Síndrome de Brugada: quando a genética indica risco de arritmia
- Berenice Cunha Wilke
- há 3 dias
- 5 min de leitura
O que é a Síndrome de Brugada?
A Síndrome de Brugada é uma condição genética que afeta o sistema elétrico do coração, aumentando o risco de arritmias ventriculares potencialmente graves. Ela não altera a estrutura do coração, mas sim a forma como o impulso elétrico é conduzido.
Na maioria dos casos, a síndrome está relacionada a alterações em genes que codificam canais iônicos cardíacos, especialmente o gene SCN5A, responsável pelo canal de sódio do coração.
📌 Importante: muitas pessoas com Síndrome de Brugada nunca terão sintomas ao longo da vida.
Sintomas: quando eles acontecem?
A maioria das pessoas é assintomática. Quando os sintomas aparecem, podem incluir:
desmaios (síncope), geralmente em repouso ou durante o sono
palpitações
crises convulsivas sem causa neurológica
parada cardíaca súbita (evento raro)
Idade de maior risco: isso é fundamental para tranquilizar famílias
Embora a alteração genética esteja presente desde o nascimento, a arritmia da Síndrome de Brugada raramente se manifesta na infância.
📌 O que mostram os estudos:
🔹 Maior risco: idade adulta, especialmente entre a 3ª e 5ª décadas de vida
🔹 Mais frequente em homens
🔹 Na infância: eventos são raros e geralmente associados a febre alta ou uso de medicamentos contraindicados
🔹 Pessoas que chegam à idade adulta ou idosa sem sintomas tendem a permanecer assintomáticas
👉 Isso é particularmente importante quando o diagnóstico surge sem sintomas, apenas por exames genéticos.
A Síndrome de Brugada como achado no exoma genético
Com a ampliação do uso do exoma genético para investigar atraso do desenvolvimento, epilepsia, autismo e outras condições, a Síndrome de Brugada passou a ser identificada com mais frequência como um achado incidental.
Isso significa que:✔ o exoma foi solicitado para investigar outra condição ✔ a pessoa não tinha sintomas cardíacos ✔ a alteração foi encontrada apenas no DNA.
📌 Ter uma variante associada à Brugada não significa ter doença ativa. A síndrome apresenta penetrância variável, e muitas pessoas portadoras da alteração genética nunca desenvolverão arritmias.
O exoma, nesse contexto, atua como uma ferramenta de prevenção, permitindo escolhas mais seguras ao longo da vida.
Pessoas assintomáticas diagnosticadas pelo exoma: é preciso algo além de evitar gatilhos?
👉 Na grande maioria dos casos, não é necessário tratamento. O cuidado é preventivo e simples.
✔ O que é recomendado
Avaliação cardiológica inicial
Eletrocardiograma basal
Acompanhamento periódico simples (ex: ECG a cada 1–3 anos)
Tratamento precoce da febre
Informação antes de cirurgias e anestesia
Revisão cuidadosa de medicamentos
❌ O que NÃO é indicado
uso preventivo de antiarrítmicos
implante de desfibrilador apenas por achado genético
restrição de esportes ou atividades cotidianas
medicalização excessiva da infância
Achado genético não transforma uma pessoa saudável em paciente cardíaco.
Medicamentos: por que isso é tão importante na Síndrome de Brugada?
Alguns medicamentos podem desencadear arritmias em pessoas com Brugada ao interferirem nos canais iônicos cardíacos. Por isso, a escolha de fármacos deve ser criteriosa.
🚫 Medicamentos que devem ser evitados
🔴 Antiarrítmicos – Classe I (bloqueadores de canal de sódio)
Flecainida
Propafenona
Procainamida
Ajmalina
Disopiramida
🔴 Antidepressivos tricíclicos
Amitriptilina
Imipramina
Clomipramina
Nortriptilina
Desipramina
🔴 Antipsicóticos com maior risco arrítmico
Haloperidol
Ziprasidona
Tioridazina
Levomepromazina
📌 Risco maior em doses altas, uso intravenoso ou associação medicamentosa.
🔴 Estabilizadores de humor
Lítio
🔴 Anestésicos locais (especialmente altas doses ou infusão contínua)
Bupivacaína
Procaína
🔴 Antialérgicos de 1ª geração
Difenidramina
Prometazina (Fenergan)
🔴Combinações com pseudoefedrina ou fenilefrina:
Decongex® / Decongex Plus®
Allegra D® (fexofenadina + pseudoefedrina)
Claritin D® (loratadina + pseudoefedrina)
Zyrtec D® (cetirizina + pseudoefedrina)
Benegrip® (algumas formulações)
Resfenol® (algumas formulações)
Gripenew® (algumas formulações)
📌 Importante: muitas marcas têm várias versões.O risco está no descongestionante, não no antialérgico.
