Como Diagnosticar a Intolerância à Histamina: O Guia Completo dos Exames
- Berenice Cunha Wilke
- há 1 dia
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1. Por que o diagnóstico é desafiador?
A intolerância à histamina é uma condição funcional, dinâmica, influenciada por dieta, microbiota, genética e estado inflamatório. Por isso:
Os sintomas variam muito entre os pacientes (pele, intestino, sistema nervoso, ciclo menstrual, enxaqueca).
Não existe um exame “padrão-ouro”.
Os exames são complementares: cada um revela uma parte do quebra-cabeça.
O diagnóstico final é sempre clínico, sustentado por achados laboratoriais.
2. Atividade/Níveis de DAO sérica
A diamina oxidase (DAO) é a enzima responsável por degradar a histamina no intestino, diretamente no local onde ocorre a absorção dos alimentos.
É o exame mais solicitado, mas deve ser interpretado com cautela.
Quando pedir?
A DAO sérica é especialmente útil em pacientes com sintomas pós-prandiais, como:
cefaleia após vinho
desconforto abdominal após banana, chocolate ou alimentos fermentados
piora após molho de tomate
flush ou prurido logo após comer
Isso ocorre porque esses alimentos:
Carregam histamina ou outras aminas biogênicas (competem pela DAO).
Dependem mais da atividade da DAO intestinal para serem metabolizados.
Podem liberar histamina endógena (caso do tomate fresco e chocolate).
👉 O exame é indicado não porque a DAO interage “mais” com esses alimentos, mas porque eles exigem mais da via de degradação intestinal.
⚠️ Limitação crítica da DAO sérica
Embora amplamente utilizada, a DAO dosada no plasma não representa de forma confiável a capacidade real do intestino de degradar a histamina ingerida.
A maior parte da degradação da histamina ocorre na mucosa intestinal, especialmente nos enterócitos do intestino delgado — e essa atividade não é refletida pelos níveis séricos da enzima.
Por isso:
Um valor normal de DAO no sangue não garante boa degradação intestinal.O exame mede quantidade plasmática, e não a atividade funcional da DAO no intestino.A mucosa pode estar inflamada, com disbiose ou com variantes genéticas que reduzem a eficiência da enzima mesmo quando os níveis séricos estão normais.
A DAO plasmática pode estar normal por razões que nada têm a ver com digestão de histamina — como turnover celular, inflamação sistêmica ou processos reparativos — o que não melhora a tolerância alimentar.
👉 Conclusão: a DAO sérica é um marcador complementar, útil dentro de um conjunto de informações, mas não deve ser usada isoladamente para fechar o diagnóstico.
3. 1-Metil-histamina na urina
A 1-metil-histamina (1-MH) é o principal metabólito urinário da histamina. Ela indica quanto o organismo metabolizou, não a capacidade de degradar histamina no intestino.
Por isso é complementar — e não diagnóstica.
Quando bactérias produtoras de histamina aumentam no intestino, elas elevam a histamina local, dentro da mucosa intestinal. Essa histamina:
ativa mastócitos locais
aumenta a permeabilidade
causa sintomas
entra em pequena quantidade na corrente sanguínea
Mas não necessariamente é eliminada como histamina livre pela urina.
Por quê?
1. A histamina é rapidamente metabolizada. O corpo a quebra muito antes de ser eliminada.
2. A principal forma de medir a produção interna é pela N-metil-histamina, que é um metabólito, e não pela histamina livre.
3. A urina de 24h nem sempre reflete histamina produzida no intestino. Reflete mais a liberação sistêmica e a degradação.
A 1-metil-histamina (1-MH) é o principal metabólito urinário da histamina. Ela indica quanto o organismo metabolizou, não a capacidade de degradar histamina no intestino.
Por isso é complementar — e não diagnóstica.
Valores ALTOS — o que significam?
Um valor elevado mostra aumento da produção ou absorção de histamina, podendo ocorrer por:
ingestão alimentar rica em histamina/aminas
microbiota produtora de histamina
alergias ativas
dermatite ou inflamação
mastocitose ou MCAS
inflamação intestinal
➡ Não confirma intolerância à histamina, apenas indica maior carga metabólica.
Valores NORMAIS — por que não excluem?
Um valor normal pode ocorrer mesmo na intolerância porque:
dieta restrita reduz a produção do metabólito
baixa atividade intestinal da DAO impede a conversão da histamina para 1-MH
anti-histamínicos ou suplementos podem diminuir o marcador
o problema da intolerância ocorre no intestino, antes do metabolismo hepático e renal
➡ Não exclui o diagnóstico.
