Por que a intolerância à histamina está aumentando?
- Berenice Cunha Wilke
- 14 de jan.
- 5 min de leitura
A intolerância à histamina não é uma condição nova, mas a sensação — tanto entre pacientes quanto entre profissionais de saúde — é que ela está se tornando cada vez mais comum. A verdade é que isso não é apenas impressão. Há motivos reais, documentados e coerentes para explicar por que mais pessoas estão desenvolvendo sintomas relacionados à histamina hoje do que há 10, 20 ou 30 anos.
Importante lembrar: a genética não mudou. Os polimorfismos que estão associados ao aumento da intolerância a histamina como AOC1, HNMT, MTHFR, MAOB e ALDH2 têm prevalência estável na população.
O que mudou foi o ambiente em volta do nosso organismo — e a forma como nossos genes se expressam.
A intolerância à histamina aumentou porque o corpo humano continua o mesmo, mas nosso estilo de vida, nossa alimentação e nossa microbiota mudaram radicalmente.
Vamos entender por quê.
⭐ 1. A permeabilidade intestinal aumentou
A barreira intestinal é um dos principais reguladores de histamina no organismo.
Hoje, mais pessoas apresentam “leaky gut” (hiperpermeabilidade intestinal) por causa de:
dietas ricas em ultraprocessados
aditivos alimentares (emulsificantes, corantes, conservantes)
pesticidas
excesso de glúten moderno
álcool frequente
uso recorrente de anti-inflamatórios
estresse crônico
noites mal dormidas
Quando a barreira intestinal perde integridade, mais histamina atravessa para a corrente sanguínea, aumentando sintomas mesmo com pequenas quantidades.
⭐ 2. A disbiose intestinal é mais frequente
Nossa microbiota mudou profundamente em apenas duas gerações.
Hoje temos:
✔ menos Bifidobacterium (as “protetoras anti-histamínicas”) ✔ mais Proteobacteria (as maiores produtoras de histamina) ✔ menor diversidade microbiana ✔ maior inflamação intestinal de baixo grau
Causas:
dietas pobres em fibras
refeições rápidas e industrializadas
uso elevado de antibióticos na infância e na vida adulta
cesáreas e aleitamento reduzido
falta de exposição ambiental
estresse crônico
Essa disbiose resulta em um intestino mais inflamado e mais produtor de histamina.
E há um ponto-chave que poucos lembram: o aumento da β-glucuronidase.
A β-glucuronidase é uma enzima produzida por bactérias como E. coli, Bacteroides e Clostridium. Quando elevada, ela desconjuga estrogênios e toxinas que o fígado já havia preparado para excreção — permitindo que voltem para a circulação.
O resultado é:
✔ mais estrogênio circulante (que aumenta a liberação de histamina) ✔ mais inflamação sistêmica ✔ mais sobrecarga dos sistemas de detoxificação do organismo ✔ mais sintomas cíclicos nas mulheres
Ou seja: a própria disbiose moderna cria um ciclo que favorece o excesso de histamina.
📦 Destaque — β-GLUCURONIDASE: A ENZIMA QUE “REENVIA” O ESTROGÊNIO DE VOLTA PARA O CORPO
A β-glucuronidase é produzida por bactérias como E. coli, Bacteroides e Clostridium, todas muito comuns na disbiose associada ao estilo de vida moderno.
🔍 O que essa enzima faz?
O fígado conjuga estrogênios e toxinas para eliminá-los nas fezes.Mas quando a β-glucuronidase está elevada, ela:
➡️ desconjuga esses compostos➡️ reativa moléculas que deveriam ser excretadas➡️ permite que retornem para a circulação
O intestino passa a funcionar como uma “porta giratória”: o que deveria sair, volta.
🧬 Por que isso piora a intolerância à histamina?
Porque o estrogênio aumenta a liberação de histamina e reduz a atividade da DAO.
