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Autismo nas meninas e mulheres

  • Foto do escritor: Berenice Cunha Wilke
    Berenice Cunha Wilke
  • 29 de ago. de 2023
  • 6 min de leitura

Atualizado: 14 de fev.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que, segundo estudos epidemiológicos, é diagnosticado cerca de quatro vezes mais em meninos do que em meninas.


No entanto, essa diferença pode não refletir a realidade. Cada vez mais se discute a existência de uma subdetecção do autismo no gênero feminino, relacionada a uma apresentação clínica diferente da observada nos meninos.


Nos últimos anos, as taxas de diagnóstico em meninas vêm aumentando de forma consistente. À medida que mais mulheres recebem o diagnóstico apenas na vida adulta, surge um questionamento inevitável: quantas meninas passaram despercebidas na infância?


1. Diferenças na apresentação clínica

Em comparação com os meninos, meninas autistas frequentemente apresentam:

  • Maior motivação e interesse social

  • Melhor reciprocidade social aparente

  • Integração mais eficiente entre comunicação verbal e não verbal

  • Contato visual mais adequado

  • Brincadeiras simbólicas (faz-de-conta) mais preservadas

  • Comportamentos sociais menos restritos e repetitivos


Costumam ter amigos — ainda que em pequeno número —, mas, com o crescimento, muitas passam a ser progressivamente ignoradas, evoluindo para isolamento social mais tardio.


2. Motivação social e cognição social

As diferenças entre meninos e meninas autistas refletem, em parte, diferenças já existentes na população sem autismo.


A motivação social tende a ser mais comprometida em homens autistas. Em mulheres autistas, essa motivação pode se aproximar da observada em homens sem autismo.


Isso gera um fenômeno importante:

➡️ O comprometimento da cognição social pode ser significativo, mesmo quando o comportamento social visível parece mais preservado nas meninas.


3. Expectativas sociais e culturais de gênero

Fatores socioculturais também influenciam o reconhecimento do autismo.

  • Meninas interagem mais por meio de jogos simbólicos e linguagem

  • Meninos interagem mais por jogos físicos e coletivos


Assim, dificuldades psicomotoras e de interação grupal tornam-se mais evidentes nos meninos.


Além disso:

  • Meninos apresentam mais frequentemente o “fenótipo clássico” do autismo

  • Meninas são frequentemente interpretadas como tímidas, sensíveis ou introvertidas


Com o aumento das demandas sociais ao longo da vida, os déficits tornam-se mais evidentes.


4. Diferenças na cognição social

No gênero feminino observa-se, em média:

  • Menor inflexibilidade cognitiva

  • Menor frequência de comportamentos repetitivos não funcionais


Meninas e mulheres autistas podem apresentar melhor preservação de:

  • Memória autobiográfica

  • Empatia cognitiva

  • Teoria da mente(capacidade de compreender sentimentos, crenças e intenções próprias e dos outros)


5. Comorbidades associadas ao gênero


Mais frequentes em meninos:

  • Hiperatividade

  • Distúrbios de conduta

  • Atrasos de linguagem expressiva

Mais frequentes em meninas:

  • Ansiedade e depressão

  • Transtornos alimentares

  • Instabilidade emocional


Mulheres com alta atenção a detalhes podem receber diagnósticos equivocados, como:

  • Transtorno obsessivo-compulsivo

  • Transtornos alimentares

  • Transtornos de personalidade


Isso contribui para diagnóstico tardio ou incorreto.


📊 Autismo no gênero masculino × feminino

Tabela comparativa clínica e diagnóstica

Domínio

Masculino

Feminino

Prevalência diagnóstica

~4:1 em relação às meninas

Subdiagnosticado; proporção real possivelmente menor

Fenótipo clássico

Mais frequente

Menos frequente

Motivação social

Mais reduzida

Relativamente mais preservada

Reciprocidade social

Mais comprometida

Melhor aparência de reciprocidade

Contato visual

Mais evitativo

Mais adequado ou compensado

Comunicação não verbal

Mais prejudicada

Melhor integrada à verbal

Brincar simbólico

Mais limitado

Mais preservado

Interesses restritos

Mais evidentes e estereotipados

Podem existir, mas socialmente aceitos (ex.: animais, livros, celebridades)

