJ, Minczuk M.

    Mitochondrial genome engineering: the revolution may not be CRISPR.

    Trends Genet. 2020;36(2):101–110.

    🔗 https://doi.org/10.1016/j.tig.2019.11.001


⚙️ Abordagens metabólicas e terapêuticas
  1. Pfeffer G, et al.

    New treatments for mitochondrial disease—no time to drop our standards.

    Nat Rev Neurol. 2021;17(11):657–658.

    🔗 https://doi.org/10.1038/s41582-021-00547-2

  2. Hirano M, Emmanuele V, Quinzii CM.

    Emerging therapies for mitochondrial diseases.

    Essays Biochem. 2021;65(1):1–15.

    🔗 https://doi.org/10.1042/EBC20200027


🧪 Atualizações clínicas e diagnóstico com impacto terapêutico
  1. Olimpio C, Paramonov I, Matalonga L, Laurie S, Schon K, Polavarapu K, et al.

    Increased diagnostic yield by reanalysis of whole exome sequencing data in mitochondrial disease.

    J Neuromuscul Dis. 2024;11(4):767–775.

    🔗 https://doi.org/10.3233/JND-240020

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