🔴 Antibióticos com potencial pró-arrítmico
(avaliar sempre risco/benefício)
Eritromicina
Claritromicina
Azitromicina
Ciprofloxacino
Levofloxacino
🔴 Outras substâncias
Cocaína
Anfetaminas
Drogas estimulantes ilícitas
⚠️ MEDICAMENTOS QUE EXIGEM CAUTELA
(podem ser usados com avaliação individual e acompanhamento)
🟠 Antipsicóticos de uso frequente
Risperidona
Quetiapina
Olanzapina
📌 Recomenda-se:
ECG basal
evitar doses mais altas do que o necessário
cautela em associação com outros fármacos de risco
🟠 Antidepressivos ISRS (especialmente em doses altas)
Citalopram
Escitalopram
🟠 Anestésicos
Lidocaína (não é formalmente proibida, mas requer cautela)
👉 A lista atualizada e confiável está disponível em:BrugadaDrugs.org
Canabidiol (CBD) na Síndrome de Brugada
Isolado, Broad Spectrum e Full Spectrum
O uso de cannabis medicinal tem crescido, mas nem todas as formulações têm o mesmo perfil de segurança.
🟢 Canabidiol isolado (CBD puro)
✔ opção mais segura✔ não interfere diretamente nos canais de sódio cardíacos✔ preferido em pacientes com Brugada
🟡 Broad Spectrum
⚠ não contém THC, mas inclui outros canabinoides⚠ evidência limitada em Brugada⚠ usar com cautela e acompanhamento médico
🔴 Full Spectrum (com THC)
🚫 não é a forma preferida🚫 o THC pode:
aumentar frequência cardíaca
alterar o sistema nervoso autônomo
potencialmente facilitar arritmias
👉 Deve ser evitado sempre que possível em pacientes com Síndrome de Brugada.
Febre: um gatilho importante
A febre pode desencadear alterações elétricas no coração.
✔ tratar febre precocemente✔ preferir paracetamol ou dipirona✔ atenção especial em crianças
Centros de referência e pesquisa
🌍 Internacionais
Mayo Clinic
Amsterdam UMC
Stanford University
Hôpital Bichat
🇧🇷 Brasil
InCor – FMUSP
UNIFESP – Eletrofisiologia
Serviços universitários especializados em arritmias hereditárias
Mensagem final 💙
A Síndrome de Brugada, especialmente quando identificada apenas pelo exoma em pessoas assintomáticas, é uma informação de proteção, não de alarme.
Na maioria dos casos:
não haverá sintomas
não será necessário tratamento
a vida seguirá normalmente
O que muda é apenas isto:👉 mais informação para escolhas mais seguras.

Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.
Saiba mais:
🏥 Centros de referência e pesquisa
Mayo Clinic – Genetic Heart Rhythm Clinic🔗 https://www.mayoclinic.org
Amsterdam UMC – Brugada Research Group🔗 https://www.amsterdamumc.org
Stanford Cardiac Electrophysiology🔗 https://med.stanford.edu/cardiology.html
InCor – FMUSP (Brasil)🔗 https://www.incor.usp.br
🔹 Revisões e consensos (fundamentais)
Brugada J, et al.Brugada syndrome. Nature Reviews Disease Primers, 2018.🔗 https://www.nature.com/articles/s41572-018-0024-2
Antzelevitch C, et al.Brugada Syndrome: Report of the Second Consensus Conference. Circulation, 2005.🔗 https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/CIRCULATIONAHA.105.548033
Wilde AAM, et al.Proposed diagnostic criteria for the Brugada syndrome. Heart Rhythm, 2012.🔗 https://www.heartrhythmjournal.com/article/S1547-5271(11)01200-5/fulltext
🔹 Genética, exoma e penetrância variável
Ackerman MJ, et al.HRS/EHRA Expert Consensus Statement on the State of Genetic Testing for the Channelopathies. Heart Rhythm, 2011.🔗 https://www.heartrhythmjournal.com/article/S1547-5271(11)00148-3/fulltext
Kapplinger JD, et al.Spectrum and prevalence of SCN5A mutations associated with Brugada syndrome. Circulation, 2010.🔗 https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/CIRCULATIONAHA.109.884023
Postema PG, Wilde AAM.The measurement of the Brugada ECG pattern. J Electrocardiology, 2014.🔗 https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0022073613003501
🔹 Medicamentos e gatilhos
Postema PG, et al.Drugs and Brugada syndrome patients: review of the literature. Heart Rhythm, 2009.🔗 https://www.heartrhythmjournal.com/article/S1547-5271(09)00537-0/fulltext
BrugadaDrugs.org – lista internacional atualizada de medicamentos🔗 https://www.brugadadrugs.org
(Essa é a principal referência prática para médicos e famílias)
🔹 Febre e risco em crianças
Mizusawa Y, Wilde AAM.Brugada syndrome. Circulation Arrhythmia and Electrophysiology, 2012.🔗 https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/CIRCEP.111.962571
Porres JM, et al.Fever-induced Brugada syndrome in children. Heart Rhythm, 2016.🔗 https://www.heartrhythmjournal.com/article/S1547-5271(15)01526-1/fulltext
🔹 Cannabis, canabidiol e sistema cardiovascular
Franz CA, Frishman WH.Marijuana Use and Cardiovascular Disease. Cardiology in Review, 2016.🔗 https://journals.lww.com/cardiologyinreview/Fulltext/2016/09000/Marijuana_Use_and_Cardiovascular_Disease.4.aspx
Page RL, et al.Medical Marijuana, Recreational Cannabis, and Cardiovascular Health. Journal of the American College of Cardiology, 2020.🔗 https://www.jacc.org/doi/10.1016/j.jacc.2020.05.002
📌 Esses trabalhos embasam a preferência pelo CBD isolado e a cautela com produtos full spectrum (THC) em cardiopatias elétricas.






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