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Autismo no adulto - a ponta de um iceberg

  • Foto do escritor: Berenice Cunha Wilke
    Berenice Cunha Wilke
  • 29 de mar. de 2022
  • 4 min de leitura

Atualizado: 14 de fev.

Os casos de autismo diagnosticados na vida adulta têm aumentado de forma expressiva nos últimos anos. No consultório, não é raro atender pessoas que chegam com quadros de depressão, ansiedade ou síndrome do pânico, muitas vezes tratadas por anos com diferentes medicações, com pouco ou nenhum resultado.


Quando investigamos mais profundamente, percebemos que, por trás do sofrimento emocional, existe uma história de vida marcada por dificuldades sociais persistentes, sensação de inadequação e esforço constante para “funcionar” em um mundo que nunca pareceu intuitivo para elas.


Uma observação clínica que vem de décadas

Há mais de 30 anos acompanho famílias de crianças autistas. Ao longo desse tempo, sempre me chamou a atenção a presença de pais, tios ou avós com características compatíveis com o espectro — alguns com grande capacidade de adaptação, outros com sofrimento silencioso significativo.


Hoje, com maior conhecimento sobre o espectro, esses adultos começam finalmente a ser reconhecidos. Ainda assim, o número de diagnósticos permanece muito abaixo do esperado quando comparado às estimativas populacionais, como as do Centers for Disease Control and Prevention (CDC).


Diagnósticos que ficaram pelo caminho

Há duas ou três décadas, os casos mais graves eram os que recebiam diagnóstico. As formas leves — hoje compreendidas dentro do espectro — passavam despercebidas.


Muitos adultos cresceram carregando outros rótulos:

  • Depressão

  • Ansiedade

  • TDAH

  • Dificuldades de aprendizagem

  • Introversão extrema


Sem acesso a intervenções adequadas, desenvolveram estratégias próprias de sobrevivência — nem sempre suficientes para evitar sofrimento emocional ao longo da vida.


Os adultos diagnosticados atualmente representam, portanto, apenas a parte visível de um iceberg que começa a emergir.



Autismo no sexo feminino — um capítulo à parte

Na infância, o diagnóstico é mais frequente em meninos. Mas isso não significa menor ocorrência em meninas — e sim maior dificuldade de identificação.


Mulheres autistas, especialmente as de alto funcionamento (fala fluente e inteligência média ou acima da média), costumam apresentar:

  • Sintomas mais sutis

  • Maior capacidade compensatória

  • Estratégias sofisticadas de camuflagem social


👉Esse mascaramento pode atrasar o diagnóstico por décadas.


Durante a adolescência, observa-se alta associação com:

  • Transtornos de ansiedade

  • Depressão

  • Transtornos alimentares

  • Tiques

  • Sofrimento emocional significativo


Sensorialidade e vulnerabilidade

Alterações sensoriais podem impactar múltiplas áreas da vida, inclusive intimidade e relacionamentos.


A ingenuidade social, associada à dificuldade de leitura de intenções, pode aumentar a vulnerabilidade a situações de abuso, reforçando a necessidade de suporte terapêutico especializado.


Interesses intensos — nem sempre estereotipados

Diferentemente do estereótipo clássico, mulheres autistas podem desenvolver interesses profundos em áreas como:

  • Literatura

  • Artes

  • Línguas

  • Psicologia

  • Comportamento humano ou animal

  • Educação

  • Saúde

  • Moda ou cosméticos


👉Frequentemente tornam-se especialistas de alto nível nesses campos.


Ainda assim, podem enfrentar dificuldade em manter vínculos profissionais de longo prazo, sobretudo pelo desgaste social e sensorial do ambiente de trabalho.


Depressão e ansiedade no espectro

A depressão maior é significativamente mais frequente em pessoas autistas.

Meta-análises mostram que indivíduos no espectro têm risco várias vezes maior de desenvolver depressão ao longo da vida, especialmente na vida adulta e entre aqueles com maior nível cognitivo — possivelmente por maior percepção das próprias dificuldades sociais.


A depressão impacta:

  • Comunicação

  • Interação social

  • Funcionamento diário

  • Capacidade adaptativa


👉Criando um ciclo de agravamento emocional.


Relações, pertencimento e autoestima

Nos quadros mais leves, as dificuldades sociais podem interferir profundamente em:

  • Amizades

  • Relacionamentos amorosos

  • Vida familiar

  • Parentalidade


👉A sensação recorrente de “não se encaixar” corrói a autoestima ao longo dos anos.


Experiências de bullying e isolamento escolar frequentemente deixam marcas duradouras, que se estendem para a vida adulta.


Afeto e expressão emocional

Alguns autistas apresentam:

  • Hipersensibilidade ao toque

  • Desconforto com abraços

  • Dificuldade em expressar sentimentos


O que pode gerar mal-entendidos em casamentos e relações familiares, apesar da presença de afeto genuíno.


Receber o diagnóstico na vida adulta costuma ser descrito como um divisor de águas.


👉Ele não limita — ao contrário, esclarece.


Permite:

  • Reinterpretar a própria história

  • Reduzir a autocobrança

  • Direcionar terapias específicas

  • Desenvolver estratégias sociais adaptativas

  • Melhorar qualidade de vida


Para muitos, é a primeira vez que as próprias dificuldades fazem sentido.


Conclusão


Os adultos hoje diagnosticados com autismo não representam um aumento repentino da condição — mas sim o avanço do reconhecimento clínico.

Eles sempre estiveram presentes.


A diferença é que agora  começamos, finalmente, a enxergar a parte submersa do iceberg.





Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.


Para saber mais:

Chloe C. Hudson, Layla Hall & and Kate L. Harkness

Journal of Abnormal Child Psychology, volume 47, pages165–175 (2019)


Anxiety and depression in adults with autism spectrum disorder: a systematic review and meta-analysis.Hollocks MJ, Lerh JW, Magiati I, Meiser-Stedman R, Brugha TS.Psychol Med. 2019 Mar;49(4):559-572.


Rynkiewicz A, Janas-Kozik M, Słopień A.Psychiatr Pol. 2019 Aug 31;53(4):737-752.

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