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Autismo em idosos

  • Foto do escritor: Berenice Cunha Wilke
    Berenice Cunha Wilke
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Ao avaliar adultos mais velhos com suspeita de autismo, é fundamental considerar o contexto social em que essas pessoas se desenvolveram.


A análise baseada apenas nos critérios atuais de funcionamento social pode levar a interpretações equivocadas. Isso porque o ambiente social das décadas passadas era significativamente diferente do atual — e, em muitos aspectos, menos exigente do ponto de vista da comunicação e da interação social.


🕰️ Um contexto social menos exigente

Em décadas anteriores, a vida social e profissional era, em geral, mais previsível, estruturada e com menor complexidade relacional.


Nesse cenário, muitas pessoas com características autísticas conseguiam se adaptar ao ambiente sem grandes dificuldades aparentes — não necessariamente por apresentarem habilidades sociais típicas, mas porque as demandas sociais eram menores.


Diferentemente do que ocorre hoje, em que a comunicação é contínua, rápida e multifacetada, no passado eram mais comuns:

  • atividades individuais

  • funções repetitivas

  • rotinas estáveis

  • ambientes com menor exigência de leitura social refinada


Além disso, aspectos culturais da época favoreciam essa adaptação:

  • o silêncio era valorizado em sala de aula

  • havia pouca ênfase em trabalhos em grupo

  • muitas escolas separavam meninos e meninas

  • as interações sociais eram mais restritas ao ambiente familiar


As comemorações sociais, como festas de aniversário, frequentemente ocorriam em contextos familiares, com menor complexidade social.


🔍 O impacto disso ao longo da vida

Esse contexto ajuda a entender por que muitos idosos:

  • nunca foram avaliados para autismo

  • não apresentam uma história clara de dificuldades sociais na infância

  • só passam a manifestar dificuldades mais evidentes em fases mais tardias

  • recebem diagnóstico apenas na idade adulta ou na velhice


Ao longo da vida, especialmente na fase adulta, as demandas sociais tendem a aumentar.


Ambientes profissionais passam a exigir maior flexibilidade, comunicação interpessoal e capacidade de adaptação. Da mesma forma, relações afetivas e familiares tornam-se mais complexas.


Nesse contexto, algumas dificuldades podem se tornar mais evidentes.



🔄 Quando as dificuldades aparecem

Em muitos casos, os sinais tornam-se mais perceptíveis após mudanças importantes, como:

  • aposentadoria

  • perda de uma rotina estruturada

  • alterações no convívio familiar

  • aumento do isolamento social

  • aumento das demandas profissionais ao longo da vida

  • maior exigência na construção e manutenção de relações profissionais e afetivas


Além disso, a história de vida pode trazer elementos relevantes.


Alguns indivíduos apresentam dificuldade em manter vínculos afetivos ao longo do tempo, com relatos de relações instáveis ou múltiplas separações. Outros descrevem sensação persistente de inadequação social ou esforço contínuo para compreender e se adaptar às dinâmicas interpessoais.


Esses aspectos não são específicos do autismo, mas podem refletir dificuldades na comunicação social, na flexibilidade comportamental e na compreensão de nuances sociais.


⚖️ Nem sempre é camuflagem

Um ponto essencial na prática clínica é compreender que nem todo diagnóstico tardio está relacionado a um processo intenso de camuflagem social ao longo da vida.


Em muitos casos, o que ocorreu foi algo diferente:

👉 o ambiente exigia menos — e, por isso, as dificuldades permaneciam menos visíveis


Essa distinção é fundamental.


Sem ela, há o risco de interpretar que os sintomas “surgiram tardiamente”, quando, na verdade, eles estavam presentes desde sempre, apenas não eram evidentes dentro do contexto em que o indivíduo vivia.


🧠 Conclusão clínica

A avaliação do autismo em idosos exige uma abordagem ampliada.


Não se trata apenas de observar o funcionamento atual, mas de reconstruir a trajetória do indivíduo dentro do seu contexto histórico, social e cultural.


👉 Em muitos casos, não foi o indivíduo que mudou —foi o mundo ao redor que passou a exigir mais.







Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.

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