Efeito da carga alimentar durante a coleta
Comer alimentos ricos ou liberadores de histamina nas 24 horas da coleta aumenta a 1-MH, mas:
pessoas saudáveis também aumentam
pacientes intolerantes podem não aumentar (falso negativo)
disbiose produtora de histamina pode exagerar o valor (falso positivo)
➡ A carga alimentar não deve ser usada como teste provocativo.
Urina de 24 horas ou coleta de um jato?
Urina de 24h é preferível → mais estável, menos variação, capta picos.
Urina spot pode ser usada para acompanhamento mas não para excluir diagnóstico.
Como interpretar esse exame?
A 1-MH urinária deve ser usada como marcador de:
produção de histamina
carga metabólica
resposta a intervenções
Não como marcador de intolerância.
4. Exames genéticos — quando considerar?
Úteis em quadros crônicos, refratários ou quando há forte suspeita clínica.
Genes relevantes:
AOC1 (DAO): redução da degradação extracelular
HNMT: redução da metilação intracelular
MAOB: acúmulo de aminas biogênicas
MTHFR: histamina intracelular ↑ por baixa metilação
ALDH2: piora pós-álcool
⭐ Tabela — Principais Variantes Genéticas Relacionadas à Intolerância à Histamina
Gene | SNP (rsID) | Genótipo Menos Funcional | Efeito / Consequência | Impacto Clínico |
AOC1 (DAO) | rs10156191 (Thr16Met) | TT | Diminui atividade da DAO | Sintomas pós-prandiais, enxaqueca, intolerância a vinho, tomate, chocolate |
rs1049742 (Ser332Phe) | TT | Reduz estabilidade da enzima | Baixa degradação de histamina ingerida | |
rs1049793 (His645Asp) | GG | Atividade enzimática reduzida | Intolerância moderada a grave | |
rs2052129 (regulatório) | TT | Reduz expressão do gene | Maior predisposição a sintomas | |
HNMT | rs11558538 (Thr105Ile) | CC (Ile/Ile) | Reduz atividade da HNMT | Acúmulo intracelular de histamina → rinite, urticária, insônia |
rs1801105 | AA | Menor expressão da HNMT | Sintomas neurológicos e respiratórios | |
MAOB | rs1799836 (A644G) | GG | Menor atividade da MAOB | Acúmulo de aminas biogênicas (tiramina, PEA) |
rs5905512 | TT | Reduz metabolização de aminas | Piora sintomas neurocomportamentais | |
MTHFR | rs1801133 (C677T) | TT | Redução ≥70% da atividade da MTHFR | Baixa metilação → histamina intracelular ↑ |
rs1801131 (A1298C) | CC | Redução moderada da enzima | Sintomas neurológicos, fadiga, sensibilidade | |
ALDH2 | rs671 (Glu504Lys) | AA | Atividade ≈10% → acetaldeído ↑ | Intolerância severa ao álcool → histamina ↑ |
🧠 Observações importantes para acompanhar a tabela
DAO (AOC1) → variantes afetam digestão da histamina dos alimentos (via extracelular)
HNMT → variantes afetam histamina dentro das células (via intracelular)
MAOB → altera metabolização de aminas biogênicas, competindo com histamina
MTHFR → reduz metilação global → diminui capacidade da HNMT
ALDH2 → álcool aumenta liberação de histamina + acetaldeído irrita mastócitos
5.1 Bactérias produtoras de histamina
O shotgun permite identificar diretamente espécies como:
Morganella morganii
Proteus mirabilis
Klebsiella pneumoniae
Enterobacter cloacae
Cepas específicas de Lactobacillus (nem todas produzem histamina)
Além disso, é possível verificar a presença dos genes hdcA/hdcC, que catalisam a conversão da histidina em histamina.
➡ Quando esses genes estão presentes ou abundantes, há produção endógena aumentada de histamina no intestino, independente da dieta.
5.2 Redução de Bifidobacterium
A redução de bifidobactérias NÃO significa intolerância à histamina.Mas é um achado importante porque:
fortalece a mucosa
reduz inflamação
compete com Enterobacteriaceae
diminui LPS
melhora a estabilidade da barreira intestinal
➡ Bifidus baixo não causa intolerância, mas aumenta a suscetibilidade aos efeitos da histamina. É um marcador de que a microbiota precisa ser reequilibrada.