Com β-glucuronidase alta ocorre:
✔ mais estrogênio circulante ✔ mais histamina liberada ✔ mais inflamação ✔ mais permeabilidade intestinal ✔ mais sintomas cíclicos nas mulheres ✔ menor tolerância a alimentos ricos em histamina
🔬 Por que ela está aumentando hoje?
disbiose
antibióticos
ultraprocessados
álcool
estresse crônico
queda de Bifidobacterium
aumento de Proteobacteria
É, portanto, um biomarcador da microbiota moderna e um dos elos entre intestino, hormônios e histamina.
⭐ 3. A carga alimentar de histamina aumentou
A alimentação moderna é muito mais rica em histamina do que a alimentação de décadas atrás.
Hoje consumimos mais:
queijos curados
vinhos
chocolate
embutidos e defumados
alimentos fermentados (como kefir, kombucha e chucrute, agora em tendência)
tomates industrializados
frutas armazenadas por longos períodos (banana, abacate, kiwi)
Além disso, alimentos prontos e pré-preparados ficam muito tempo estocados, favorecendo a formação de aminas biogênicas.
➡️ Estamos ingerindo muito mais histamina do que no passado.
⭐ 4. Estrogênio alto é mais comum nas mulheres
A vida moderna favorece um estado de estrogênio dominante, devido a:
estresse
excesso de gordura visceral
sedentarismo
xenoestrógenos ambientais (plásticos, cosméticos, pesticidas)
alterações do microbioma estrogênico (estroboloma)
O estrogênio aumenta a liberação de histamina. A progesterona, por outro lado, aumenta a atividade da DAO.
E quando há disbiose associada, com aumento da β-glucuronidase, o estrogênio que deveria ser eliminado pelo fígado é reativado e recircula.
Isso cria um ciclo:
estrogênio ↑ → histamina ↑ → permeabilidade ↑ → inflamação ↑ → disbiose ↑ → β-glucuronidase ↑ → estrogênio ↑
Por isso, mulheres em fase fértil e perimenopausa relatam piora significativa — e isso está se tornando mais comum.
⭐ 5. O ambiente moderno desmascara SNPs que sempre existiram
Os polimorfismos genéticos sempre estiveram presentes.A frequência não aumentou.
Mas fatores modernos como:
disbiose
β-glucuronidase elevada
permeabilidade
álcool
estrogênio alto
dietas ricas em fermentados
tabagismo
poluição
estresse
➡️ fazem com que variantes como AOC1, HNMT e MTHFR se expressem com muito mais força.
Antes, essas variantes eram “silenciosas”.Hoje, aparecem clinicamente.
⭐ 6. Estamos testando mais — e entendendo melhor
Há 20 anos, quase ninguém fazia:
teste de atividade de DAO
análise de microbiota por sequenciamento metagenômico shotgun, evidenciando as bactérias produtoras de histamina
avaliação da HNMT
dosagem de 1-metil-histamina
painéis nutrigenômicos
análise da β-glucuronidase
Hoje, médicos e pacientes chegam com:
relatórios completos de microbiota
variantes genéticas
diários alimentares
rastreamento via aplicativos
sintomas mais reconhecidos
Isso aumenta a detecção, não a prevalência real.
A condição sempre existiu — agora conseguimos enxergar.
⭐ 7. Há mais interesse e conscientização — especialmente entre mulheres
Nos consultórios, é perceptível:
aumento da procura
pacientes com sintomas mais variados
maior consciência sobre microbiota
maior percepção de gatilhos alimentares
E, naturalmente, quando o assunto circula mais, mais pessoas reconhecem seus próprios sintomas.
⭐ Conclusão
A intolerância à histamina está aumentando? Sim — na prática clínica e na percepção dos pacientes.
Mas não porque a genética mudou, e sim porque:
✔ a microbiota mudou ✔ o ambiente mudou ✔ a alimentação mudou ✔ o estresse aumentou ✔ a permeabilidade aumentou ✔ a β-glucuronidase aumentou ✔ testamos e compreendemos mais ✔ expressamos variantes que antes estavam silenciosas
O organismo humano continua o mesmo. O mundo ao redor dele não.
E a histamina é uma das primeiras moléculas a sinalizar esse desequilíbrio.

Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.






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