🧠 Suzana Herculano-Houzel — reconhecimento tardio no espectro autista
- Berenice Cunha Wilke
- 7 de ago. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 15 de fev.
O diagnóstico do autismo na vida adulta ainda representa um desafio clínico relevante. Indivíduos com altas habilidades cognitivas frequentemente desenvolvem estratégias sofisticadas de compensação social, capazes de mascarar dificuldades nucleares do espectro por décadas.
Esse fenômeno é particularmente frequente em mulheres e em pessoas com elevado desempenho acadêmico ou científico.
Um exemplo contemporâneo que trouxe visibilidade a essa discussão é o da neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel.
Uma cientista de projeção internacional
Bióloga e neurocientista reconhecida mundialmente por suas pesquisas sobre a evolução do cérebro humano, Suzana é professora associada nos departamentos de Psicologia e Ciências Biológicas da Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, onde leciona desde 2016.
Foi a primeira brasileira a receber o Scholar Award da James S. McDonnell Foundation, uma das mais importantes distinções internacionais na área de neurociência cognitiva.
Recentemente, passou a se reconhecer dentro do espectro autista ao revisitar aspectos de sua própria trajetória pessoal, social e emocional.
O gatilho de auto-reconhecimento
Suzana relata que a leitura do livro Um Antropólogo em Marte, do neurologista Oliver Sacks, teve papel fundamental nesse processo.
A obra reúne relatos clínicos de indivíduos com diferentes condições neurológicas. O conto que dá nome ao livro narra a história de Temple Grandin, cientista animal autista que descrevia sentir-se como uma “antropóloga em Marte”, observando a humanidade como uma estrangeira social.
Essa narrativa funcionou como um espelho identificatório.
Linguagem científica como refúgio
Assim como Temple Grandin, Suzana descreve que a linguagem técnica e científica sempre lhe foi muito mais acessível do que a linguagem social implícita.
A ciência, nesse contexto, exerceu dupla função:
Campo de excelência cognitiva
Espaço de previsibilidade relacional
Refúgio frente à complexidade social
Esse padrão é frequentemente descrito por adultos no espectro com alta performance intelectual.
Relatos pessoais de infância
Em entrevista à imprensa, Suzana descreveu percepções precoces de diferença social:
“Minha mãe me chamava de marcianinha. ‘Bicho do mato’ era outra expressão.”
Relata que observava o comportamento humano de forma analítica, muitas vezes à distância, tentando compreender padrões sociais que para outros pareciam intuitivos.
Também descreve episódios de mutismo situacional diante de estresse emocional:
“Eu ficava muda, literalmente muda.”
Pais e professores precisavam percorrer uma longa lista de perguntas até identificar a causa do sofrimento.
Impactos na vida adulta
O reconhecimento de características do espectro tornou-se mais claro durante conflitos conjugais:
“Percebi que a fonte dos atritos eram problemas de comunicação.”
Segundo ela, muitos desentendimentos surgiam da diferença entre:
Comunicação baseada em fatos explícitos
Expectativas implícitas não verbalizadas
Inferências emocionais indiretas
Pessoas no espectro tendem a priorizar comunicação literal e verificável, apresentando maior dificuldade com leitura intuitiva de intenções sociais.
Sinalização de sobrecarga sensorial
Recentemente, Suzana passou a utilizar o colar de margaridas — símbolo internacional de deficiência oculta — em ambientes como trens e aviões, para sinalizar sobrecarga sensorial e necessidade de adaptação ambiental.
Esse tipo de recurso tem sido cada vez mais utilizado por adultos autistas em contextos públicos.

Sou Dra. Berenice Cunha Wilke, médica formada pela UNIFESP em 1981, com residência em Pediatria na UNICAMP. Obtive mestrado e doutorado em Nutrição Humana na Université de Nancy I, França, e sou especialista em Nutrologia pela Associação Médica Brasileira. Também tenho expertise em Medicina Tradicional Chinesa e uma Certificação Internacional em Endocannabinoid Medicine. Lecionei em universidades brasileiras e portuguesas, e atualmente atendo em meu consultório, oferecendo minha vasta experiência em medicina, nutrição e medicina tradicional chinesa aos pacientes.
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