5.3 SCFAs e produção de butirato
Os exames de microbiota não medem SCFAs diretamente, mas permitem inferir sua produção com base na abundância de bactérias produtoras de butirato, como:
Faecalibacterium prausnitzii
Roseburia spp.
Eubacterium rectale
Quando esses grupos estão reduzidos, há provável diminuição da produção de butirato — um composto essencial para:
manter tight junctions
reduzir inflamação
modular mastócitos
proteger a barreira intestinal
➡ Menos butirato = mucosa mais sensível = maior chance de reatividade à histamina.
5.4 Sinais indiretos de permeabilidade intestinal
O exame da microbiota não mede permeabilidade diretamente (como zonulina), mas mostra padrões que sugerem perda de integridade da mucosa, como:
aumento de Proteobactérias / Enterobacteriaceae
redução de Akkermansia muciniphila
redução de produtores de butirato
aumento de vias de degradação de mucina (shotgun)
➡ Esses achados indicam uma barreira mais frágil e mais permeável, facilitando a absorção excessiva de histamina.
5.5 Padrões bacterianos associados à inflamação
Os exames de microbiota não medem marcadores inflamatórios como PCR ou calprotectina.O que eles mostram são padrões bacterianos associados à inflamação, como:
aumento de Proteobactérias
Enterobacteriaceae elevadas
vias de síntese de LPS (no shotgun)
redução de Faecalibacterium
presença de espécies pró-inflamatórias específicas (p. ex., Ruminococcus gnavus)
➡ Esses padrões ajudam a entender o ambiente intestinal onde a histamina está sendo produzida, absorvida ou metabolizada.
6. β-Glucuronidase: um marcador funcional que influencia a intolerância à histamina
A β-glucuronidase é uma enzima produzida por diversas bactérias intestinais, principalmente aquelas associadas à fermentação proteolítica e ao ambiente inflamatório do cólon.Embora não esteja diretamente envolvida na degradação da histamina, sua atividade elevada modula fortemente a expressão clínica da intolerância.
6.1 O que a β-glucuronidase indica?
Níveis elevados refletem:
disbiose intestinal (especialmente proteolítica)
aumento da desconjugação de toxinas, hormônios e aminas
maior recirculação entero-hepática de compostos irritantes
ambiente intestinal mais inflamatório e permeável
➡ É um marcador de terreno biológico desfavorável, não de intolerância direta.
6.2 Relação com a intolerância à histamina
A β-glucuronidase elevada:
aumenta inflamação intestinal
reduz a atividade funcional da DAO na mucosa
favorece permeabilidade intestinal
amplia a sensibilidade a aminas biogênicas
piora sintomas pós-prandiais
prolonga a exposição a compostos desconjugados
➡ Ela não causa intolerância, mas amplifica os efeitos da histamina no intestino.
6.3 Quando solicitar?
Útil quando há:
sintomas persistentes apesar da dieta low-histamine
disbiose importante no exame de microbiota
constipação, estase intestinal ou trânsito lento
inflamação ou permeabilidade aumentadas
quadro clínico sugerindo detoxificação lenta
6.4 Como interpretar
Alta: disbiose proteolítica + inflamação → pior tolerância à histamina
Moderada: indica tendência inflamatória
Normal: não exclui intolerância, mas sugere menos recirculação de compostos irritantes
6.5 Estratégias de modulação (opcional)
fibras solúveis (goma acácia, inulina, FOS, XOS)
probióticos reguladores (Bifidobacterium longum, Lactobacillus plantarum)
polifenóis (romã, frutas vermelhas, chá verde)
redução de proteína animal em excesso
dieta anti-inflamatória
7. Diagnóstico clínico
O diagnóstico da intolerância à histamina é essencialmente clínico e se fortalece quando há coerência entre sintomas, resposta terapêutica e exames complementares.
7.1 Sintomas consistentes
padrão claramente pós-prandial
sintomas cutâneos, gastrointestinais, neurológicos ou sistêmicos
flutuações relacionadas à dieta, estresse e ciclo hormonal
7.2 Resposta à dieta low-histamine
Uma melhora significativa em 2 a 4 semanas é um dos indicadores mais confiáveis.
Conclusão
Não existe um exame padrão-ouro para o diagnóstico da intolerância à histamina. Trata-se de um diagnóstico complexo, que depende da integração de múltiplos fatores clínicos, laboratoriais e da da experiência clínica do profissional que acompanha o paciente.

Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.