Comportamentos repetitivos

Mais visíveis

Mais sutis ou internalizados

Inflexibilidade cognitiva

Mais acentuada

Menor em média

Camuflagem social

Menos frequente

Muito frequente

Capacidade de imitação social

Menor

Maior

Manutenção de amizades

Mais dificuldade desde cedo

Amizades iniciais, perda progressiva

Isolamento social

Precoce

Tardio

Diagnóstico

Mais precoce

Mais tardio ou perdido

Confiabilidade dos testes

Maior

Menor sensibilidade diagnóstica

Comorbidades externas

TDAH, conduta, agressividade

Ansiedade, depressão

Transtornos alimentares

Raros

Mais frequentes

TOC

Presente

Pode gerar confusão diagnóstica

Autolesão

Menos comum

Mais frequente na adolescência

TEPT / trauma

Menor risco relativo

Maior vulnerabilidade

Identidade de gênero

Variabilidade ↑ vs população geral

Variabilidade ainda maior

Diagnóstico psiquiátrico equivocado

Menos frequente

Mais frequente (borderline, bipolar, TAG)


6. Camuflagem e mascaramento social

A camuflagem é um dos fenômenos centrais do autismo feminino.


Mais frequente em meninas e mulheres, envolve:

  • Imitação de expressões faciais

  • Observação de comportamentos sociais

  • Uso de roteiros verbais aprendidos

  • Forçar contato visual

  • Reprimir estereotipias


Muitas aprendem observando colegas, filmes ou personagens.

“Fingir ser normal” é frequentemente descrito como:

  • Exaustivo

  • Psicologicamente desgastante

  • Socialmente eficaz


Pode trazer ganhos acadêmicos e sociais, mas à custa de:

  • Sofrimento emocional

  • Ansiedade

  • Perda de identidade

  • Medo constante de ser “descoberta”


Curiosamente, níveis mais altos de camuflagem associam-se a maior capacidade intelectual em alguns casos.


7. Limitações dos testes diagnósticos

Instrumentos padronizados foram majoritariamente validados em populações masculinas.


Meninas podem:

  • Sustentar camuflagem social durante avaliações

  • Mascarar sinais por 45–60 minutos

  • Apresentar resultados falsamente negativos


Isso reduz a sensibilidade diagnóstica no gênero feminino.


8. Idade, comorbidades e padrões de diagnóstico

A proporção entre meninos e meninas varia conforme a fase da vida.


Primeira infância

Quando há:

  • Atraso global do desenvolvimento

  • Deficiência intelectual

  • Epilepsia

A proporção entre sexos torna-se mais homogênea, facilitando o diagnóstico.


Idade escolar

Predominam comorbidades como:

  • TDAH

  • Impulsividade

  • Desatenção


Mais comuns em meninos → aumento do diagnóstico masculino.


Adolescência

Os diagnósticos em meninas aumentam, geralmente associados a:

  • Ansiedade e depressão

  • Instabilidade emocional

  • Comportamentos autolesivos

  • Transtornos alimentares


A rigidez cognitiva no autismo feminino pode manifestar-se através de comportamentos alimentares restritivos, como:

  • Anorexia atípica

  • Exercício físico excessivo

  • Metas rígidas de peso ou composição corporal


Diferentemente da anorexia nervosa clássica, esses quadros nem sempre estão associados à distorção da imagem corporal. A restrição pode estar ligada a necessidade de controle, rigidez de regras, interesses específicos ou dificuldades sensoriais — e não a uma busca estética de magreza clássica.


9. Identidade, gênero e vulnerabilidade

Adolescentes autistas apresentam maior risco de dificuldades em:

  • Construção da identidade

  • Percepção emocional

  • Sexualidade e vínculos afetivos


Observa-se maior variabilidade em:

  • Identidade de gênero

  • Disforia de gênero


Também há maior risco de:

  • Diagnóstico de transtorno de personalidade borderline

  • Situações traumáticas afetivas e sexuais

  • Transtorno de estresse pós-traumático


👉Muitas vezes, episódios traumáticos não são relatados por medo ou dificuldade de compreensão.


Conclusão

O autismo no gênero feminino apresenta características clínicas, cognitivas e sociais próprias.


Essas diferenças estão diretamente associadas a:

  • Subdetecção

  • Diagnóstico tardio

  • Diagnósticos psiquiátricos equivocados

  • Maior sofrimento emocional ao longo da vida


Reconhecer essas particularidades é essencial para melhorar o rastreio, o diagnóstico e o cuidado clínico de meninas e mulheres no espectro autista.





Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.



Para saber mais:


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